Bernardo nasceu sob o céu cinzento e
fresco de Lisboa, mas as suas memórias mais antigas já cheiravam a terra
vermelha e calor húmido. Ainda muito pequeno, a família mudou-se para África, e
foi lá que ele aprendeu a dar os primeiros passos e a descobrir o mundo fora
dos braços dos pais.
Como qualquer criança num lugar novo,
Bernardo queria apenas fazer amigos e encaixar-se. Contudo, carregava consigo
uma timidez quase dolorosa. Tinha os seus receios, as suas incertezas de
menino, e isso não passou despercebido aos rapazes mais velhos e intempestivos
do bairro.
Não demorou para que Bernardo se
tornasse o alvo preferido da chacota nos jogos de rua. Apelidos maldosos,
empurrões velados, gargalhadas à sua custa — ele recebia tudo em silêncio.
Faltava-lhe a agressividade que parecia tão natural nos outros; era simplesmente
incapaz de reagir ou de retribuir a hostilidade. Preferia engolir o orgulho e
recolher-se a ter de entrar num confronto.
Mas há limites que mudam uma pessoa para
sempre.
Num fim de tarde, durante uma brincadeira,
o ambiente azedou. Um dos miúdos mais velhos e violentos do grupo implicou com
o primo mais novo de Bernardo. A discussão escalou rapidamente e, sem qualquer
aviso, o rapaz agrediu o miúdo com violência desmedida, deixando-o a chorar no
chão.
Algo estalou dentro de Bernardo no exato
segundo em que viu o pavor nos olhos do seu primo. A timidez, a hesitação e o
medo acumulado durante anos desapareceram instantaneamente. De algum lugar
profundo, veio uma onda de energia que ele próprio desconhecia possuir. Num
movimento instintivo, rápido e firme, Bernardo projetou-se para a frente e
enfrentou o agressor, agredindo-o para o afastar e cessar a violência de
imediato.
O choque foi geral. O silêncio que se
seguiu no campo era absoluto. Ninguém esperava que aquele rapaz calado e
reservado guardasse dentro de si uma força tão determinante. O agressor recuou,
e o grupo percebeu que as regras tinham mudado.
Naquele dia, ao voltar para casa a
acompanhar o primo, Bernardo fez uma promessa silenciosa a si mesmo: a
violência era algo destrutivo e nunca devia ser alimentada por vaidade ou
raiva, mas ele jamais permitiria que ela voltasse a tocar nos que amava. Os
anos passaram, e aquele episódio ficou guardado na memória como uma espécie de
fronteira invisível entre duas fases da sua vida. Antes daquele dia, Bernardo
tinha medo de não ser suficientemente forte para enfrentar o mundo. Depois
dele, percebeu que talvez não precisasse de ser o mais forte.
Precisava apenas de saber pelo que valia
a pena lutar.
Essa compreensão acompanhou-o durante a
adolescência. Bernardo continuou a enfrentar dificuldades, algumas muito
maiores do que as que encontrara naquele bairro. Houve momentos em que voltou a
sentir-se pequeno, inseguro e deslocado. Houve portas que se fecharam, amizades
que se perderam e pessoas que o desiludiram.
Mas nunca mais voltou a ser exatamente o
mesmo.
Sempre que o medo lhe dizia para recuar,
lembrava-se daquele fim de tarde. Lembrava-se do primo no chão, das lágrimas
nos seus olhos e daquele instante em que o medo deixou de ser mais importante
do que proteger alguém.
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