Tomás tinha o dom raro de olhar para além do verniz. Onde os outros viam a superfície polida das certezas, ele reconhecia as fissuras da falsidade. Sabia distinguir a luz verdadeira daquela que apenas fingia iluminar. No rosto carregava a honestidade de quem vivia num mundo de aparências e, ainda assim, conservava a coragem de acreditar naquilo em que acreditava.
Houve
um tempo em que os dias pareciam ter a vastidão do horizonte.
Lembrava-se
de quando trocara um sonho antigo por um eco vazio; de quando abandonara um
campo aberto para se fechar num quarto sem janelas; de quando, sem perceber o
momento exato, trocara as asas por correntes de aço.
Por
vezes, sentia-se como nos versos que trazia há anos dentro de si: somos
apenas seres perdidos, nadando num aquário.
Ano
após ano, percorria o mesmo caminho, pisava o mesmo chão, regressava aos mesmos
lugares. E, no fim de cada volta, encontrava apenas o vazio — como se o mundo
tivesse encolhido ao tamanho daquele vidro.
Tinha
sido arrastado para o fundo por um mar que nunca previra. Ainda assim,
continuava a sonhar acordado.
Talvez
porque, mesmo no fundo, alguma coisa dentro dele recusasse permanecer
adormecida.
Os
medos do passado voltavam sempre. Tinham rostos, vozes, nomes. E havia palavras
que continuava a carregar consigo — palavras que nunca tivera coragem de dizer,
talvez porque algumas verdades, depois de pronunciadas, já não permitem
regressar ao silêncio.
Naquela
noite, porém, havia qualquer coisa diferente.
Entre
as paredes estreitas do quarto e o vidro imóvel do aquário, o tempo parecia ter
parado. A luz luzia sobre a água e projetava sombras no teto. Por um instante,
Tomás teve a impressão de que não era o aquário que estava dentro do quarto.
Era
o quarto que estava dentro do aquário.
Aproximou-se
do vidro.
Do
outro lado, os peixes continuavam a nadar em círculos, obedientes a um mundo
sem horizonte. Nenhum deles parecia perguntar onde terminava a água. Nenhum
parecia perguntar se existia alguma coisa para além dela.
Tomás
pousou a mão sobre o vidro.
Sentiu
o frio atravessar-lhe a pele.
Do
lado de fora, a janela estava entreaberta. Por ela entrava uma corrente de ar,
quase imperceptível, trazendo consigo o cheiro da terra molhada e o rumor
distante do campo.
Ficou
ali durante alguns segundos.
Talvez
pudesse permanecer onde estava. Aceitar o peso das correntes, voltar a fechar a
janela, deixar que a água continuasse a marcar o ritmo dos seus dias.
Ou
talvez pudesse abrir a porta.
Dar
um passo.
Atravessar
o limite entre aquilo que conhecia e aquilo que não podia garantir.
Lá
fora, o campo continuava à espera. E o vento, como todas as coisas
verdadeiramente livres, não prometia que seria fácil.
Tomás
olhou uma última vez para o aquário.
Depois,
olhou para a porta.
E
foi nesse instante que percebeu que, afinal, talvez nunca tivesse sido o
aquário a prendê-lo.
A
resposta ficou suspensa no silêncio…
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