O ar frio da noite entrava-me
pelos pulmões com um travo metálico e denso. Os meus passos ecoavam na calçada
húmida, num ritmo lento, compassado, enquanto a sensação de peso subia do chão
até aos joelhos; caminhei pela avenida até que as minhas pernas parecessem
pedra.
À minha volta, Filadélfia
desdobrava-se numa penumbra de luzes de néon a piscar e sombras compridas. Em
cada esquina, o silêncio da noite não era realmente silêncio — era habitado por
memórias e fantasmas de um passado recente. Ouvi as vozes de amigos que
desapareceram, que se foram pelo efeito das drogas. Rostos que um dia sorriram
nas salas de aula ou em tardes quentes de verão surgiam-me na mente,
desfocados, tragados por um nevoeiro constante.
Parei por um instante junto a um
muro de tijolo escuro. Se ficasse em silêncio absoluto, parecia que podia
escutar a própria cidade a pulsar; à noite, eu podia ouvir o seu sangue
correndo, mas sentia-me completamente incapaz. Ali estava eu, no país dito desenvolvido,
mas que deixa os seus cair nos abismos onde as respostas simplesmente não
existem. Uma grande potência, sim, mas edificada sobre uma sociedade que
desistiu dos seus, num mundo de seres perdidos que buscam respostas para as
suas angústias em lugares onde só encontram a penumbra.
Continuei a andar cruzando
avenidas onde o cenário parecia repetir-se em ciclos intermináveis. Nas ruas da
Filadélfia, o ar vinha carpido pelos perdidos sem rumo, corpos e almas
retorcidos sem amparo e sem resposta. Era o retrato vivo de uma terra
orgulhosa, mas profundamente quebrada por dentro.
Um homem encolhido sob um
cobertor gasto olhou para mim de relance; nos seus olhos refletia-se o farol
vermelho de um carro que passava ao longe. Fiquei a olhar para o horizonte do
fundo da rua, onde os arranha-céus iluminados tocavam o céu escuro,
contrastando com o chão onde os meus pés pisavam. Atravessei a rua e deixei que
a noite me levasse mais uns metros à frente, até parar no cruzamento.
O ar frio da noite continuava a
rasgar a avenida, mas desta vez o meu passo abrandou junto à entrada de um
edifício devoluto. Encostado à parede de tijolo grelado, embrulhado num casaco
rasgado que já vira melhores dias, estava o Thomas. Os seus olhos, encovados e
cansados, fixaram-se nos meus por um segundo antes de soltar uma baforada de ar
esbranquiçado.
Aproximei-me devagar, ajustando o
meu casaco ao corpo. O peso nas minhas pernas parecia agora partilhado com a
gravidade do ambiente à nossa volta.
— Tens um cigarro? — perguntou,
com a voz rouca, quase num sussurro engolido pelo barulho distante do trânsito.
— Não tenho... mas posso
sentar-me um bocado? — pedi, apontando para o degrau de pedra fria.
Ele encolheu os ombros, dando um
pequeno espaço. Sentei-me ao seu lado, sentindo a humidade do chão entranhar-se
no tecido das calças. Por momentos, ficámos apenas a ouvir a cidade a pulsar ao
longe.
— Há quanto tempo estás por aqui,
Thomas? — perguntei, quebrando o silêncio.
Soltou um riso seco, sem réstia
de alegria.
— Perdi a conta aos anos... ou
talvez aos dias. Sabe, quando se está no fundo do poço, os dias misturam-se
todos numa sombra só.
— Como é que tudo começou? —
olhei para as suas mãos calejadas, com marcas de quem já trabalhara duro.
— Como começa para quase toda a
gente por estas ruas— Eu tinha uma vida normal. Trabalhava na construção, tinha
uma casa, uma família... Um dia, num trabalho de estrutura de um prédio, caí de
um andaime. Parti as costas em dois sítios.
Pausou, passando a mão pelo rosto
marcado pelo tempo e pelo cansaço.
— O médico receitou-me
analgésicos fortes para conseguir aguentar as dores e voltar ao trabalho. Na
altura, parecia a salvação. Mas o corpo habituou-se. Quando os comprimidos
receitados acabaram, a dor continuava lá — e a dependência também. Sem seguro que
cobrisse o tratamento e sem conseguir trabalhar, comecei a procurar na rua o
que os médicos já não me davam.
— E a partir daí...
— A partir daí é uma descida
rápida — interrompeu. — Em menos de dois anos, perdi o emprego, perdi a casa, e
a vergonha fez-me afastar de quem me amava. Quando dás por ti, estás aqui. As
pessoas passam por ti como se fosses invisível, ou pior, como se fosses um
obstáculo no passeio. Esta cidade é rica, é grandiosa...mas quando cais neste
buraco, percebes que ninguém vem estender a mão para te tirar daqui. A
sociedade simplesmente segue em frente e finge que nunca exististe.
Thomas calou-se, fixando o vazio
da avenida iluminada pelos néons fluorescentes. O vento soprou mais forte,
trazendo o cheiro a poeira e a asfalto molhado.
Levantei-me devagar, sentindo o
frio a entorpecer-me as articulações. Encarei aquele homem por mais um
instante, vendo no seu olhar o reflexo de tantos outros que a cidade engoliu.
Dei dois passos em frente e continuei a caminhar pela noite fora, enquanto a
pergunta continuava a ecoar no silêncio da rua: até quando?

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