segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A Conta da Vida

 

A luz fria do monitor iluminava o rosto do Tomás, refletida numa folha de cálculo onde centenas de células guardavam a sua existência em fórmulas perfeitas. No canto superior direito do ecrã, o relógio digital saltava ritmado: 23:59. Mais um minuto consumido.

O Tomás tinha quarenta anos — ou 14 610 dias. Tinha aprendido a contar antes mesmo de saber o significado das coisas que contava.

Aos cinco anos, a sua matemática era simples e ascendente. Queria somar. Queria ter oito anos para ir para a escola grande, dez para andar de bicicleta até ao fundo do bairro, catorze para sair sem hora marcada, dezoito para ter a chave do mundo no bolso. A infância era uma contagem decrescente para a liberdade. "Mais dois anos", dizia à mãe ao espreitar a altura marcada a lápis no umbral da porta da cozinha. Cada risco na madeira era um número conquistado, uma promessa de que o futuro seria maior.

Aos vinte, os números mudaram de tom. A liberdade, afinal, pesava em quilos e em faturas. Contavam-se as borbulhas no espelho antes de uma entrevista de emprego, as moedas de troco no fundo do casaco para pagar o passe do autocarro e os meses do contrato a termo certo. Três meses de experiência. Mais três de renovação. A vida transformara-se numa equação de sobrevivência onde a incerteza era a variável constante.

Comprara o primeiro carro popular em 48 prestações. Lembrava-se da precisão do cálculo: 212 euros por mês, durante quatro anos. No vigésimo segundo mês, numa manhã de chuva intensa numa rotunda traiçoeira, o impacto do metal contra o raill de proteção durou menos de dois segundos. Sem seguro contra todos os riscos — porque os números do orçamento não permitiam esse luxo —, o carro transformou-se em sucata num piscar de olhos. A dívida, essa, permaneceu intacta pelas 26 prestações restantes. Ali, o Tomás percebeu pela primeira vez que a matemática da vida nem sempre opera por multiplicação; às vezes, subtrai tudo sem aviso.

Depois veio o amor e a ilusão do planeamento familiar. Num caderno de capa preta, ele e a Clara desenharam o futuro a dois.

— Três filhos — dizia ela, a sorrir. — Um rapaz, uma rapariga e outro para desempatar.

— Uma casa com quatro quartos, 30 anos de empréstimo — calculava ele, de calculadora na mão.

Mas a realidade não lê cadernos de notas. Vieram as taxas de juro a subir na Euribor, o custo de vida a sufocar os salários e a fadiga dos dias longos. O número três reduziu-se a um. Depois, o um transformou-se num silêncio doloroso. Aquele número que parecia tão certo, tão desenhado nos sonhos de juventude, dissolveu-se entre faturas da água, da luz e a mensalidade do condomínio.

Aos trinta e cinco, a contagem mudou de direção. Deixou de contar as borbulhas para começar a contar os cabelos brancos que surgiam nas fontes. Oito horas por dia na empresa, quarenta horas por semana, sem contar as horas extraordinárias não pagas para garantir o lugar na avaliação de desempenho no final do ano. Produzir, cumprir metas, bater métricas. Viver entre prazos, sempre a planear juntar dinheiro, trocar de casa, guardar para um futuro que parecia estar sempre à distância de mais um esforço.

E as redes sociais, o espelho moderno dessa obsessão, cobravam a sua própria fatura: quantos seguidores? Quantos gostos? Quantos contactos na rede profissional? A própria dignidade parecia traduzida numa contagem pública de validações efémeras.

Numa noite de outubro, após um longo dia de trabalho, o Tomás visitou o pai, já velhinho, sentado no cadeirão do lar.

— Sabes, Tomás... — disse o velho, olhando para as próprias mãos enrugadas. — Passei a vida a somar. A somar anos, a somar poupanças, a somar horas no relógio de ponto. Agora que aqui estou, percebo que passei o tempo todo a planear a viagem, mas esqueci-me de olhar pela janela do comboio.

O pai morreu meses depois. No funeral, o Tomás observou a cena com uma clareza fria. Havia catorze pessoas na capela. A conversa dos parentes mais afastados, no adro, não era sobre quem o homem tinha sido, mas sobre o que tinha deixado. Quantos zeros tinha a conta bancária? Como seria dividida a casa? Quantos metros quadrados tinha o terreno? O embate entre os vivos media-se em percentagens de herança.

E, no entanto, o próprio falecido continuava acorrentado aos números: a data de nascimento, a data de óbito, os 82 anos cumpridos no cartão de cidadão, o número da campa no cemitério. Nos primeiros meses, algumas lágrimas e visitas com flores no dia 1 de novembro. Com o passar dos anos, as visitas escassearam até que a memória se apagou por completo. No fim, a conta daquela vida resumira-se a duas datas gravadas na pedra, unidas por um pequeno traço horizontal.

Naquela noite, diante do ecrã, o Tomás fechou a folha de cálculo.

Percebeu o grande engano da sua existência: vivera convencido de que a vida era um problema de aritmética para ser resolvido, quando na verdade era uma ampulheta. O tempo não era algo que se acumulava na conta bancária; era algo que escorria entre os dedos enquanto se faziam os planos.

Olhou para a janela. A noite estava límpida e a lua iluminava a rua deserta. Desligou o computador, sentou-se na varanda e deixou-se estar. Pela primeira vez em anos, não olhou para o relógio. Não contou as horas de sono que lhe restavam até ao toque do alarme das 07:00.

A vida continuaria a ser uma matemática rigorosa para o mundo exterior. Haveria sempre faturas, impostos, anos a somar e rugas a aparecer. Mas, enquanto houvesse tempo, o Tomás decidira que não seria mais um mero contabilista dos seus dias. A única conta que realmente importava não tinha zeros, nem juros, nem prestações: era o número de momentos em que se esquecera, por completo, de contar o tempo.

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