No fim de uma tarde sem cor, a garagem parecia suspensa num tempo que já não existia. Cheirava a poeira antiga, a metal frio e àquele aroma inconfundível de guardado que só as memórias do meu pai conseguiam ter. As prateleiras ainda suportavam o peso de caixas de papelão esquecidas, acumulando a poeira que o sol, ao pôr-se, mal conseguia iluminar.
Aproximei-me da caixa no centro da
bancada. Ao abri-la, fui ao encontro dos seus pequenos pedaços de vida. Havia
pequenos papéis onde a sua caligrafia, outrora firme, se esbatia; papéis que
amareleceram com as décadas, alguns ao ponto de ficarem completamente
ilegíveis, guardando segredos que o tempo decidiu apagar antes que eu os
pudesse ler.
Ao lado, as medalhas. Guardadas em
estojos velhos de veludo gasto, tinham ganho ferrugem ao longo dos anos, apesar
da solidez do seu aço. Era um contraste estranho: o metal feito para resistir
ao tempo e à guerra acabou por sucumbir ao esquecimento de uma garagem. Dizem
que o tempo cura tudo, e talvez seja verdade — a dor da sua partida já não
queimava como antes —, mas as marcas do que viveu continuavam ali, bem
visíveis, impressas naquele aço ferrugento.
No fundo da caixa, encontrei um monte de
fotografias de sépia, com as bordas dentadas e gastas. Eram retratos dos nossos
antepassados. Rostos sérios, de olhar fixo e postura firme, rostos de gente que
agora já ninguém recorda. Olhei para cada um deles com uma pontada de solidão,
sabendo que pertenço à última geração que ainda reconhece quem está lá. Quando
eu partir, aqueles nomes apagar-se-ão definitivamente.
Peguei nas fotos com cuidado. Não podia
deixá-las ali a desfazerem-se no escuro. Levei-as comigo para a luz do dia,
decidindo resgatá-las da sombra para perdurarem e lembrarem a nossa história
por mais algum tempo.
O meu pai guardou tudo aquilo por anos,
como se soubesse que um dia eu precisaria daquele reencontro. E foi
precisamente ali, no meio do silêncio da garagem, vi algo inesperado como suspenso no tempo.
Um poema condensa essa atmosfera
transformando o espaço da garagem num símbolo do limiar entre o esquecimento e
o resgate.
Tudo o que o tempo tentou apagar
renascia agora em mim.
No fim de uma tarde sem cor e calada,
A garagem guardava o tempo esquecido,
O cheiro a antigo na sombra pousada,
E o rasto de um pai que já tinha
partido.
Papeis amarelos de escrita sumida,
Segredos rasgados que o tempo levou,
Histórias de ferro, de marcas e vida,
Que a poeira das horas no chão apagou.
Medalhas de aço que o tempo corroeu,
Ganharam ferrugem na dor do seu brilho;
A ferida sarou, mas a marca valeu
Na memória guardada nas mãos deste
filho.
Atrás das memórias, as fotos sem voz,
Rostos antigos que a névoa cobriu;
Serei dos últimos que olha por nós,
A dar-lhes um nome que o mundo esqueceu.
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