A luz fria do monitor iluminava o rosto do Tomás, refletida numa folha de cálculo onde centenas de células guardavam a sua existência em fórmulas perfeitas. No canto superior direito do ecrã, o relógio digital saltava ritmado: 23:59. Mais um minuto consumido.
O Tomás tinha quarenta anos — ou 14 610
dias. Tinha aprendido a contar antes mesmo de saber o significado das coisas
que contava.
Aos cinco anos, a sua matemática era
simples e ascendente. Queria somar. Queria ter oito anos para ir para a escola
grande, dez para andar de bicicleta até ao fundo do bairro, catorze para sair
sem hora marcada, dezoito para ter a chave do mundo no bolso. A infância era
uma contagem decrescente para a liberdade. "Mais dois anos", dizia à
mãe ao espreitar a altura marcada a lápis no umbral da porta da cozinha. Cada
risco na madeira era um número conquistado, uma promessa de que o futuro seria
maior.
Aos vinte, os números mudaram de tom. A
liberdade, afinal, pesava em quilos e em faturas. Contavam-se as borbulhas no
espelho antes de uma entrevista de emprego, as moedas de troco no fundo do
casaco para pagar o passe do autocarro e os meses do contrato a termo certo.
Três meses de experiência. Mais três de renovação. A vida transformara-se numa
equação de sobrevivência onde a incerteza era a variável constante.
Comprara o primeiro carro popular em 48
prestações. Lembrava-se da precisão do cálculo: 212 euros por mês, durante
quatro anos. No vigésimo segundo mês, numa manhã de chuva intensa numa rotunda
traiçoeira, o impacto do metal contra o raill de proteção durou menos de
dois segundos. Sem seguro contra todos os riscos — porque os números do
orçamento não permitiam esse luxo —, o carro transformou-se em sucata num
piscar de olhos. A dívida, essa, permaneceu intacta pelas 26 prestações
restantes. Ali, o Tomás percebeu pela primeira vez que a matemática da vida nem
sempre opera por multiplicação; às vezes, subtrai tudo sem aviso.
Depois veio o amor e a ilusão do
planeamento familiar. Num caderno de capa preta, ele e a Clara desenharam o
futuro a dois.
— Três filhos — dizia ela, a sorrir. —
Um rapaz, uma rapariga e outro para desempatar.
— Uma casa com quatro quartos, 30 anos
de empréstimo — calculava ele, de calculadora na mão.
Mas a realidade não lê cadernos de
notas. Vieram as taxas de juro a subir na Euribor, o custo de vida a sufocar os
salários e a fadiga dos dias longos. O número três reduziu-se a um. Depois, o
um transformou-se num silêncio doloroso. Aquele número que parecia tão certo,
tão desenhado nos sonhos de juventude, dissolveu-se entre faturas da água, da
luz e a mensalidade do condomínio.
Aos trinta e cinco, a contagem mudou de
direção. Deixou de contar as borbulhas para começar a contar os cabelos brancos
que surgiam nas fontes. Oito horas por dia na empresa, quarenta horas por
semana, sem contar as horas extraordinárias não pagas para garantir o lugar na
avaliação de desempenho no final do ano. Produzir, cumprir metas, bater
métricas. Viver entre prazos, sempre a planear juntar dinheiro, trocar de casa,
guardar para um futuro que parecia estar sempre à distância de mais um esforço.
E as redes sociais, o espelho moderno
dessa obsessão, cobravam a sua própria fatura: quantos seguidores? Quantos
gostos? Quantos contactos na rede profissional? A própria dignidade parecia
traduzida numa contagem pública de validações efémeras.
Numa noite de outubro, após um longo dia
de trabalho, o Tomás visitou o pai, já velhinho, sentado no cadeirão do lar.
— Sabes, Tomás... — disse o velho,
olhando para as próprias mãos enrugadas. — Passei a vida a somar. A somar anos,
a somar poupanças, a somar horas no relógio de ponto. Agora que aqui estou,
percebo que passei o tempo todo a planear a viagem, mas esqueci-me de olhar
pela janela do comboio.
O pai morreu meses depois. No funeral, o
Tomás observou a cena com uma clareza fria. Havia catorze pessoas na capela. A
conversa dos parentes mais afastados, no adro, não era sobre quem o homem tinha
sido, mas sobre o que tinha deixado. Quantos zeros tinha a conta bancária? Como
seria dividida a casa? Quantos metros quadrados tinha o terreno? O embate entre
os vivos media-se em percentagens de herança.
E, no entanto, o próprio falecido
continuava acorrentado aos números: a data de nascimento, a data de óbito, os
82 anos cumpridos no cartão de cidadão, o número da campa no cemitério. Nos
primeiros meses, algumas lágrimas e visitas com flores no dia 1 de novembro.
Com o passar dos anos, as visitas escassearam até que a memória se apagou por
completo. No fim, a conta daquela vida resumira-se a duas datas gravadas na
pedra, unidas por um pequeno traço horizontal.
Naquela noite, diante do ecrã, o Tomás
fechou a folha de cálculo.
Percebeu o grande engano da sua
existência: vivera convencido de que a vida era um problema de aritmética para
ser resolvido, quando na verdade era uma ampulheta. O tempo não era algo que se
acumulava na conta bancária; era algo que escorria entre os dedos enquanto se
faziam os planos.
Olhou para a janela. A noite estava
límpida e a lua iluminava a rua deserta. Desligou o computador, sentou-se na
varanda e deixou-se estar. Pela primeira vez em anos, não olhou para o relógio.
Não contou as horas de sono que lhe restavam até ao toque do alarme das 07:00.
A vida continuaria a ser uma matemática
rigorosa para o mundo exterior. Haveria sempre faturas, impostos, anos a somar
e rugas a aparecer. Mas, enquanto houvesse tempo, o Tomás decidira que não
seria mais um mero contabilista dos seus dias. A única conta que realmente
importava não tinha zeros, nem juros, nem prestações: era o número de momentos
em que se esquecera, por completo, de contar o tempo.
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