Era uma vez uma senhora de origens humildes, que cresceu no turbilhão de uma vida turbulenta e cheia de sobressaltos. Um dia, quase por mero acaso, preencheu as cruzes num boletim e, de uma hora para a outra, tornou-se milionária.
Diante
de tamanha reviravolta, tratou de encontrar explicações celestiais: justificou
a bênção financeira com a devoção aos santos, com a sua vida passada de
sacrifícios e com a certeza inabalável de que os seus mereciam tal sorte
divina.
A
mudança de estatuto não esperou pelo amanhã. Ostentou, de imediato, os sinais
mais evidentes da nova vida: carros de alta cilindrada a roncar à porta, um
guarda-roupa inteiramente renovado com etiquetas reluzentes e uma mansão
imponente. Rapidamente perfilou-se como uma empresária de sucesso, temperando a
sua nova persona com uns raios de solidariedade grotesca, distribuída
com soberba condescendência aos "pobrezinhos" — como gostava de lhes
chamar.
Ao
longo dos anos, tornou-se figura assídua na imprensa. Concedia entrevistas onde
desfiava a sua história de vida, apresentando-se quase incólume, como uma santa
que a divindade decidira recompensar com merecida fortuna. Em tom de desabafo,
argumentava com frequência que, mesmo sendo rica, sentia que todos se
aproximavam de si apenas pelo seu dinheiro — até os mais próximos, dos quais
desconfiava sem cessar.
Com
o tempo, porém, começou a tornar-se evidente que a sua maior pobreza nunca fora
material. Era uma pobreza mais profunda, dessas que não se resolvem com
dinheiro nem se disfarçam com marcas de luxo: a pobreza de princípios, de
consciência e de capacidade para olhar o mundo para além do próprio umbigo.
A
mansão crescera em metros quadrados, mas não em horizontes. A garagem
enchera-se de automóveis, mas continuava a faltar-lhe a capacidade de avançar
para além dos preconceitos. O guarda-roupa multiplicara-se em tecidos caros,
mas nenhuma peça conseguira vestir-lhe a humildade. Os objetos mudavam, os
cenários renovavam-se, as fotografias ganhavam novos fundos, mas a essência
permanecia prisioneira das mesmas limitações.
Era,
no fundo, uma mulher rodeada de abundância e governada pela escassez. Escassez
de pensamento crítico, de empatia genuína, de sentido de justiça e, sobretudo,
de consciência das próprias contradições. Tinha dinheiro suficiente para
comprar quase tudo, menos a lucidez necessária para reconhecer que o preço das
coisas nada tem a ver com o seu valor. Confundia o poder de compra com
superioridade moral e a capacidade de oferecer esmolas com o direito de se
sentir superior a quem delas precisava.
A
sua caridade, tantas vezes exibida como prova de bondade, trazia sempre
escondida uma fatura invisível: a da submissão, da gratidão obrigatória e da
humilhação subtil de quem recebia. Não ajudava para diminuir a distância entre
os que tinham e os que não tinham; ajudava, antes, para confirmar a distância
que tanto gostava de preservar. Chamava-lhes pobrezinhos, sem perceber que a
expressão dizia muito mais sobre a sua própria pequenez do que sobre a condição
daqueles a quem se dirigia.
E
havia ainda uma ironia difícil de ignorar: a mulher que tanto desconfiava de
ser procurada pelo dinheiro parecia incapaz de imaginar relações humanas que
não fossem medidas pelo interesse. Suspeitava da ganância alheia, mas raramente
questionava a sua própria vaidade. Temia que os outros a quisessem pela
fortuna, sem se perguntar se, despojada dos carros, da mansão e dos sinais
exteriores de prosperidade, lhe restaria alguma coisa capaz de despertar uma
admiração que não fosse comprada pelo prestígio.
Talvez
fosse essa a verdadeira tragédia da sua história: ter passado de uma vida de
privações para uma vida de abundância sem nunca ter compreendido a diferença
entre possuir muito e ser muito. A fortuna oferecera-lhe meios, mas não lhe
dera critérios; abrira-lhe portas, mas não lhe alargara a visão; colocara o
mundo ao seu alcance, mas não a ensinara a compreendê-lo.
E
assim terminou o ciclo, não com a queda de uma milionária, mas com a revelação
de uma ilusão. A fortuna tinha sido apenas uma mudança de circunstâncias, nunca
uma evolução de carácter. Os bens materiais tinham crescido até à exuberância;
os princípios, esses, continuavam reduzidos à dimensão original.

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