Vivia em África os primeiros anos da sua
infância. O Natal, como para todas as crianças, era um momento mágico — não só
pelo convívio familiar, mas também pela magia das prendas, que surgiam todas
como por obra de magia. O pequeno Bernardo ainda conseguia fechar os olhos e
ouvir o apito do comboio de lata, sentir a textura do seu carrinho de bombeiros
com o tubo de escape reluzente e ver a mesa farta cercada de luz e gargalhadas
sob as noites quentes do calor africano.
Porém, houve um dia em que o regresso a
Portugal aconteceu.
A família deixou para trás a terra do
sol e regressou à aldeia dos seus pais, incrustada entre montanhas cinzentas e
nevoeiros espessos. Para o pequeno Bernardo, o choque foi imediato. A forma de
vestir das pessoas — pesada, escura, feita de lã áspera —, as casas modestas de
pedra fria e o vento gelado que trespassava as frestas das janelas
transformaram o Natal. A festa deixara de ser quente e luminosa; era agora um
dia frio, distante e marcado pelo isolamento na rota silenciosa entre as casas
dos familiares. E as prendas... essas deixaram de ser um momento de
expectativa. O comboio reluzente fora substituído por uma meia de lã com duas
nozes, uma maçã e um peão de madeira escavado à mão.
A partir desse momento, a mente do rapaz
tornou-se um labirinto de perguntas. Porque é que esse Pai Natal se tornara, de
repente, tão pobre? Seria a influência das pessoas? O lugar estaria
amaldiçoado? Ou teria o Pai Natal ficado doente ao atravessar o oceano?
Bernardo gostava de saber o que estaria a passar para tão brusca mudança.
Talvez o tempo lhe desse uma resposta.
Passaram dois anos. Bernardo cresceu a
observar os adultos da aldeia. Notava como trocavam olhares cúmplices ao
entardecer, como o velho artesão da aldeia fechava a oficina semanas antes de
dezembro e como o seu próprio pai guardava, num baú trancado no sótão, cartas
amareladas com carimbos do Ultramar.
— Pensei que o Pai Natal se tinha
esquecido de nós quando viemos para aqui — sussurrou Bernardo, saindo da
penumbra.
O pai virou-se, surpreso, mas o seu
olhar não era de culpa; era de uma profunda e silenciosa nostalgia.
— Bernardo... em África, a magia vinha
de longe, embalada em caixas que escondiam a distância que nos separava das
nossas raízes — disse o pai, com a voz embargada pelo frio. — Mas aqui, na
aldeia, a magia não vem de trenós ou de lojas cintilantes. O Pai Natal desta
terra não é rico, mas veste as roupas gastas dos teus tios, do artesão e dos
teus avós. Ele dá tudo o que tem, mesmo quando não tem quase nada.
Bernardo decidiu estar atento até à
noite de Natal para tentar descobrir este Pai Natal da aldeia. Manteve-se em
silêncio, encolhido sob as mantas pesadas de lã, controlando a respiração na
penumbra do quarto. Eis que, no silêncio denso da madrugada gelada, ouviu o
ranger discreto das tábuas do soalho. Espreitou pela fresta da porta e
descobriu o seu "Pai" Natal, que trazia com cuidado algumas
prendas modestas e as colocava junto à lareira apagada. Foi nesse preciso
momento que se apercebeu de um rosto familiar sob o capuz gasto do sobretudo.
Não era uma figura mágica vinda do
Norte, nem um estranho das montanhas: era o seu próprio pai. As mãos que agora
depositavam o peão de madeira e as nozes eram as mesmas mãos calejadas pelo
trabalho árduo da terra, as mesmas que em África sustentavam os brinquedos
reluzentes e que agora faziam o impossível para alimentar a casa e aquecer o
inverno.
Bernardo não disse nada no momento.
Guardou o segredo no peito como um tesouro precioso. No dia seguinte, quando
chegou a hora de abrir as prendas sob o olhar ansioso da família, o pequeno
Bernardo segurou o peão de madeira com uma firmeza nova. Olhou nos olhos do
pai, sorriu com uma maturidade que a infância até ali não conhecera, e informou
a todos, com a voz clara e serena, que o seu Pai Natal era exatamente o mesmo
de África. E que, para ele, isso chegava e bastava — pois quem dá tudo o que
tem, a nada mais é obrigado.
Naquela casa fria de pedra, o Natal
voltou, finalmente, a ser quente.

Sem comentários:
Enviar um comentário