quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O Caminho do Infinito


Entre o tudo e o nada, escolho caminhar,

Pois o importante da vida é saber sentir,

Viver com emoção, aprender a recomeçar,

E, na incerteza dos passos, nunca desistir.

Quando uma porta se fecha e o mundo se cala,

Não me demoro na sombra do desalento,

Mudo o rumo, sigo a voz que me fala,

E busco outra direção a cada momento.

Nas noites longas em que caminho sozinho,

Trilho a fronteira entre a dor e a superação,

Procuro o infinito que aguarda no caminho,

Com a esperança gravada no coração.

Sinto a luz a queimar-me no peito,

Uma chama viva que me impede de parar,

Entre o amor e a razão, num tom imperfeito,

Continuo a pensar, a sentir e a procurar.

Vou seguindo em frente, sem olhar para trás,

Na busca constante do que é existir,

Pois é na travessia que a alma se faz,

E no ato de viver que me volto a descobrir.

 

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O Pai Natal da Aldeia

 

Vivia em África os primeiros anos da sua infância. O Natal, como para todas as crianças, era um momento mágico — não só pelo convívio familiar, mas também pela magia das prendas, que surgiam todas como por obra de magia. O pequeno Bernardo ainda conseguia fechar os olhos e ouvir o apito do comboio de lata, sentir a textura do seu carrinho de bombeiros com o tubo de escape reluzente e ver a mesa farta cercada de luz e gargalhadas sob as noites quentes do calor africano.

Porém, houve um dia em que o regresso a Portugal aconteceu.

A família deixou para trás a terra do sol e regressou à aldeia dos seus pais, incrustada entre montanhas cinzentas e nevoeiros espessos. Para o pequeno Bernardo, o choque foi imediato. A forma de vestir das pessoas — pesada, escura, feita de lã áspera —, as casas modestas de pedra fria e o vento gelado que trespassava as frestas das janelas transformaram o Natal. A festa deixara de ser quente e luminosa; era agora um dia frio, distante e marcado pelo isolamento na rota silenciosa entre as casas dos familiares. E as prendas... essas deixaram de ser um momento de expectativa. O comboio reluzente fora substituído por uma meia de lã com duas nozes, uma maçã e um peão de madeira escavado à mão.

A partir desse momento, a mente do rapaz tornou-se um labirinto de perguntas. Porque é que esse Pai Natal se tornara, de repente, tão pobre? Seria a influência das pessoas? O lugar estaria amaldiçoado? Ou teria o Pai Natal ficado doente ao atravessar o oceano? Bernardo gostava de saber o que estaria a passar para tão brusca mudança. Talvez o tempo lhe desse uma resposta.

Passaram dois anos. Bernardo cresceu a observar os adultos da aldeia. Notava como trocavam olhares cúmplices ao entardecer, como o velho artesão da aldeia fechava a oficina semanas antes de dezembro e como o seu próprio pai guardava, num baú trancado no sótão, cartas amareladas com carimbos do Ultramar.

— Pensei que o Pai Natal se tinha esquecido de nós quando viemos para aqui — sussurrou Bernardo, saindo da penumbra.

O pai virou-se, surpreso, mas o seu olhar não era de culpa; era de uma profunda e silenciosa nostalgia.

— Bernardo... em África, a magia vinha de longe, embalada em caixas que escondiam a distância que nos separava das nossas raízes — disse o pai, com a voz embargada pelo frio. — Mas aqui, na aldeia, a magia não vem de trenós ou de lojas cintilantes. O Pai Natal desta terra não é rico, mas veste as roupas gastas dos teus tios, do artesão e dos teus avós. Ele dá tudo o que tem, mesmo quando não tem quase nada.

Bernardo decidiu estar atento até à noite de Natal para tentar descobrir este Pai Natal da aldeia. Manteve-se em silêncio, encolhido sob as mantas pesadas de lã, controlando a respiração na penumbra do quarto. Eis que, no silêncio denso da madrugada gelada, ouviu o ranger discreto das tábuas do soalho. Espreitou pela fresta da porta e descobriu o seu "Pai" Natal, que trazia com cuidado algumas prendas modestas e as colocava junto à lareira apagada. Foi nesse preciso momento que se apercebeu de um rosto familiar sob o capuz gasto do sobretudo.

Não era uma figura mágica vinda do Norte, nem um estranho das montanhas: era o seu próprio pai. As mãos que agora depositavam o peão de madeira e as nozes eram as mesmas mãos calejadas pelo trabalho árduo da terra, as mesmas que em África sustentavam os brinquedos reluzentes e que agora faziam o impossível para alimentar a casa e aquecer o inverno.

Bernardo não disse nada no momento. Guardou o segredo no peito como um tesouro precioso. No dia seguinte, quando chegou a hora de abrir as prendas sob o olhar ansioso da família, o pequeno Bernardo segurou o peão de madeira com uma firmeza nova. Olhou nos olhos do pai, sorriu com uma maturidade que a infância até ali não conhecera, e informou a todos, com a voz clara e serena, que o seu Pai Natal era exatamente o mesmo de África. E que, para ele, isso chegava e bastava — pois quem dá tudo o que tem, a nada mais é obrigado.

Naquela casa fria de pedra, o Natal voltou, finalmente, a ser quente.

 

terça-feira, 20 de outubro de 2026

O Abismo do Nosso “EU”

 

Há recantos dentro de nós que nem a própria consciência ousa iluminar. Lugares onde a alma se desfaz em silêncio, onde os pensamentos ganham o peso de sentenças irrevogáveis e cada verdade, por mais pequena que seja, se transforma num fardo difícil de suportar. São abismos que não se revelam ao primeiro olhar, profundezas que aprendemos a esconder até de nós próprios, como se ignorá-las fosse suficiente para impedir a sua existência.

Continuar a caminhar tornou-se um gesto mecânico, uma sucessão de passos sem destino, como quem percorre, de olhos vendados, o fio estreito entre a lucidez e o colapso. Há dias em que existir se resume a cumprir o movimento dos ponteiros, a atravessar as horas sem verdadeiramente as viver. Perdemos o contacto com o mundo exterior, não por deixarmos de o ver, mas porque olhar para ele exige uma força que já não sabemos onde encontrar. E, no entanto, quando desviamos os olhos de tudo o que nos rodeia, descobrimos que o verdadeiro caos nunca esteve lá fora. Esperava-nos cá dentro.

O abismo abre-se sem aviso. Primeiro, é apenas um desconforto vago, uma inquietação que se instala por detrás dos olhos. Depois, torna-se uma pressão nas têmporas, um nó na garganta, um murmúrio persistente nos breves intervalos da respiração. A mente regressa a lugares que julgávamos esquecidos, desenterra palavras que nos feriram, recupera erros que o tempo não conseguiu absolver. E, nessa procura desorientada por um alívio imediato, rendemo-nos ao ecrã: alimentados por um algoritmo silencioso que detecta as nossas fraquezas e nos devolve um espelho deformado, multiplicando as nossas dúvidas sob o pretexto de nos ligar ao mundo. Há memórias e inseguranças que enterramos tão fundo que acabamos por confundir o esquecimento com a cura. Mas aquilo que não enfrentamos não desaparece; aprende apenas a sobreviver na sombra, refinado pelas distrações diárias, à espera do momento em que baixamos a guarda.

Talvez seja esse o primeiro engano da nossa existência: acreditarmos na autonomia absoluta do nosso aparente «Eu». Convencemo-nos de que somos donos de nós mesmos, de que controlamos os nossos passos, de que escolhemos livremente os pensamentos que nos atravessam e de que a vontade basta para manter a mente sob controlo. Erguemos, dentro de nós, uma imagem rígida de identidade e equilíbrio, uma estrutura frágil que procuramos preservar a todo o custo. Porém, esse aparente «Eu» — muitas vezes moldado por respostas automáticas, estímulos calculados e narrativas construídas — basta uma dúvida, uma recordação ou uma pergunta sem resposta para que as suas fundações estremeçam. E, nesse instante, percebemos que nem sempre somos quem decide o rumo da própria consciência. Por vezes, somos apenas espectadores de uma batalha que se desenrola dentro de nós, manipulada por fios invisíveis, sem princípio aparente e sem uma vitória à vista.

Há um chamamento constante que nos acompanha, uma espécie de eco que emerge das profundezas e insiste em perguntar o que procuramos, afinal. O que esperamos encontrar quando nos perdemos em pensamentos ou quando perseguimos freneticamente a aprovação alheia? Uma explicação para aquilo que somos? Uma razão para continuarmos? Ou apenas a certeza de que todo este tumulto interior significa alguma coisa?

 

Procuramos respostas como quem procura uma saída num edifício em chamas. Cada reflexão ou cada nova validação externa promete uma porta, mas abre apenas outra divisão, mais escura e mais estreita do que a anterior. E, no fim, resta-nos uma sensação gelada de isolamento, como se habitássemos um planeta solitário, suspenso na imensidão, onde a nossa linguagem não encontra tradução e onde até o grito mais desesperado se perde antes de chegar a alguém.

É estranho sentir-nos tão distantes dos outros quando vivemos rodeados de pessoas e conectados por redes infinitas. Partilhamos ruas, mesas, conversas, perfis e sorrisos; trocamos palavras que parecem aproximar-nos, enquanto preservamos, atrás dos olhos, territórios inteiros aos quais ninguém tem acesso. Aprendemos a responder que está tudo bem, a rir nos momentos certos, a procurar a métrica perfeita ou o aplauso efémero que acalme a rejeição. Tornamo-nos especialistas em parecer inteiros, mesmo quando, por dentro, alguma coisa se desfaz lentamente.

E é então que surge a dúvida: até que ponto nos conhecemos verdadeiramente? Quantas das nossas atitudes nascem de um desejo genuíno e quantas resultam do medo de desagradar, de sermos rejeitados ou da busca incessante por validação externa? Quantas vezes escolhemos aquilo que queremos e quantas outras escolhemos apenas o que nos garante o reconhecimento dos outros ou o alimento do nosso próprio ego?

Cada desejo que escondemos revela um pequeno conflito, uma guerra silenciosa entre duas necessidades incompatíveis: sobreviver sem perder o que resta de nós ou mostrarmo-nos como realmente somos, correndo o risco de sermos destruídos pelo olhar alheio. Queremos ser compreendidos, mas receamos ser conhecidos. Ansiamos por proximidade, mas dependemos do julgamento exterior e erguemos muralhas sempre que alguém se aproxima demasiado da nossa verdade. Desejamos que alguém atravesse as nossas defesas, embora sejamos os primeiros a reforçá-las quando sentimos o perigo de sermos vistos para além da personagem que o aparente «Eu» construiu para o mundo.

Observamos a multidão — física e digital — e interrogamo-nos sobre a autenticidade de quem passa. Serão os outros tão seguros quanto aparentam nas suas vidas encenadas? Haverá alguém que não tenha aprendido a representar um papel, a adaptar a voz, a alimentar o algoritmo com uma versão polida de si mesmo para disfarçar as próprias contradições? Ou seremos todos atores exaustos, presos a personagens que criámos para sobreviver num mundo que parece recompensar a aparência e castigar a vulnerabilidade?

Talvez cada pessoa esconda o seu próprio abismo. Talvez, por detrás de cada rosto tranquilo ou de cada imagem cuidadosamente trabalhada, exista uma consciência inquieta, uma história por contar, uma dor que nunca encontrou palavras. E talvez seja precisamente isso que nos separa: não a ausência de sofrimento, mas a incapacidade de reconhecer o sofrimento uns dos outros, demasiado ocupados em manter o espetáculo da validação. Caminhamos lado a lado, carregando universos inteiros, sem suspeitarmos de que a distância que nos divide pode ser tão pequena quanto uma pergunta sincera ou tão intransponível quanto o medo de responder com verdade.

Tentar alcançar a essência das coisas é uma tarefa quase insuportável. Quanto mais fundo procuramos, mais incertas se tornam as certezas que nos sustentavam. Questionamos o sentido das escolhas, a natureza dos sentimentos, a origem dos nossos receios e o peso que damos à opinião dos outros. Desmontamos as convicções que antes nos davam segurança e descobrimos, por baixo delas, outras dúvidas, mais antigas e mais difíceis de enfrentar. Há um momento em que pensar deixa de ser uma forma de compreender e passa a ser uma maneira de nos ferirmos. A razão, que julgávamos capaz de nos libertar, transforma-se num labirinto onde cada saída desemboca numa nova pergunta.

Mas o silêncio também cobra o seu preço. Aquilo que não dizemos acumula-se. As palavras que engolimos permanecem dentro de nós, misturadas com tudo o que gostaríamos de ter feito, com as respostas que só encontrámos tarde demais e com as verdades que nunca tivemos coragem de pronunciar. O desconforto instala-se como um inquilino permanente, ocupando os espaços que antes reservávamos à tranquilidade. E a mente, implacável na sua necessidade de encontrar explicações — e frequentemente atiçada por estímulos externos —, transforma qualquer dúvida insignificante numa sucessão interminável de cenários. Um erro antigo regressa disfarçado de advertência. Um fracasso transforma-se numa definição de quem somos. Uma rejeição converte-se numa prova de que nunca seremos suficientes se não formos validados.

Assim, começamos a confundir aquilo que nos aconteceu com aquilo que somos. As cicatrizes deixam de ser marcas do passado e passam a servir de medida para o futuro. Antecipamos a dor antes de ela existir, afastamo-nos antes de sermos rejeitados e desistimos antes de descobrirmos se éramos capazes, reféns do medo do julgamento alheio. Chamamos prudência ao medo, maturidade à resignação e força à capacidade de suportar tudo em silêncio. Sem darmos conta, construímos uma prisão com os mesmos mecanismos que inventámos para nos proteger.

E, ainda assim, continuamos a tentar pertencer.

Procuramos um lugar onde a nossa presença não pareça excessiva, onde as nossas dúvidas não incomodem e as nossas diferenças não precisem de ser justificadas. Observamos a facilidade com que os outros parecem encaixar-se nos contornos da vida e perguntamo-nos o que haverá de errado connosco. Porque não conseguimos acompanhar o ritmo? Porque nos custa tanto aceitar regras e padrões que os outros cumprem sem hesitar? Porque sentimos que, para sermos acolhidos, temos primeiro de amputar as partes de nós que não cabem nas expectativas alheias?

Tentamos adaptar-nos. Suavizamos as opiniões, escondemos os impulsos, corrigimos os gestos e aprendemos a falar uma língua que não é inteiramente nossa, moldada para agradar. Cedemos pequenas parcelas da nossa identidade, convencidos de que o sacrifício nos aproximará dos outros e nos trará o reconhecimento de que tanto precisamos. Mas cada concessão deixa um vazio, e cada máscara que colocamos para alimentar essa validação externa torna mais difícil recordar o rosto que existia por baixo dela. Até que um dia nos olhamos ao espelho e sentimos a estranheza de quem encontra um desconhecido. Reconhecemos os traços, os olhos, a expressão cansada, mas falta qualquer coisa essencial: a certeza de ainda habitarmos o corpo que vemos e de que a vida que levamos pertence à nossa própria essência, e não apenas às exigências do mundo.

Talvez seja essa a forma mais cruel da solidão: não a ausência de companhia, mas a incapacidade de permanecermos connosco próprios sem sentir necessidade de fugir ou de procurar confirmação cá fora. Porque podemos abandonar lugares, pessoas e memórias, podemos mudar de vida, de cidade ou de nome, mas não existe distância suficiente para escapar à consciência que nos acompanha. Levamos connosco tudo aquilo de que tentamos fugir. E, quanto mais procuramos silenciar o tumulto interior recorrendo a distrações ou a aprovações efémeras, mais alto ele se torna.

Chega, então, o momento em que nos encontramos à beira do precipício. Não necessariamente perante uma queda visível, nem diante de uma tragédia que o mundo possa reconhecer, mas naquele instante íntimo em que já não conseguimos fingir que estamos bem. O instante em que o cansaço de representar para uma plateia invisível se torna maior do que o medo de sermos descobertos. Em que percebemos que continuar a viver em função do olhar dos outros ou contra a nossa própria natureza é apenas uma forma lenta de desaparecimento.

Olhar para o abismo exige coragem, mas também uma honestidade que raramente estamos preparados para oferecer a nós mesmos. Obriga-nos a desarmar a Ilusão do aparente «Eu», a reconhecer as contradições que nos habitam, os desejos que negamos, os receios que disfarçamos e as feridas que transformámos em identidade. Obriga-nos a aceitar que não somos inteiramente bons nem inteiramente maus, nem tão fortes como gostaríamos, nem tão frágeis como tememos. Somos feitos de impulsos contraditórios, de certezas provisórias, de sombras que não escolhemos e de decisões pelas quais temos de responder.

Talvez nunca consigamos iluminar todos os recantos da nossa consciência. Talvez existam perguntas para as quais não haverá resposta, memórias que continuarão a doer e partes de nós que permanecerão incompreensíveis. Mas poderá ser precisamente aí que começa uma forma diferente de liberdade: não na conquista de um controlo absoluto sobre aquilo que somos, nem na aprovação do mundo, mas na capacidade de deixar de lutar contra cada imperfeição, cada dúvida e cada contradição.

Porque o abismo não é apenas o lugar onde nos perdemos. É também o lugar onde descobrimos o que escondemos de nós próprios. E, embora encará-lo não garanta a salvação, permite-nos reconhecer a distância que construímos entre a pessoa que somos e aquela que aprendemos a representar para ser aceite.

No fim, talvez a pergunta mais difícil não seja quem somos, mas quanto de nós estamos dispostos a sacrificar pela validação alheia. Quantas verdades continuaremos a enterrar para evitar o desconforto de as revelar. Quantas vezes escolheremos a segurança de uma mentira aprovada pelo algoritmo e pelos outros em vez do risco de uma existência autêntica.

Continuamos a caminhar, é certo. Por vezes, por hábito; outras, por medo; outras ainda, porque uma parte de nós insiste em acreditar que existe qualquer coisa para além desta escuridão. E talvez não precisemos de compreender tudo para dar o próximo passo. Talvez não seja necessário vencer o abismo, nem sequer encontrar o seu fundo. Talvez baste aprender a olhar para ele sem permitir que nos convença de que somos apenas a imagem que os outros devolvem.

Porque o maior perigo não está em descobrirmos a escuridão que existe dentro de nós, mas em acreditarmos que somos feitos exclusivamente dela e da opinião de quem nos rodeia.

E, enquanto houver em nós a capacidade de questionar, de sentir e de procurar uma verdade que não dependa do olhar dos outros nem dos estímulos do mundo exterior, haverá sempre uma parte que resiste. Pequena, silenciosa, quase impercetível, mas ainda nossa — para além do ruído do algoritmo e da ilusão do aparente «Eu».

Talvez seja aí, nesse lugar onde o medo e a esperança coexistem, que comece o regresso a nós próprios.

sábado, 17 de outubro de 2026

Sombras de Filadélfia

 

O ar frio da noite entrava-me pelos pulmões com um travo metálico e denso. Os meus passos ecoavam na calçada húmida, num ritmo lento, compassado, enquanto a sensação de peso subia do chão até aos joelhos; caminhei pela avenida até que as minhas pernas parecessem pedra.

À minha volta, Filadélfia desdobrava-se numa penumbra de luzes de néon a piscar e sombras compridas. Em cada esquina, o silêncio da noite não era realmente silêncio — era habitado por memórias e fantasmas de um passado recente. Ouvi as vozes de amigos que desapareceram, que se foram pelo efeito das drogas. Rostos que um dia sorriram nas salas de aula ou em tardes quentes de verão surgiam-me na mente, desfocados, tragados por um nevoeiro constante.

Parei por um instante junto a um muro de tijolo escuro. Se ficasse em silêncio absoluto, parecia que podia escutar a própria cidade a pulsar; à noite, eu podia ouvir o seu sangue correndo, mas sentia-me completamente incapaz. Ali estava eu, no país dito desenvolvido, mas que deixa os seus cair nos abismos onde as respostas simplesmente não existem. Uma grande potência, sim, mas edificada sobre uma sociedade que desistiu dos seus, num mundo de seres perdidos que buscam respostas para as suas angústias em lugares onde só encontram a penumbra.

Continuei a andar cruzando avenidas onde o cenário parecia repetir-se em ciclos intermináveis. Nas ruas da Filadélfia, o ar vinha carpido pelos perdidos sem rumo, corpos e almas retorcidos sem amparo e sem resposta. Era o retrato vivo de uma terra orgulhosa, mas profundamente quebrada por dentro.

Um homem encolhido sob um cobertor gasto olhou para mim de relance; nos seus olhos refletia-se o farol vermelho de um carro que passava ao longe. Fiquei a olhar para o horizonte do fundo da rua, onde os arranha-céus iluminados tocavam o céu escuro, contrastando com o chão onde os meus pés pisavam. Atravessei a rua e deixei que a noite me levasse mais uns metros à frente, até parar no cruzamento.

O ar frio da noite continuava a rasgar a avenida, mas desta vez o meu passo abrandou junto à entrada de um edifício devoluto. Encostado à parede de tijolo grelado, embrulhado num casaco rasgado que já vira melhores dias, estava o Thomas. Os seus olhos, encovados e cansados, fixaram-se nos meus por um segundo antes de soltar uma baforada de ar esbranquiçado.

Aproximei-me devagar, ajustando o meu casaco ao corpo. O peso nas minhas pernas parecia agora partilhado com a gravidade do ambiente à nossa volta.

— Tens um cigarro? — perguntou, com a voz rouca, quase num sussurro engolido pelo barulho distante do trânsito.

— Não tenho... mas posso sentar-me um bocado? — pedi, apontando para o degrau de pedra fria.

Ele encolheu os ombros, dando um pequeno espaço. Sentei-me ao seu lado, sentindo a humidade do chão entranhar-se no tecido das calças. Por momentos, ficámos apenas a ouvir a cidade a pulsar ao longe.

— Há quanto tempo estás por aqui, Thomas? — perguntei, quebrando o silêncio.

Soltou um riso seco, sem réstia de alegria.

— Perdi a conta aos anos... ou talvez aos dias. Sabe, quando se está no fundo do poço, os dias misturam-se todos numa sombra só.

— Como é que tudo começou? — olhei para as suas mãos calejadas, com marcas de quem já trabalhara duro.

— Como começa para quase toda a gente por estas ruas— Eu tinha uma vida normal. Trabalhava na construção, tinha uma casa, uma família... Um dia, num trabalho de estrutura de um prédio, caí de um andaime. Parti as costas em dois sítios.

Pausou, passando a mão pelo rosto marcado pelo tempo e pelo cansaço.

— O médico receitou-me analgésicos fortes para conseguir aguentar as dores e voltar ao trabalho. Na altura, parecia a salvação. Mas o corpo habituou-se. Quando os comprimidos receitados acabaram, a dor continuava lá — e a dependência também. Sem seguro que cobrisse o tratamento e sem conseguir trabalhar, comecei a procurar na rua o que os médicos já não me davam.

— E a partir daí...

— A partir daí é uma descida rápida — interrompeu. — Em menos de dois anos, perdi o emprego, perdi a casa, e a vergonha fez-me afastar de quem me amava. Quando dás por ti, estás aqui. As pessoas passam por ti como se fosses invisível, ou pior, como se fosses um obstáculo no passeio. Esta cidade é rica, é grandiosa...mas quando cais neste buraco, percebes que ninguém vem estender a mão para te tirar daqui. A sociedade simplesmente segue em frente e finge que nunca exististe.

Thomas calou-se, fixando o vazio da avenida iluminada pelos néons fluorescentes. O vento soprou mais forte, trazendo o cheiro a poeira e a asfalto molhado.

Levantei-me devagar, sentindo o frio a entorpecer-me as articulações. Encarei aquele homem por mais um instante, vendo no seu olhar o reflexo de tantos outros que a cidade engoliu. Dei dois passos em frente e continuei a caminhar pela noite fora, enquanto a pergunta continuava a ecoar no silêncio da rua: até quando?

 

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Rica, mas Pobre de Pensamentos

 Era uma vez uma senhora de origens humildes, que cresceu no turbilhão de uma vida turbulenta e cheia de sobressaltos. Um dia, quase por mero acaso, preencheu as cruzes num boletim e, de uma hora para a outra, tornou-se milionária.

Diante de tamanha reviravolta, tratou de encontrar explicações celestiais: justificou a bênção financeira com a devoção aos santos, com a sua vida passada de sacrifícios e com a certeza inabalável de que os seus mereciam tal sorte divina.

A mudança de estatuto não esperou pelo amanhã. Ostentou, de imediato, os sinais mais evidentes da nova vida: carros de alta cilindrada a roncar à porta, um guarda-roupa inteiramente renovado com etiquetas reluzentes e uma mansão imponente. Rapidamente perfilou-se como uma empresária de sucesso, temperando a sua nova persona com uns raios de solidariedade grotesca, distribuída com soberba condescendência aos "pobrezinhos" — como gostava de lhes chamar.

Ao longo dos anos, tornou-se figura assídua na imprensa. Concedia entrevistas onde desfiava a sua história de vida, apresentando-se quase incólume, como uma santa que a divindade decidira recompensar com merecida fortuna. Em tom de desabafo, argumentava com frequência que, mesmo sendo rica, sentia que todos se aproximavam de si apenas pelo seu dinheiro — até os mais próximos, dos quais desconfiava sem cessar.

Com o tempo, porém, começou a tornar-se evidente que a sua maior pobreza nunca fora material. Era uma pobreza mais profunda, dessas que não se resolvem com dinheiro nem se disfarçam com marcas de luxo: a pobreza de princípios, de consciência e de capacidade para olhar o mundo para além do próprio umbigo.

A mansão crescera em metros quadrados, mas não em horizontes. A garagem enchera-se de automóveis, mas continuava a faltar-lhe a capacidade de avançar para além dos preconceitos. O guarda-roupa multiplicara-se em tecidos caros, mas nenhuma peça conseguira vestir-lhe a humildade. Os objetos mudavam, os cenários renovavam-se, as fotografias ganhavam novos fundos, mas a essência permanecia prisioneira das mesmas limitações.

Era, no fundo, uma mulher rodeada de abundância e governada pela escassez. Escassez de pensamento crítico, de empatia genuína, de sentido de justiça e, sobretudo, de consciência das próprias contradições. Tinha dinheiro suficiente para comprar quase tudo, menos a lucidez necessária para reconhecer que o preço das coisas nada tem a ver com o seu valor. Confundia o poder de compra com superioridade moral e a capacidade de oferecer esmolas com o direito de se sentir superior a quem delas precisava.

A sua caridade, tantas vezes exibida como prova de bondade, trazia sempre escondida uma fatura invisível: a da submissão, da gratidão obrigatória e da humilhação subtil de quem recebia. Não ajudava para diminuir a distância entre os que tinham e os que não tinham; ajudava, antes, para confirmar a distância que tanto gostava de preservar. Chamava-lhes pobrezinhos, sem perceber que a expressão dizia muito mais sobre a sua própria pequenez do que sobre a condição daqueles a quem se dirigia.

E havia ainda uma ironia difícil de ignorar: a mulher que tanto desconfiava de ser procurada pelo dinheiro parecia incapaz de imaginar relações humanas que não fossem medidas pelo interesse. Suspeitava da ganância alheia, mas raramente questionava a sua própria vaidade. Temia que os outros a quisessem pela fortuna, sem se perguntar se, despojada dos carros, da mansão e dos sinais exteriores de prosperidade, lhe restaria alguma coisa capaz de despertar uma admiração que não fosse comprada pelo prestígio.

Talvez fosse essa a verdadeira tragédia da sua história: ter passado de uma vida de privações para uma vida de abundância sem nunca ter compreendido a diferença entre possuir muito e ser muito. A fortuna oferecera-lhe meios, mas não lhe dera critérios; abrira-lhe portas, mas não lhe alargara a visão; colocara o mundo ao seu alcance, mas não a ensinara a compreendê-lo.

E assim terminou o ciclo, não com a queda de uma milionária, mas com a revelação de uma ilusão. A fortuna tinha sido apenas uma mudança de circunstâncias, nunca uma evolução de carácter. Os bens materiais tinham crescido até à exuberância; os princípios, esses, continuavam reduzidos à dimensão original.

domingo, 11 de outubro de 2026

A Sombra do Aquário

Tomás tinha o dom raro de olhar para além do verniz. Onde os outros viam a superfície polida das certezas, ele reconhecia as fissuras da falsidade. Sabia distinguir a luz verdadeira daquela que apenas fingia iluminar. No rosto carregava a honestidade de quem vivia num mundo de aparências e, ainda assim, conservava a coragem de acreditar naquilo em que acreditava.

Houve um tempo em que os dias pareciam ter a vastidão do horizonte.

Lembrava-se de quando trocara um sonho antigo por um eco vazio; de quando abandonara um campo aberto para se fechar num quarto sem janelas; de quando, sem perceber o momento exato, trocara as asas por correntes de aço.

Por vezes, sentia-se como nos versos que trazia há anos dentro de si: somos apenas seres perdidos, nadando num aquário.

Ano após ano, percorria o mesmo caminho, pisava o mesmo chão, regressava aos mesmos lugares. E, no fim de cada volta, encontrava apenas o vazio — como se o mundo tivesse encolhido ao tamanho daquele vidro.

Tinha sido arrastado para o fundo por um mar que nunca previra. Ainda assim, continuava a sonhar acordado.

Talvez porque, mesmo no fundo, alguma coisa dentro dele recusasse permanecer adormecida.

Os medos do passado voltavam sempre. Tinham rostos, vozes, nomes. E havia palavras que continuava a carregar consigo — palavras que nunca tivera coragem de dizer, talvez porque algumas verdades, depois de pronunciadas, já não permitem regressar ao silêncio.

Naquela noite, porém, havia qualquer coisa diferente.

Entre as paredes estreitas do quarto e o vidro imóvel do aquário, o tempo parecia ter parado. A luz luzia sobre a água e projetava sombras no teto. Por um instante, Tomás teve a impressão de que não era o aquário que estava dentro do quarto.

Era o quarto que estava dentro do aquário.

Aproximou-se do vidro.

Do outro lado, os peixes continuavam a nadar em círculos, obedientes a um mundo sem horizonte. Nenhum deles parecia perguntar onde terminava a água. Nenhum parecia perguntar se existia alguma coisa para além dela.

Tomás pousou a mão sobre o vidro.

Sentiu o frio atravessar-lhe a pele.

Do lado de fora, a janela estava entreaberta. Por ela entrava uma corrente de ar, quase imperceptível, trazendo consigo o cheiro da terra molhada e o rumor distante do campo.

Ficou ali durante alguns segundos.

Talvez pudesse permanecer onde estava. Aceitar o peso das correntes, voltar a fechar a janela, deixar que a água continuasse a marcar o ritmo dos seus dias.

Ou talvez pudesse abrir a porta.

Dar um passo.

Atravessar o limite entre aquilo que conhecia e aquilo que não podia garantir.

Lá fora, o campo continuava à espera. E o vento, como todas as coisas verdadeiramente livres, não prometia que seria fácil.

Tomás olhou uma última vez para o aquário.

Depois, olhou para a porta.

E foi nesse instante que percebeu que, afinal, talvez nunca tivesse sido o aquário a prendê-lo.

A resposta ficou suspensa no silêncio…

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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Onde a Noite Não Engole

 

Nas sombras de Última Alma, ergue-se o santuário,

Onde a penumbra esconde a última confissão.

 Lá vive a dor que queima, fogo dum calvário,

Entre a ferida aberta e a luz da oração.

 

O pecado nunca dorme, vigia no nevoeiro,

Mas a fé insiste, teimosa em sobreviver.

A alma luta em fúria no escuro derradeiro,

Para que a noite eterna não a venha engolir.

 

Se caminhas sozinho e já sentiste a queda,

 Se reconheces os teus próprios demónios...

 Esta é a tua estrada, onde a verdade cega,

Sem pactos nem ilusões, desfeitos os sonhos.

 

O meu último "eu" morre no ano que lá vai,

Prometo ser melhor quando o ano renovar.

Sigo o meu caminho, a força não me cai,

 Esta é a minha busca, de passo firme a andar.

 

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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A Conta da Vida

 

A luz fria do monitor iluminava o rosto do Tomás, refletida numa folha de cálculo onde centenas de células guardavam a sua existência em fórmulas perfeitas. No canto superior direito do ecrã, o relógio digital saltava ritmado: 23:59. Mais um minuto consumido.

O Tomás tinha quarenta anos — ou 14 610 dias. Tinha aprendido a contar antes mesmo de saber o significado das coisas que contava.

Aos cinco anos, a sua matemática era simples e ascendente. Queria somar. Queria ter oito anos para ir para a escola grande, dez para andar de bicicleta até ao fundo do bairro, catorze para sair sem hora marcada, dezoito para ter a chave do mundo no bolso. A infância era uma contagem decrescente para a liberdade. "Mais dois anos", dizia à mãe ao espreitar a altura marcada a lápis no umbral da porta da cozinha. Cada risco na madeira era um número conquistado, uma promessa de que o futuro seria maior.

Aos vinte, os números mudaram de tom. A liberdade, afinal, pesava em quilos e em faturas. Contavam-se as borbulhas no espelho antes de uma entrevista de emprego, as moedas de troco no fundo do casaco para pagar o passe do autocarro e os meses do contrato a termo certo. Três meses de experiência. Mais três de renovação. A vida transformara-se numa equação de sobrevivência onde a incerteza era a variável constante.

Comprara o primeiro carro popular em 48 prestações. Lembrava-se da precisão do cálculo: 212 euros por mês, durante quatro anos. No vigésimo segundo mês, numa manhã de chuva intensa numa rotunda traiçoeira, o impacto do metal contra o raill de proteção durou menos de dois segundos. Sem seguro contra todos os riscos — porque os números do orçamento não permitiam esse luxo —, o carro transformou-se em sucata num piscar de olhos. A dívida, essa, permaneceu intacta pelas 26 prestações restantes. Ali, o Tomás percebeu pela primeira vez que a matemática da vida nem sempre opera por multiplicação; às vezes, subtrai tudo sem aviso.

Depois veio o amor e a ilusão do planeamento familiar. Num caderno de capa preta, ele e a Clara desenharam o futuro a dois.

— Três filhos — dizia ela, a sorrir. — Um rapaz, uma rapariga e outro para desempatar.

— Uma casa com quatro quartos, 30 anos de empréstimo — calculava ele, de calculadora na mão.

Mas a realidade não lê cadernos de notas. Vieram as taxas de juro a subir na Euribor, o custo de vida a sufocar os salários e a fadiga dos dias longos. O número três reduziu-se a um. Depois, o um transformou-se num silêncio doloroso. Aquele número que parecia tão certo, tão desenhado nos sonhos de juventude, dissolveu-se entre faturas da água, da luz e a mensalidade do condomínio.

Aos trinta e cinco, a contagem mudou de direção. Deixou de contar as borbulhas para começar a contar os cabelos brancos que surgiam nas fontes. Oito horas por dia na empresa, quarenta horas por semana, sem contar as horas extraordinárias não pagas para garantir o lugar na avaliação de desempenho no final do ano. Produzir, cumprir metas, bater métricas. Viver entre prazos, sempre a planear juntar dinheiro, trocar de casa, guardar para um futuro que parecia estar sempre à distância de mais um esforço.

E as redes sociais, o espelho moderno dessa obsessão, cobravam a sua própria fatura: quantos seguidores? Quantos gostos? Quantos contactos na rede profissional? A própria dignidade parecia traduzida numa contagem pública de validações efémeras.

Numa noite de outubro, após um longo dia de trabalho, o Tomás visitou o pai, já velhinho, sentado no cadeirão do lar.

— Sabes, Tomás... — disse o velho, olhando para as próprias mãos enrugadas. — Passei a vida a somar. A somar anos, a somar poupanças, a somar horas no relógio de ponto. Agora que aqui estou, percebo que passei o tempo todo a planear a viagem, mas esqueci-me de olhar pela janela do comboio.

O pai morreu meses depois. No funeral, o Tomás observou a cena com uma clareza fria. Havia catorze pessoas na capela. A conversa dos parentes mais afastados, no adro, não era sobre quem o homem tinha sido, mas sobre o que tinha deixado. Quantos zeros tinha a conta bancária? Como seria dividida a casa? Quantos metros quadrados tinha o terreno? O embate entre os vivos media-se em percentagens de herança.

E, no entanto, o próprio falecido continuava acorrentado aos números: a data de nascimento, a data de óbito, os 82 anos cumpridos no cartão de cidadão, o número da campa no cemitério. Nos primeiros meses, algumas lágrimas e visitas com flores no dia 1 de novembro. Com o passar dos anos, as visitas escassearam até que a memória se apagou por completo. No fim, a conta daquela vida resumira-se a duas datas gravadas na pedra, unidas por um pequeno traço horizontal.

Naquela noite, diante do ecrã, o Tomás fechou a folha de cálculo.

Percebeu o grande engano da sua existência: vivera convencido de que a vida era um problema de aritmética para ser resolvido, quando na verdade era uma ampulheta. O tempo não era algo que se acumulava na conta bancária; era algo que escorria entre os dedos enquanto se faziam os planos.

Olhou para a janela. A noite estava límpida e a lua iluminava a rua deserta. Desligou o computador, sentou-se na varanda e deixou-se estar. Pela primeira vez em anos, não olhou para o relógio. Não contou as horas de sono que lhe restavam até ao toque do alarme das 07:00.

A vida continuaria a ser uma matemática rigorosa para o mundo exterior. Haveria sempre faturas, impostos, anos a somar e rugas a aparecer. Mas, enquanto houvesse tempo, o Tomás decidira que não seria mais um mero contabilista dos seus dias. A única conta que realmente importava não tinha zeros, nem juros, nem prestações: era o número de momentos em que se esquecera, por completo, de contar o tempo.

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sábado, 3 de outubro de 2026

A Garagem e as Raízes

No fim de uma tarde sem cor, a garagem parecia suspensa num tempo que já não existia. Cheirava a poeira antiga, a metal frio e àquele aroma inconfundível de guardado que só as memórias do meu pai conseguiam ter. As prateleiras ainda suportavam o peso de caixas de papelão esquecidas, acumulando a poeira que o sol, ao pôr-se, mal conseguia iluminar.

Aproximei-me da caixa no centro da bancada. Ao abri-la, fui ao encontro dos seus pequenos pedaços de vida. Havia pequenos papéis onde a sua caligrafia, outrora firme, se esbatia; papéis que amareleceram com as décadas, alguns ao ponto de ficarem completamente ilegíveis, guardando segredos que o tempo decidiu apagar antes que eu os pudesse ler.

Ao lado, as medalhas. Guardadas em estojos velhos de veludo gasto, tinham ganho ferrugem ao longo dos anos, apesar da solidez do seu aço. Era um contraste estranho: o metal feito para resistir ao tempo e à guerra acabou por sucumbir ao esquecimento de uma garagem. Dizem que o tempo cura tudo, e talvez seja verdade — a dor da sua partida já não queimava como antes —, mas as marcas do que viveu continuavam ali, bem visíveis, impressas naquele aço ferrugento.

No fundo da caixa, encontrei um monte de fotografias de sépia, com as bordas dentadas e gastas. Eram retratos dos nossos antepassados. Rostos sérios, de olhar fixo e postura firme, rostos de gente que agora já ninguém recorda. Olhei para cada um deles com uma pontada de solidão, sabendo que pertenço à última geração que ainda reconhece quem está lá. Quando eu partir, aqueles nomes apagar-se-ão definitivamente.

Peguei nas fotos com cuidado. Não podia deixá-las ali a desfazerem-se no escuro. Levei-as comigo para a luz do dia, decidindo resgatá-las da sombra para perdurarem e lembrarem a nossa história por mais algum tempo.

O meu pai guardou tudo aquilo por anos, como se soubesse que um dia eu precisaria daquele reencontro. E foi precisamente ali, no meio do silêncio da garagem, vi algo inesperado como suspenso no tempo.

Um poema condensa essa atmosfera transformando o espaço da garagem num símbolo do limiar entre o esquecimento e o resgate.

Tudo o que o tempo tentou apagar renascia agora em mim.

No fim de uma tarde sem cor e calada,

A garagem guardava o tempo esquecido,

O cheiro a antigo na sombra pousada,

E o rasto de um pai que já tinha partido.

Papeis amarelos de escrita sumida,

Segredos rasgados que o tempo levou,

Histórias de ferro, de marcas e vida,

Que a poeira das horas no chão apagou.

Medalhas de aço que o tempo corroeu,

Ganharam ferrugem na dor do seu brilho;

A ferida sarou, mas a marca valeu

Na memória guardada nas mãos deste filho.

Atrás das memórias, as fotos sem voz,

Rostos antigos que a névoa cobriu;

Serei dos últimos que olha por nós,

A dar-lhes um nome que o mundo esqueceu.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

O Limite da Mansidão

 

Bernardo nasceu sob o céu cinzento e fresco de Lisboa, mas as suas memórias mais antigas já cheiravam a terra vermelha e calor húmido. Ainda muito pequeno, a família mudou-se para África, e foi lá que ele aprendeu a dar os primeiros passos e a descobrir o mundo fora dos braços dos pais.

Como qualquer criança num lugar novo, Bernardo queria apenas fazer amigos e encaixar-se. Contudo, carregava consigo uma timidez quase dolorosa. Tinha os seus receios, as suas incertezas de menino, e isso não passou despercebido aos rapazes mais velhos e intempestivos do bairro.

Não demorou para que Bernardo se tornasse o alvo preferido da chacota nos jogos de rua. Apelidos maldosos, empurrões velados, gargalhadas à sua custa — ele recebia tudo em silêncio. Faltava-lhe a agressividade que parecia tão natural nos outros; era simplesmente incapaz de reagir ou de retribuir a hostilidade. Preferia engolir o orgulho e recolher-se a ter de entrar num confronto.

Mas há limites que mudam uma pessoa para sempre.

Num fim de tarde, durante uma brincadeira, o ambiente azedou. Um dos miúdos mais velhos e violentos do grupo implicou com o primo mais novo de Bernardo. A discussão escalou rapidamente e, sem qualquer aviso, o rapaz agrediu o miúdo com violência desmedida, deixando-o a chorar no chão.

Algo estalou dentro de Bernardo no exato segundo em que viu o pavor nos olhos do seu primo. A timidez, a hesitação e o medo acumulado durante anos desapareceram instantaneamente. De algum lugar profundo, veio uma onda de energia que ele próprio desconhecia possuir. Num movimento instintivo, rápido e firme, Bernardo projetou-se para a frente e enfrentou o agressor, agredindo-o para o afastar e cessar a violência de imediato.

O choque foi geral. O silêncio que se seguiu no campo era absoluto. Ninguém esperava que aquele rapaz calado e reservado guardasse dentro de si uma força tão determinante. O agressor recuou, e o grupo percebeu que as regras tinham mudado.

Naquele dia, ao voltar para casa a acompanhar o primo, Bernardo fez uma promessa silenciosa a si mesmo: a violência era algo destrutivo e nunca devia ser alimentada por vaidade ou raiva, mas ele jamais permitiria que ela voltasse a tocar nos que amava. Os anos passaram, e aquele episódio ficou guardado na memória como uma espécie de fronteira invisível entre duas fases da sua vida. Antes daquele dia, Bernardo tinha medo de não ser suficientemente forte para enfrentar o mundo. Depois dele, percebeu que talvez não precisasse de ser o mais forte.

Precisava apenas de saber pelo que valia a pena lutar.

Essa compreensão acompanhou-o durante a adolescência. Bernardo continuou a enfrentar dificuldades, algumas muito maiores do que as que encontrara naquele bairro. Houve momentos em que voltou a sentir-se pequeno, inseguro e deslocado. Houve portas que se fecharam, amizades que se perderam e pessoas que o desiludiram.

Mas nunca mais voltou a ser exatamente o mesmo.

Sempre que o medo lhe dizia para recuar, lembrava-se daquele fim de tarde. Lembrava-se do primo no chão, das lágrimas nos seus olhos e daquele instante em que o medo deixou de ser mais importante do que proteger alguém.



O Caminho do Infinito

Entre o tudo e o nada, escolho caminhar, Pois o importante da vida é saber sentir, Viver com emoção, aprender a recomeçar, E, na inc...