terça-feira, 29 de setembro de 2026

O Limite da Mansidão

 

Bernardo nasceu sob o céu cinzento e fresco de Lisboa, mas as suas memórias mais antigas já cheiravam a terra vermelha e calor húmido. Ainda muito pequeno, a família mudou-se para África, e foi lá que ele aprendeu a dar os primeiros passos e a descobrir o mundo fora dos braços dos pais.

Como qualquer criança num lugar novo, Bernardo queria apenas fazer amigos e encaixar-se. Contudo, carregava consigo uma timidez quase dolorosa. Tinha os seus receios, as suas incertezas de menino, e isso não passou despercebido aos rapazes mais velhos e intempestivos do bairro.

Não demorou para que Bernardo se tornasse o alvo preferido da chacota nos jogos de rua. Apelidos maldosos, empurrões velados, gargalhadas à sua custa — ele recebia tudo em silêncio. Faltava-lhe a agressividade que parecia tão natural nos outros; era simplesmente incapaz de reagir ou de retribuir a hostilidade. Preferia engolir o orgulho e recolher-se a ter de entrar num confronto.

Mas há limites que mudam uma pessoa para sempre.

Num fim de tarde, durante uma brincadeira, o ambiente azedou. Um dos miúdos mais velhos e violentos do grupo implicou com o primo mais novo de Bernardo. A discussão escalou rapidamente e, sem qualquer aviso, o rapaz agrediu o miúdo com violência desmedida, deixando-o a chorar no chão.

Algo estalou dentro de Bernardo no exato segundo em que viu o pavor nos olhos do seu primo. A timidez, a hesitação e o medo acumulado durante anos desapareceram instantaneamente. De algum lugar profundo, veio uma onda de energia que ele próprio desconhecia possuir. Num movimento instintivo, rápido e firme, Bernardo projetou-se para a frente e enfrentou o agressor, agredindo-o para o afastar e cessar a violência de imediato.

O choque foi geral. O silêncio que se seguiu no campo era absoluto. Ninguém esperava que aquele rapaz calado e reservado guardasse dentro de si uma força tão determinante. O agressor recuou, e o grupo percebeu que as regras tinham mudado.

Naquele dia, ao voltar para casa a acompanhar o primo, Bernardo fez uma promessa silenciosa a si mesmo: a violência era algo destrutivo e nunca devia ser alimentada por vaidade ou raiva, mas ele jamais permitiria que ela voltasse a tocar nos que amava. Os anos passaram, e aquele episódio ficou guardado na memória como uma espécie de fronteira invisível entre duas fases da sua vida. Antes daquele dia, Bernardo tinha medo de não ser suficientemente forte para enfrentar o mundo. Depois dele, percebeu que talvez não precisasse de ser o mais forte.

Precisava apenas de saber pelo que valia a pena lutar.

Essa compreensão acompanhou-o durante a adolescência. Bernardo continuou a enfrentar dificuldades, algumas muito maiores do que as que encontrara naquele bairro. Houve momentos em que voltou a sentir-se pequeno, inseguro e deslocado. Houve portas que se fecharam, amizades que se perderam e pessoas que o desiludiram.

Mas nunca mais voltou a ser exatamente o mesmo.

Sempre que o medo lhe dizia para recuar, lembrava-se daquele fim de tarde. Lembrava-se do primo no chão, das lágrimas nos seus olhos e daquele instante em que o medo deixou de ser mais importante do que proteger alguém.



domingo, 27 de setembro de 2026

Causa Primeira

 

Mestre, meu Mestre soberano dos nossos sonhos,

Causa primeira do mundo e da luz que nos desperta, 

Na busca do teu ser, a ciência ergue os seus passos,

Tenta medir em fórmulas a tua ordem certa,

E decifrar as leis que sustentam os espaços. 

Tudo é esforço neste mundo de razão e medida,

A mente perscruta a matéria, o átomo, a constante,

Procurando no labor o sentido e a própria vida;

Mas a Ciência é apenas o reflexo hesitante

Da Causa Primeira que a fez ser concebida.

Tu chamaste-me à tua imagem e me deste o saber,

Fizeste-me abrir os olhos ao rigor da observação,

E responsabilizas-me pelo método e pelo fazer,

Pelo cálculo exato e pela obra da criação.

Mas a experiência maior não cabe no laboratório,

Nem nas equações que terminam na borda do cosmos;

Fora do universo e do tempo transitório,

Na experiência pura da alma nos recontamos.

Pois replicar a tua Causa não é mover a matéria,

É o ato de criar, de amar, de intuir o infinito.

Dá-me um momento, Mestre, nesta busca austera,

Para que além do método e do espaço inscrito, 

Eu mereça tocar a tua presença soberana e eterna.

previewer

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Os imperfeitos

 

Elias habitava um ecossistema de vidro, aço e linhas ortogonais. No vigésimo andar do seu apartamento em Lisboa, o silêncio não era ausência de som, mas sim o zumbido perfeito e calibrado dos sistemas de climatização e dos servidores privados. Para Elias, a tecnologia não era um meio de trabalho ou uma comodidade; era uma armadura existencial, a única pele em que se reconhecia. Vivia da tecnologia e para a tecnologia, desenhando algoritmos de otimização financeira e arquiteturas de dados onde nada ficava ao acaso.

A alma, se é que algum dia a tivera, fora gradualmente substituída por uma busca obsessiva pela eficiência absoluta. Na sua visão do mundo, o afeto era uma falha de código, a imprevisto era escusado e a simplicidade era um atestado de fraqueza.

Aprendera — como quase todos na sua esfera social — a ter vergonha do simples. Crescera e moldara-se num ecossistema que clama por aplausos constantes, onde a existência só se valida através do reconhecimento alheio. Para Elias, o simples não o convencia. Ensinaram-lhe que ter pouco é, indiscutivelmente, ser pouco no mundo. Viver sem o luxo do último dispositivo, sem o carro elétrico de alta gama ou sem a assinatura de alfaiataria sob medida era o mesmo que aceitar viver sem dignidade. Não ter um nome associado a um cargo de destaque era não ter futuro; conduzir um carro barato era uma manifestação pública de falta de estatuto; repetir um fato numa reunião decisiva era a marca indelével da insignificância. Elias convertera-se, com fervor defensor do parecer e do ter mais. Comprara a ideia de que o comum é um insulto e de que o grande entre os homens é o único objetivo que justifica a travessia.

No entanto, o tempo possui uma mecânica própria, alheia a qualquer algoritmo. O tempo não ataca com a violência de uma tempestade; age por erosão, através de mudanças tão subtis que, quando nos damos conta, já fomos completamente alterados.

O desconforto começou com pequenos detalhes sem relevância aparente.

Certa tarde de outono, ao olhar pela janela panorâmica do seu escritório, observou um homem num banco de jardim, do outro lado da avenida. Era um funcionário da manutenção, de macacão gasto, a comer uma sandes envolta em papel de alumínio. Não tinha um relógio inteligente a medir-lhe os batimentos cardíacos, não consultava notificações a cada trinta segundos, não parecia preocupado em otimizar o tempo de mastigação. Apenas comia, olhando o movimento das folhas secas empurradas pelo vento.

Elias sentiu uma pontada súbita no peito. Não era pena, nem desdém. Era uma irritação profunda, uma estranha sensação de sobressalto. Como podia alguém ser tão terrivelmente comum e, ao mesmo tempo, ostentar uma presença tão inabalável? A imagem daquela simplicidade absoluta pareceu-lhe quase indecente, uma provocação ao seu estilo de vida metodicamente desenhado.

Nos meses seguintes, a fenda alargou-se. A tecnologia, que antes lhe trazia um conforto anestésico, começou a soar-lhe a ruído. Os ecrãs de alta resolução pareciam emitir uma luz demasiado agressiva; a assistente virtual de voz perfeitamente modulada começou a soar-lhe falsa, como um eco num espaço vazio. Elias deu por si a notar a complexidade desnecessária com que cercara cada segundo do seu dia. Para tomar um café, dependia de uma máquina conectada à rede que calculava a pressão da água em bar e a temperatura exata da extração; para dormir, precisava de um anel elétrico que analisava as fases do sono e regulava a luminosidade do quarto.

 

Tudo era monumental, tudo era dispendioso, tudo fora desenhado para demonstrar que ele não era comum. E, no entanto, ao fim do dia, a soma de todas aquelas camadas de sofisticação resultava num vazio gelado.

Um domingo, ao percorrer a garagem subterrânea do prédio, parou diante do seu automóvel de luxo. Olhou para a carroçaria impecável e lembrou-se das dívidas veladas, dos contratos de leasing e das metas corporativas impiedosas que aceitara cumprir apenas para manter aquele símbolo de poder à porta de casa. Percebeu a ironia trágica da sua vida: hipotecara o seu tempo e a sua liberdade para não parecer simples, para fugir do "comum" que a sociedade o ensinara a odiar.

O desconforto transformou-se em angústia. Elias começou a sair à rua sem o relógio inteligente, depois sem os auscultadores de cancelamento de ruído. Caminhava pelas ruas velhas da cidade, longe dos edifícios espelhados com montras harmoniosas. Olhava para as pessoas que repetiam casacos, que conversavam nos degraus das portas, que riam sem estarem a ser julgadas.

A simplicidade, que ele sempre encarara como uma carência de meios ou de ambição, começou a revelar-se como uma forma silenciosa de “poder”: o poder de não precisar de demonstrar nada a ninguém.

A mudança não foi dramática. Elias não despediu de um dia para o outro nem se isolou numa montanha. O tempo apenas continuou o seu trabalho discreto. Desativou as notificações desnecessárias, vendeu o carro ostentoso por um modelo funcional e discreto, e deixou de comprar coisas cuja única função era servir de adereço para a aprovação dos outros.

Na última noite do ano, sentado na sua sala agora despojada do excesso de tecnologia, Elias olhou para a cidade iluminada. Pela primeira vez em anos, não sentiu a urgência de ser visto, elogiado ou reconhecido. Percebeu que a maior prisão em que vivera não fora construída por códigos ou ecrãs, mas pela vergonha de ser comum como os outros na rua. E na paz austera daquela nova simplicidade, Elias encontrou, finalmente, o sopro de algo que há muito julgava perdido: o seu próprio ser.

Preview

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Mosteiro do Bispo


Das águas calmas que o rio abraça,

Surge a aldeia nos montes erguida,

Onde a pedra é memória que não passa

E a vertente é de bênçãos concebida.

Antiga sede que a história batizou,

Terra fértil de fé e oração,

Onde o monge a sua prece semeou

E o escudeiro ergueu esta nação.

Recorda a lenda a antiga sede dos Bispos da fé na Cabreira,

Homem de fé, coragem e valor,

Que aos Mouros deu o corpo pelejando,

Pela sua terra, pelo seu Senhor.

E tantos outros, o rasto acompanhando,

Foram exemplo no trilho a seguir,

Gente de armas e mantos orando,

Que nunca as promessas deixaram cair.

Assim se guarda no monte e na pedra

A herança sagrada de um povo fiel,

Onde a lenda do Bispo ainda medra,

Entre a voz do rio e a cor do céu

 

sábado, 19 de setembro de 2026

O Canto da ÚLTIMA HORA

 

A voz dela vinha atrás de mim,

Como um canto que alcança o vento,

«Não temas caminhar assim,

Pois trago a paz no teu alento.

 

Eu vi-te nascer, vi o teu peito ferido,

E a dor profunda do teu caminhar;

Não trago o teu destino derradeiro,

Mas o descanso que te há de amparar.

 

Entre o teu nascimento e o teu fim,

Não sou tua inimiga nem o teu mal;

Vi a noiva chorar ao ver-me chegar,

Vi o amor perder-se no mar caudal.

 

Eu recolho o que a flor deixou para trás,

Não sou demónio, nem venho gozar;

Mas quando o teu corpo não puder lutar,

Estarei à tua espera para te abraçar.

 

Venho serena até no meio da guerra,

Para aliviar a dor que te consome;

É esta a lei que rege a terra:

Deixo seguir quem a vida ainda consome.

 

Ouvi a tua voz em surdina a chamar,

Suplicando pelo fim da tua dor;

E aqui estou, para te desarmar,

E cobrir-te com um manto protetor.»



quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Muros Invisíveis

 

Artur foi acusado de roubar carros.

Acusado!

A palavra ficou-lhe gravada na memória muito antes de ouvir a sentença. Depois vieram os interrogatórios, os olhares desconfiados, os comentários sussurrados e, finalmente, a condenação: quatro anos de prisão.

Quatro anos.

No início, contou os dias. Depois, as semanas. Mais tarde, deixou de contar. Dentro dos muros da prisão, Artur aprendeu que o tempo podia ser uma coisa estranha. Havia dias que pareciam não terminar e anos que, quando olhados para trás, pareciam ter passado num instante.

Durante o cumprimento da pena, foi um preso exemplar. Trabalhava, cumpria as regras e evitava conflitos. Quando podia, ajudava outros reclusos. Nunca deu problemas aos guardas.

Um dia, recebeu a notícia que esperava havia tanto tempo:

— A sua pena foi reduzida. Em vez de quatro, cumpriria apenas três anos. Naquela noite, Artur quase não dormiu. Faltava pouco. O Natal aproximava-se, e, com ele, chegaria aquilo que durante tanto tempo lhe parecera impossível: a liberdade. Na manhã em que saiu, levou consigo os poucos pertences que tinha. Uma pequena mala, algumas roupas e uma fotografia antiga da família. Parou junto ao portão da prisão. Respirou fundo. Olhou para trás uma última vez.

— Nunca mais — murmurou.

Nunca mais voltaria àquele lugar. Nunca mais cometeria um erro. Nunca mais deixaria que a sua vida chegasse àquele ponto. Caminhou para casa convencido de que estava a começar uma nova vida. Mas, quando entrou pela porta, percebeu que talvez a prisão não tivesse ficado inteiramente para trás.

A mãe abraçou-o, embora timidamente. Os irmãos limitaram-se a cumprimentá-lo. Um deles nem sequer levantou os olhos do telemóvel. Artur fingiu não reparar. Naquela noite, durante o jantar, quase ninguém falou.

— Então... estás contente por estar em casa? — perguntou a mãe.

— Muito.

Sorriu. Ninguém respondeu.

No dia seguinte, levantou-se cedo. Tomou banho, vestiu a melhor roupa que tinha e começou a procurar emprego. Levou currículos a oficinas, armazéns, empresas de transporte, fábricas e pequenas lojas. No primeiro lugar, disseram-lhe:

— Deixe o currículo. Se houver alguma coisa, telefonamos.

Nunca telefonaram. No segundo, perguntaram-lhe se tinha experiência.

Tinha.

 Se tinha carta de condução.

Tinha.

Se podia começar imediatamente.

Podia.

O homem que o entrevistava pegou no currículo e ficou alguns segundos em silêncio.

— Aqui que esteve três anos sem trabalhar.

Artur baixou os olhos.

— Estive preso.

O homem levantou a cabeça. A entrevista terminou pouco depois. Nos dias seguintes, Artur aprendeu a esconder a verdade. Começou a dizer apenas que tinha tido "problemas pessoais". Mas as perguntas apareciam sempre.

Onde tinha estado?

Porque tinha interrompido a vida profissional?

Tinha referências?

E, quando dizia a verdade, via a mesma mudança nos rostos. O sorriso desaparecia. A conversa tornava-se mais curta. As mãos que antes recebiam o currículo com naturalidade passavam a segurá-lo como se fosse um objeto incómodo.

Passaram-se dias. Depois semanas. Artur continuava a procurar. Todas as manhãs saía de casa com a mesma determinação. Todas as tardes regressava com o mesmo silêncio.

Certa noite, um dos irmãos encontrou-o sentado na cozinha.

— Ainda não arranjaste nada?

Artur abanou a cabeça.

— Ainda não.

— Pois... não é fácil com o teu passado.

Artur olhou para ele.

— O meu passado?

— Sabes o que quero dizer.

— Sei.

Levantou-se devagar e foi para o quarto. Naquela noite, tirou do armário a pequena mala com que tinha saído da prisão. Abriu-a. Lá dentro estavam as mesmas poucas coisas que levara três anos antes. Pegou na fotografia da família. Ficou algum tempo a olhar para ela. Depois voltou a guardá-la. No dia seguinte, saiu novamente de casa. Levava a mesma roupa, o mesmo currículo e a mesma vontade de começar de novo.

À porta de uma empresa, entregou os documentos. A funcionária leu o currículo. Fez-lhe algumas perguntas. Depois olhou para ele.

— Podemos perguntar-lhe uma coisa?

Artur assentiu.

— Teve algum problema com a justiça?

Durante alguns segundos, não respondeu. Olhou para as próprias mãos. Pensou nos três anos dentro daqueles muros. Pensou nos três anos que tinha cumprido. Pensou em todas as manhãs em que se levantara cedo, em todas as regras que cumprira, em todas as vezes que tentara mostrar que podia ser diferente. Por fim, levantou os olhos.

— Sim.

A mulher ficou em silêncio. Artur pegou no currículo e levantou-se.

— Obrigado pelo seu tempo.

Saiu. Na rua, parou junto a um banco. Sentou-se. À sua frente, as pessoas caminhavam apressadas. Algumas iam trabalhar. Outras levavam os filhos pela mão. Um homem atravessava a rua sem sequer olhar para ele. Artur ficou ali durante muito tempo. Tinha cumprido a sua pena. Tinha saído pelos portões da prisão. Era, perante a lei, um homem livre. Mas havia uma coisa que ainda não conseguia compreender: se já tinha pago pelo seu passado, porque continuava a ser condenado por ele?

Levantou-se. Olhou para a rua e começou a caminhar. Não sabia para onde. Não sabia se encontraria alguém disposto a dar-lhe uma oportunidade. Não sabia sequer se conseguiria convencer os outros de que um homem pode mudar. Mas continuou a andar. E, talvez pela primeira vez, percebeu que a porta da prisão tinha ficado para trás. Ou talvez não. Porque há prisões que têm muros, guardas e fechaduras. E há outras que são construídas apenas com os olhos, as palavras e os preconceitos dos outros.

A questão é saber: quando alguém cumpre a sua pena, quem decide quando está verdadeiramente livre?

Na manhã seguinte, Artur levantou-se cedo. Vestiu a camisa branca que a mãe lhe tinha passado na noite anterior. Fez a barba com cuidado e ficou alguns segundos diante do espelho. Parecia o mesmo homem. Mas já não era. Pegou nas chaves e saiu. A mãe estava na cozinha.

— Onde vais?

Artur apertou o casaco.

— Tenho uma coisa para resolver.

— É a oficina?

Ele hesitou.

— É.

A mãe aproximou-se.

— E estás com medo?

Artur sorriu.

— Estou.

— De quê?

Ele demorou a responder.

— De descobrir se saí mesmo da prisão.

A mãe não percebeu. Ou talvez tivesse percebido demasiado bem. Artur saiu. Chegou à oficina alguns minutos antes da hora marcada. Ficou do outro lado da rua, olhando para a porta. Entravam trabalhadores. Saíam clientes. Uma carrinha parou junto ao portão. Artur consultou o relógio.

Esperou. Cinco minutos. Dez. Quinze.

Por fim, atravessou a rua. Quando entrou, o dono da oficina estava atrás do balcão. Levantou os olhos.

— Bom dia.

— Bom dia.

O homem ficou a olhar para ele. Artur aproximou-se.

— Vim falar consigo.

— Eu sei.

Silêncio. Artur sentiu o coração bater mais depressa.

— Sobre ontem...

O homem baixou os olhos para uma folha que tinha em cima da mesa.

— Sim.

Artur esperou. O homem pegou na folha. Dobrou-a. Voltou a pousá-la.

— Eu pensei muito durante a noite.

Artur não disse nada.

— E falei com algumas pessoas.

Mais silêncio.

— Algumas disseram-me que não devia correr riscos.

Artur respirou fundo.

— E outras?

O homem olhou diretamente para ele.

— Outras disseram que toda a gente merece uma oportunidade.

Artur ficou imóvel.

O homem levantou-se. Caminhou até à porta da oficina e abriu-a. O barulho das ferramentas chegou até eles.

— Então? — perguntou Artur.

O homem ficou de costas. Artur esperou. Um segundo. Dois. Três. Depois ouviu:

— Amanhã...

A palavra ficou suspensa no ar. Artur não perguntou mais nada.

Saiu da oficina. Na rua, o sol começava a aparecer entre as nuvens. Caminhou devagar.

No bolso, sentiu o relógio. Parou. Olhou para a hora. Depois continuou.

Quando chegou a casa, a mãe estava novamente à janela. Viu-o aproximar-se. Artur levantou a mão. Ela sorriu. Mas não conseguiu perceber se aquele sorriso era de alívio ou de esperança. Artur entrou. Pousou as chaves sobre a mesa.

— Então? — perguntou a mãe.

Ele ficou calado. Tirou o casaco. Sentou-se. Olhou para as próprias mãos.

— Amanhã — disse.

— Amanhã o quê?

Artur levantou os olhos. Durante alguns segundos, pareceu procurar uma resposta. Mas apenas repetiu:

— Amanhã.

A mãe aproximou-se. Abraçou-o. Artur fechou os olhos. Lá fora, alguém passou pela rua. Um carro travou. Uma porta bateu. Depois, silêncio. Artur levantou-se e foi até à janela. Ficou a olhar para a rua durante muito tempo. Talvez estivesse à espera do dia seguinte. Talvez estivesse apenas a aprender a esperar. E talvez fosse essa a verdadeira dificuldade de ser livre: não saber se a porta que se tem diante de si está prestes a abrir-se ou se, mais uma vez, alguém a vai fechar. Naquela noite, Artur deitou-se sem saber o que aconteceria no dia seguinte. Porque talvez a liberdade comece quando nos deixam entrar. Ou talvez comece muito antes disso. Talvez Artur ainda estivesse preso.

Na manhã seguinte, Artur levantou-se cedo. Vestiu a camisa branca que a mãe lhe tinha passado na noite anterior, fez a barba e ficou alguns instantes diante do espelho.

— Hoje começa — disse para si. Não sabia se falava do trabalho ou da vida. Quando chegou à oficina, o portão ainda estava fechado. Esperou. Pouco depois, apareceu o dono.

— Já cá está?

— Cheguei cedo.

— Vejo que não perdeu o hábito.

Artur sorriu.

— O hábito de quê?

O homem encolheu os ombros.

— De chegar a horas.

Abriu o portão.

— Entre.

Artur entrou. O homem conduziu-o até ao pequeno escritório. Em cima da secretária estava o seu currículo. E, por cima dele, uma folha dobrada. Artur reconheceu imediatamente o papel.

— É aquilo que encontrou?

O homem olhou para a folha.

— Encontrei algumas coisas.

— Sobre mim?

— Sobre o seu passado.

Artur sentou-se.

— Eu não escondi nada.

— Não.

O homem fez uma pausa.

— Mas também não contou tudo.

Artur respirou fundo.

— Há coisas que não cabem num currículo.

— É verdade.

O homem recostou-se na cadeira.

— Sabe, Artur, eu já tive aqui gente com um passado complicado.

Artur levantou os olhos.

— E ficaram?

— Alguns.

— E os outros?

— Alguns foram embora.

— Porque quiseram?

O homem sorriu de lado.

— Nem sempre.

Seguiu-se um silêncio desconfortável.

Artur apontou para a folha.

— Então, por que me chamou? O homem ficou alguns segundos sem responder.

— Porque preciso de um homem para a oficina.

Artur sentiu uma pequena esperança.

— E?

— E você sabe trabalhar.

— Sei.

— E parece disposto.

— Estou.

— E não chegou atrasado uma única vez.

Artur sorriu.

— Ainda nem comecei.

O homem também sorriu.

— Talvez seja isso que interessa.

Por alguns segundos, Artur acreditou que estava tudo decidido.

Então o homem acrescentou:

— Mas há coisas que não dependem só de mim.

O sorriso desapareceu do rosto de Artur.

— Dos clientes?

— Também.

— Dos outros trabalhadores?

— Talvez.

— Da sua família?

O homem olhou para ele, surpreendido.

— Por que diz isso?

Artur baixou os olhos.

— Porque já ouvi essa conversa antes.

O homem levantou-se e foi até à janela.

— Eu não lhe vou mentir.

Artur esperou.

— Se fosse eu a decidir sozinho...

O homem voltou-se.

— Se fosse você a decidir sozinho, o quê?

— Talvez fosse mais simples.

— Mais simples para quem?

O homem não respondeu. Em vez disso, pegou na folha que estava sobre a secretária, dobrou-a cuidadosamente e guardou-a numa gaveta.

— Venha amanhã.

Artur ficou imóvel.

— Para trabalhar?

O homem olhou para ele.

— Venha amanhã.

— Isso é um sim?

Um pequeno sorriso apareceu no rosto do homem.

— É uma oportunidade.

Artur franziu o sobrolho.

— Não é a mesma coisa.

— Não.

O homem abriu a porta.

— Amanhã saberá.

Artur saiu.

Já na rua, voltou-se para a oficina.

O portão estava aberto. Mas, por alguma razão, Artur não conseguiu deixar de olhar para a gaveta onde ficara o papel. Quando chegou a casa, a mãe percebeu imediatamente que alguma coisa tinha acontecido.

— Então?

Artur pousou as chaves.

— Disseram-me para voltar amanhã.

A mãe sorriu.

— Isso é bom.

— É.

— Então conseguiste.

Artur ficou calado.

— Mãe...

— Sim?

— Se alguém disser que me deu uma oportunidade, isso significa que confia em mim?

Ela pensou alguns segundos.

— Talvez.

— E se disser que ainda tem dúvidas?

— Talvez também.

Artur sorriu tristemente.

— Parece que toda a gente gosta dessa palavra.

— Qual?

— Talvez.

A mãe aproximou-se dele.

— O que vais fazer amanhã?

Artur olhou para o relógio. Os ponteiros avançavam sem sobressaltos, indiferentes ao peso da incerteza que se instalara naquela casa.

— Amanhã vou lá estar — respondeu, a voz num tom firme que tentava convencer-se mais a si do que à mãe. — A horas.

Na manhã seguinte, o ar frio do alvorecer cortava-lhe a pele enquanto caminhava para a oficina. A camisa branca parecia-lhe agora uma armadura demasiado fina contra o olhar dos outros. Ao chegar, o portão de ferro já estava entreaberto. Do interior, vinha o eco cadenciado de uma chave mecânica a bater num metal, acompanhado pelo cheiro denso a óleo queimado e fumo.

Artur empurrou o portão. Lá dentro, dois mecânicos pararam o trabalho por um segundo, medindo-o de alto a baixo antes de voltarem às suas tarefas, sem uma palavra. O silêncio deles pesava mais do que qualquer insulto.

O dono da oficina surgiu ao fundo do corredor, com o fato de trabalho já manchado e uma prancheta na mão. Olhou para Artur, depois para o relógio de parede.

— Fato de macaco no balneário ao fundo. O fato número quatro deve dar-te — disse, sem rodeios ou floreados. — Hoje começas por organizar as ferramentas da caixa principal e limpar o fosso da zona três. Depois logo se vê.

Artur assentiu. Não era uma promessa de futuro nem um voto de confiança expressa; era apenas trabalho, cru e imediato.

Avançou para o fundo do armazém. A cada passo, sentia o peso de um veredito invisível suspenso no ar. Ao abrir a porta do balneário, viu o fato de trabalho pendurado num cabide de arame. Estendeu a mão para o pano áspero, sabendo que ali, entre a sujidade da massa e a ferrugem dos carros, começaria a desenhar-se a resposta.

Resta saber se aquela farda seria o símbolo da sua verdadeira libertação e reintegração, ou apenas o fato de um homem que continuará, para sempre, prisioneiro do olhar do mundo.



O Peso do Brasão

No topo da colina, o casarão dos Silvas de Vasconcelos continuava de pé, firme e teso, embora o telhado ameaçasse cair e o banco ligasse dia sim, dia não. Nas paredes do corredor, os retratos a óleo dos antepassados olhavam para baixo com um ar muito sério, como se tivessem inventado a honestidade e os bons costumes.

Durante gerações, famílias como os Silvas, os Coutinhos, os Sampaios e os Albuquerques trataram o apelido como se fosse um título divino. Apresentavam-se como a última barreira contra a decadência moral do país. Na prática, porém, a história era um bocado diferente: as dívidas de jogo viravam "investimentos mal calculados", os escândalos de corrupção passavam a "pequenos lapsos" e o desrespeito pelas leis era visto apenas como uma "excentricidade de quem tem bom berço".

Chegámos ao século XXI, mas para o jovem Dinis de Sampaio e Vasconcelos, o mundo não tinha mudado assim tanto. O rapaz cresceu a acreditar que o seu apelido funcionava como um passe livre para a vida. O caminho já vinha desenhado de fábrica: a melhor escola privada da cidade, o curso certo e um lugar reservado nos melhores restaurantes.

O Dinis até era um rapaz bem de vida e com bom coração. Uma vez por ano, vestia uma camisa de linho, tirava umas fotografias a entregar cabazes de Natal aos mais pobres e sentia-se um autêntico herói da solidariedade. Afinal, fazer caridade fica sempre bem no currículo social.

O problema é que, fora das fotografias, o mérito para o Dinis era só uma palavra engraçada que os outros usavam. O seu apelido abria portas em conselhos de administração onde ele mal sabia o que estava a fazer, garantia empréstimos sem grandes perguntas e perdoava qualquer asneira. Eram "gente de bem", e isso bastava.

Quando a tempestade aperta, a elite fecha fileiras. O apelido funciona como uma fortaleza impenetrável onde a justiça raramente consegue entrar sem bater à porta com licença prévia. Entre juízes com quem se partilham almoços de domingo, advogados que frequentaram os mesmos colégios e magistrados que são primos de segundo grau, os prazos dilatam-se, os recursos multiplicam-se e os processos prescrevem nas gavetas com uma elegância. A justiça, afinal, parece ter um respeito reverencial pelas árvores genealógicas.

Criou-se, ao longo dos séculos, um autêntico misticismo à volta destas famílias. Vende-se a ideia de que há uma integridade inata no sangue, uma espécie de sabedoria herdada que faz deles líderes naturais. Na prática, este misticismo serve de combustível para o único elevador social que nunca avaria: o da tradição.

No mercado de trabalho, o mérito dos outros continua a subir pelas escadas de serviço, enquanto o apelido do Dinis apanha o elevador privativo diretamente para o último andar. Não importa se o jovem Vasconcelos não percebe nada de finanças modernas ou de gestão de equipas; a sua mera presença numa mesa de negociações "dá prestígio", transmite "confiança" e assegura "estabilidade".

Dinis ocupa agora um cargo diretivo numa nova consultora internacional, contratado precisamente para "abrir portas" junto do Estado e de outros grandes grupos familiares. Continua a frequentar os mesmos clubes, a doar quantias simbólicas em jantares de gala e a olhar para o resto do país com a condescendência de quem se sente dono do tabuleiro.

 

previewer

terça-feira, 15 de setembro de 2026

O Homem Que Vivia no Futuro

 

Tiago passou grande parte da vida a caminhar em direção a algum lugar.

Desde pequeno, aprendeu que era preciso ter objetivos. Estudar para conseguir um bom emprego. Trabalhar para ganhar dinheiro. Ganhar dinheiro para ter uma casa.
Ter uma casa para construir uma vida melhor.

E assim foi avançando.

Havia sempre alguma coisa mais à frente.

Quando terminava uma etapa, começava imediatamente a pensar na seguinte.

Quando conseguiu o emprego que desejava, pensou:

— Agora falta conseguir aquela promoção.

Quando conseguiu a promoção:

— Agora preciso de ganhar mais.

Quando finalmente alcançou aquilo por que tinha trabalhado durante tantos anos, esperou sentir alguma coisa diferente.

Esperou sentir paz.

Esperou sentir que, finalmente, tinha chegado.

Mas essa sensação durou pouco.

Logo surgiu uma nova preocupação.

Uma nova meta.

Um novo cenário para antecipar.

Tiago começou a perceber que vivia quase sempre no futuro.

Enquanto estava num momento, imaginava o seguinte.

Enquanto conquistava alguma coisa, pensava naquilo que ainda faltava.

E, sem se aperceber, começou a adiar a própria vida.

Dizia a si próprio:

“Quando isto acontecer, vou descansar.”

“Quando tiver mais dinheiro, vou aproveitar.”

“Quando resolver este problema, vou ser feliz.”

“Quando chegar lá, finalmente vou poder viver.”

Mas o “lá” nunca chegava.

Ou, quando chegava, transformava-se rapidamente noutro lugar.

Foi então que começou a sentir uma angústia difícil de explicar.

O corpo estava cansado.

A mente estava cansada.

E, mesmo quando nada de grave acontecia, existia dentro dele uma inquietação constante.

Tiago começou a perceber uma coisa dolorosa: talvez não estivesse cansado apenas do caminho.

Talvez estivesse cansado de acreditar que a vida só começaria quando chegasse ao destino.

Um dia, depois de mais uma conquista, sentou-se sozinho.

Tinha conseguido aquilo que, durante anos, considerara importante.

Olhou para tudo o que tinha construído.

E perguntou a si próprio:

— Era isto que eu queria?

Não sabia responder.

Então surgiu outra pergunta:

— Ou passei tantos anos a correr que já nem sei para onde estava a ir?

Naquele momento, Tiago percebeu que talvez o problema não estivesse no mundo.

Não era culpa do trabalho.

Nem das pessoas.

Nem das circunstâncias.

Nem sequer das suas ambições.

O problema estava na forma como se relacionava com tudo aquilo.

Ele transformava cada conquista numa passagem para outra conquista.

Cada chegada tornava-se uma nova partida.

E aquilo que deveria ser vivido transformava-se simplesmente numa preparação para o momento seguinte.

E encontrou uma ideia que começou, lentamente, a mudar a sua forma de olhar para a vida: o caminho não é apenas aquilo que nos leva ao destino.

Tiago começou a experimentar algo simples.

Sentar-se.

Respirar.

Sentir o corpo.

Ouvir os sons à sua volta.

Sem precisar de chegar a lado nenhum.

No início, parecia inútil.

A sua mente perguntava:

— Mas para quê?

— O que vou conseguir com isto?

— Qual é o objetivo?

E ele percebeu que essa era precisamente a questão.

Talvez nem tudo tivesse de servir para alguma coisa.

Talvez nem todos os momentos tivessem de produzir um resultado.

Talvez respirar pudesse ser apenas respirar.

Caminhar pudesse ser apenas caminhar.

Comer pudesse ser apenas comer.

Estar com alguém pudesse ser simplesmente estar.

Pela primeira vez, Tiago começou a experimentar a vida sem exigir que cada momento o levasse a algum lugar.

E percebeu algo estranho.

Quando deixou de procurar constantemente o momento perfeito, começou a reparar no momento que já existia.

A luz da manhã.

O café quente.

O silêncio de uma sala.

O vento no rosto.

Uma conversa sem pressa.

Nada de extraordinário.

E, ainda assim, suficiente.

Tiago compreendeu então que talvez a vida nunca tivesse sido uma linha entre “o que foi” e “o que poderia ser”.

Talvez a vida fosse aquilo que está a acontecer agora.

Durante anos, tinha vivido entre duas versões de si próprio: o homem que tinha sido

e o homem que esperava tornar-se.

E, nesse intervalo, esquecia-se do homem que já era.

A partir daquele dia, não abandonou os seus objetivos.

Continuou a trabalhar.

Continuou a sonhar.

Continuou a fazer planos.

Mas alguma coisa mudou.

Os objetivos deixaram de ser a promessa de uma vida futura.

Passaram a fazer parte do próprio caminho.

Tiago continuava a querer conquistar coisas.

Mas já não precisava que cada conquista lhe desse um sentido para existir.

Começou a compreender que chegar a algum lugar não significa necessariamente estar completo.

E que não chegar também não significa ter falhado.

Porque talvez não exista um ponto final onde a vida finalmente começa.

Existe apenas este momento.

Este passo.

Esta respiração.

Este dia.

E, quando Tiago deixou de perguntar constantemente:

“Quando é que finalmente vou chegar?”

começou a perguntar:

“Como estou a viver enquanto caminho?”

Foi aí que percebeu que o maior erro talvez não fosse escolher o caminho errado.

Talvez fosse passar a vida inteira a caminhar sem nunca estar verdadeiramente presente no caminho.

E, pela primeira vez, Tiago não precisou de saber exatamente para onde ia.

Respirou.

Olhou à sua volta.

E continuou a caminhar.

Não, porque precisava de chegar.

Mas porque estava vivo.

E isso, naquele momento, era o quanto baste.



O Caminho do Infinito

Entre o tudo e o nada, escolho caminhar, Pois o importante da vida é saber sentir, Viver com emoção, aprender a recomeçar, E, na inc...