Historicamente,
a estupidez tinha um teto. Não porque as pessoas fossem necessariamente mais
inteligentes no passado, mas porque existiam filtros sociais e institucionais.
Quem não sabia, tendia a ouvir quem sabia; quem dizia um absurdo, enfrentava o
peso do ridículo ou do ostracismo. Havia, como bem apontas, um certo pudor.
Nas décadas de
70 e 80, os "laivos de imbecilidade" começaram a ganhar algum espaço
com a massificação da televisão, mas ainda eram vistos como a periferia do
pensamento — o entretenimento pimba, o bitaite de café ou a excentricidade
inofensiva.
Hoje, a
pirâmide inverteu-se. Assistimos a uma inversão de valores onde:
- O "orgulhosamente
ignorante" dita as regras: O conhecimento técnico, a ciência e a
ponderação são rotulados como "elitismo" ou "narrativa do
sistema".
- O populismo bacoco capturou o
discurso: Discursos simplistas, respostas erradas para problemas complexos
e o ataque feroz ao pensamento crítico tornaram-se a moeda de troca para o
poder e para os likes.
A Indústria da
Imbecilidade: Cultivada, Sustentada e Divulgada
A grande
viragem da modernidade não foi o aparecimento de mais estúpidos, mas sim o
facto de lhes terem dado um megafone e um modelo de negócio.
- O Algoritmo como Combustível: As
redes sociais descobriram que a indignação, o absurdo e o choque geram
mais engagement (interação) do que a verdade ou a nuance. A
estupidez hoje é altamente lucrativa.
- O Fim da Vergonha Alheia:
Antigamente, o totó da aldeia falava para quatro ou cinco na taberna e era
mandado calar. Hoje, une-se em comunidades com outros milhares que
partilham do mesmo delírio, validando-se mutuamente. A ignorância perdeu o
medo porque encontrou uma seita.
- A "Vanguarda" do Absurdo:
O debate público foi sequestrado por questiúnculas estéreis. Ideias
perigosas ou perfeitamente idiotas são tratadas nos media com a dignidade
de "opiniões alternativas", em nome de uma falsa equivalência de
liberdade de expressão.
Quando o
absurdo se veste de "autenticidade" e o populismo bacoco passa a ser
visto como "a voz do povo", a estupidez deixa de ser uma falha de
educação e passa a ser uma estratégia política.
Chegámos ao
ponto distópico onde pensar cansa, duvidar é sinal de fraqueza e berrar o
disparate com convicção absoluta é o novo sinónimo de coragem. O descaramento é
o escudo dos ignorantes modernos: como perderam a capacidade de sentir
vergonha, tornaram-se imunes à razão.