A Marcha Triunfal da Estupidez
( 90 anos)
É um privilégio observar, com
este distanciamento histórico de quase um
centenário, a formidável resiliência da Estupidez Humana. É um fenómeno
digno de estudo, quase uma obra de arte evolutiva, que floresceu gloriosamente
nas décadas de 30 do século passado e, imagine-se, conseguiu a proeza de não só
sobreviver as guerras, revoluções tecnológicas e a invenção da internet, mas
também de se reinventar e prosperar nos dias de hoje.
Pensaríamos nós, na nossa
inocência ingénua que com o acesso a toda a informação do mundo na palma da
mão, as massas seriam finalmente libertadas. Que o velho e agradável tédio do
pensamento seria erradicado. Mas não. A Estupidez, com uma visão estratégica
invejável, transformou o acesso à informação na sua principal aliada. Hoje, a
indiferença perante o que nos rodeia já não é um lapso, é uma escolha de
carreira para alguns.
A grande novidade desta versão
3.0 é a sua sofisticação. Na década de 30, a coisa era mais artesanal, mais
evidente. Agora, veste tweed tecnológico, utiliza hashtags e é
promovida, ironicamente, por algoritmos. A estupidez contemporânea é
democrática: não discrimina por nível de escolaridade, atingindo o pico da sua
glória nas nações que se autoproclamam faróis da razão e da luta pela
verdade.
Em Portugal, claro, não podíamos
ficar de fora desta tendência global chique. Assistimos, de camarote, a debates
sobre o sexo dos anjos enquanto a casa arde, e tudo embrulhado numa cortesia
social que confunde apatia com paz de espírito.
Portanto, um brinde à Estupidez!
Que maravilha de motor social. Permite-nos dormir descansados, ignorar o óbvio
e culpar sempre o vizinho. E, francamente, quem é que precisa de consciência aberta
quando se tem tanta coisa para partilhar nas redes sociais? A evolução, meus
amigos, não para, pois no campo da ignorância voluntária, estamos a atingir o
estatuto de potência mundial.
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