sexta-feira, 14 de agosto de 2026

A Segunda Vida

 

Durante quase metade da sua jornada, Joaquim acreditava que a vida era um trilho traçado antes de ele próprio aprender a andar. Pensava que as suas escolhas não passavam de meras ilusões de um guião invisível: as expetativas da família, o julgamento dos vizinhos, as exigências do mundo e o eco constante das vozes alheias. Vivia a responder a cada provocação, a tentar provar o seu valor em praça pública, consumindo dias e noites na ânsia de ser compreendido.

Julgava-se livre, mas vivia condicionado. Afinal, quem passa a vida a reagir ao ruído exterior não conduz os próprios passos; limita-se a ser conduzido por aquilo que o rodeia.

Numa madrugada fria de outono, ao olhar para o espelho envelhecido da sua casa de pedra , algo se rompeu dentro dele. Não houve um grande trovão nem um evento dramático — apenas a clareza cortante do silêncio. Lembrou-se do velho aforismo: «Todos temos duas vidas, e a segunda começa no momento em que percebemos que só temos uma.»

Naquele instante, a primeira vida de Joaquim terminou. E a pergunta que sempre o assombrara voltou à tona: Serei livre para escolher, ou estarei aprisionado ao destino?

Joaquim calçou as botas gastas, vestiu o casaco pesado e saiu para a estrada de terra batida ao romper do dia. Percebeu que a questão do livre-arbítrio contra o determinismo não se resolve com teorias, mas com a atitude perante o caminho.

O condicionalismo existe: o vento sopra de onde quer, o terreno por vezes é íngreme e o tempo desfaz as promessas no ar. No entanto, a liberdade não reside em controlar a tempestade, mas sim em decidir como caminhar sob ela. A verdadeira escolha não é entre o destino e o acaso, mas entre viver refém da opinião dos outros ou assumir a responsabilidade total pela própria consciência.

Deixou de discutir. Deixou de tentar convencer quem nunca quis entender. Compreendeu que quem procura aprovação constante edifica a sua própria prisão. A liberdade genuína começa quando a mente encontra a paz e se recusa a negociar os seus valores essenciais.

Enquanto a vila debatia as suas escolhas e o criticava na penumbra das conversas de café, Joaquim apenas continuou a caminhar. Cuidou da sua terra, trabalhou com disciplina e temperou o carácter na paciência e no labor silencioso.

Anos mais tarde, quando os mesmos que dele duvidaram vieram perguntar-lhe qual tinha sido o «atalho» ou o segredo para a sua serenidade e firmeza, Joaquim apenas sorriu em silêncio. Não existiam atalhos nem destinos mágicos caídos do céu; existia tão-só a escolha diária de erguer a cabeça, não desistir de si mesmo e manter a fidelidade aos seus princípios.

A Resposta à Questão

Somos condicionados pelas circunstâncias — é um facto. Contudo, o livre-arbítrio manifesta-se quando decidimos o que fazer com aquilo que o mundo fez de nós. O destino é apenas a moldura; a pintura é feita a cada passo.

A segunda vida de Joaquim ensinou-lhe que as vitórias mais autênticas não precisam do barulho dos aplausos nem de notas de rodapé. Quando o ruído das opiniões se dissipa e o vento leva as palavras ocas, resta apenas o carácter e a pegada que deixámos no chão. E é nesse silêncio soberano que a verdadeira liberdade reside.

domingo, 9 de agosto de 2026

Mundos Novos

 

Para além do Bojador, onde o medo era lenda,

Rasgaram-se as velas no escuro do mar.

Sem chão sob os pés, em tão rija contenda,

Partiram os nossos com fé no olhar.

Desbravaram caminhos no vasto horizonte,

Dando a conhecer novos povos e terras sem fim,

Unindo este mundo de ponte em ponte,

Com a alma gravada na pele e no sal.

E por cá, junto ao cais de salgado pranto,

Ficaram os olhos banhados em dor,

A medir a distância em silêncio e espanto,

A guardar no peito um imenso amor.

Desejavam o regresso em cada maré,

Pois quem parte não morre no nosso coração;

Na saudade aprendemos a erguer a nossa fé,

E a fazer da memória a eterna canção.



segunda-feira, 3 de agosto de 2026

​O Círculo Fechado

Bernardo olhou para a humidade leve que cobria a folhagem do pomar logo ao amanhecer. Aos sessenta e sete anos, o espelho já não lhe pedia contas, e a cabeça, desprovida de cabelo, refletia a luz serena do início do dia. Já não havia nele a pressa de outrora, quando cada hora exigia uma resposta, uma solução técnica, uma decisão de direção ou um amparo familiar.

Por mais de três décadas, o seu nome fora sinónimo de suporte. Criara os filhos com a firmeza de quem constrói fundações para resistir a tempestades, e na vida profissional erguera projetos, orientara equipas e gerira estruturas com uma dedicação. Acreditara, durante muito tempo, que o seu valor residia na sua utilidade.

Mas o tempo, que tudo pacifica, ensinara-lhe a lição mais nobre do desapego.

Naquela manhã de outono, Bernardo caminhou até à sala de reuniões da instituição.Sobre a mesa, estavam os relatórios do novo plano de rega e os processos que durante anos tinham passado obrigatoriamente pelas suas mãos. Ao seu lado, um jovem engenheiro, de olhar inquieto e transbordante de ambição, explicava uma proposta com a mesma sofisticação e urgência que Bernardo bem conhecia da sua própria juventude.

Bernardo escutou em silêncio. Não sentiu necessidade de interromper para impor a sua vasta experiência, nem de procurar a validação que o respeito do cargo outrora lhe conferia. A urgência da afirmação pertencera ao passado. Em vez de corrigir com a autoridade de quem esteve à frente, sorriu com a benevolência de quem sabe quando dar o passo atrás para deixar o outro crescer.

— O plano está bem desenhado — disse Bernardo, com tom calmo e pausado. — O futuro da estrutura agora é teu. Tens a capacidade necessária para a conduzir.

Ao passar a pasta, Bernardo não sentiu o peso do abandono, mas o alívio da libertação. O seu papel já não era o de comandar a travessia, mas o de consolidar a memória e discernir a verdade dos factos.

Ao final da tarde, passou no  seu gabinete particular. Fechou a porta e abriu a gaveta onde guardava os registos de anos de trabalho conjunto. Era chegado o momento da gratidão criteriosa aos como ele trabalharam juntos. Sem a necessidade de agradar à multidão ou manter aparências de circunstância. Bernardo escrevera algumas cartas individuais.

Escreveu ao velho encarregado das máquinas, cujo trabalho silencioso e discreto mantivera a operacionalidade nos momentos mais críticos. Escreveu à jovem técnica que, sem alarde ou busca de protagonismo, assegurara a precisão dos dados nos anos mais difíceis. Escreveu aos poucos e verdadeiros amigos que caminharam ao seu lado sem pedirem nada em troca.

Bernardo deu a conhecer a relevância de cada um, colocando a luz do reconhecimento precisamente onde o merecimento existia, longe dos refletores do palco principal.

Quando terminou, caminhou até à janela e contemplou os campos. Os filhos tinham a sua própria vida; a instituição seguia o seu rumo com novos rostos; o mundo continuava a girar. No entanto, por dentro, Bernardo sentia uma plenitude inédita. Sem precisar de provar nada a ninguém, encontrava-se, finalmente, no comando sereno da sua própria existência.

Quando a penúltima carta ficou selada, Bernardo pousou a caneta sobre a mesa. Olhou para o relógio de parede: passava pouco das cinco da tarde. Pela primeira vez em mais de trinta anos, não havia chamadas de emergência para atender, nem reuniões de última hora a alinhar, nem a habitual ansiedade invisível de quem sente que o mundo ruirá se não estiver presente para o segurar.

Arrumou a pasta com uma calma quase ritual. Não levou documentos para casa. O caminho de regresso fez-se sem pressas. Pela janela do carro, observou os contornos da luz dourada do fim de tarde a rasgar as sebes. Aquele trajeto, feito tantas vezes com a cabeça ocupada por orçamentos, relatórios e preocupações, parecia agora desenhar-se sob uma perspetiva inteiramente nova.

Ao chegar a casa, o silêncio acolhedor do lar recebeu-o como um abraço antigo. A esposa, habituada ao ritmo intenso dos seus dias, olhou-o com a surpresa discreta de quem o vê chegar mais cedo e com um semblante estranhamente desanuviado. Pouco depois, tal como combinado para aquele fim de tarde, os filhos entraram — já adultos, com as suas vidas próprias, os seus telefones a tocar e o rodopio das suas rotinas aceleradas.

Reunidos em redor da mesa do jardim, onde o chá e o café fumegavam suavemente, o ambiente trazia o murmúrio habitual de conversas sobre o trabalho deles. Bernardo ouvia-os com o afeto de sempre, mas também com a clareza cristalina de quem já não pertence àquela vertigem.

Aproveitando uma pausa natural na conversa, Bernardo pousou a chávena e olhou para cada um dos rostos à sua volta.

— Quero partilhar uma decisão convosco — disse ele, com uma voz pausada, límpida e sem qualquer sombra de hesitação. O silêncio instalou-se de imediato. Os olhares da família cruzaram-se, antecipando talvez o anúncio de um novo projeto exigente.— Hoje fechei o meu ciclo  — continuou Bernardo, esboçando um sorriso leve. — Passei a pasta aos mais jovens. Deixo o trabalho e a direção da estrutura.

A reação inicial dos filhos oscilou entre a surpresa e a incredulidade.

— Mas pai... assim de repente? — perguntou o mais velho. — Sempre foste a espinha dorsal daquilo. Eles vão conseguir gerir as coisas sem ti?

Bernardo abanou a cabeça suavemente.

— Vão, sim. E devem conseguir. Cumpri o meu dever, construí o que tinha a construir e orientei quem tinha de orientar. Mas esse tempo acabou. A minha vida profissional exigiu-me muito, e eu dei-lhe tudo o que tinha. Agora, a minha prioridade já não é gerir, salvar ou provar o meu valor ao mundo.

Olhou para a esposa, segurando-lhe a mão com ternura, e depois voltou-se para os filhos.

— Durante décadas, vivi em função do que precisavam que eu fosse: o pai que sustenta, o técnico que resolve, o profissional indispensável. Hoje não preciso de nada disso para saber quem sou. O tempo que me resta não é para continuar a corresponder a expetativas alheias, mas para ser simplesmente eu próprio. Para ouvir o silêncio, cuidar daquilo que verdadeiramente importa, agradecer a quem caminhou comigo e viver com a verdade da minha essência.

Não havia drama no seu tom, nem vestígio de amargura ou cansaço azedo. Havia apenas uma dignidade profunda, serena e inabalável.

Os filhos, percebendo a nobreza e a firmeza daquela escolha, entreolharam-se. A perplexidade inicial deu lugar a um respeito silencioso e emocionado. O mais novo assentiu devagar, com um olhar de admiração renovada:— Se há alguém que merece essa liberdade, pai... és tu.

Enquanto a noite caía suavemente sobre o jardim, Bernardo encostou-se à cadeira. A brisa da noite trouxe o aroma da terra molhada. Sem obrigações a cumprir, sem cargos a defender e sem necessidade de validação, sentiu a plenitude simples de quem, finalmente, regressara a casa dentro de si mesmo.





quinta-feira, 30 de julho de 2026

Antes do Infinito


Pouso as mãos na mesa e meço a vida

Não pelas estrelas que não alcancei,

Mas pela poeira fina e esquecida

Dos caminhos simples por onde andei.

Gastei a juventude a desenhar o céu,

Certo de que a grandeza me esperava;

Mas a vida desfez o que era meu

E deu-me a terra dura que pisava.

Houve um tempo de raiva e de desdém,

De olhar o vazio e achar pouca a lida,

Até ver que a dor ensina também

A demarcar o chão da própria vida.

Não há mistério nem grande ciência

No gesto cansado de aceitar a dor;

Há só o silêncio e a paciência

De quem faz do pouco o seu valor.

Já não olho o infinito com urgência,

Nem me pesa o que o tempo me tirou:

Descobri a serena permanência

No homem simples em que me tornou.





terça-feira, 28 de julho de 2026

Quando o Mar Ensina a Esperar

Desde pequeno, o Bernardo guardava na memória o som do motor a trabalhar sob o convés, o cheiro a sal e a sensação de horizonte infinito. Tinha feito um cruzeiro na infância e, ao longo dos anos, essa lembrança transformou-se num sonho quase mítico. Bernardo cresceu — em estatura, em maturidade e em responsabilidades. Construiu uma vida ao lado da esposa, a mãe dedicada dos seus filhos, e as exigências do quotidiano foram empurrando aquele desejo para o fundo da gaveta. Mas o sonho continuava lá, paciente.

Finalmente, após décadas de trabalho e dedicação à família, a oportunidade surgiu. Os bilhetes foram comprados, as malas feitas, e o casal embarcou. Nos primeiros momentos no navio, enquanto a costa se afastava, Bernardo sentiu aquele abraço do vento marítimo e a nostalgia realizadora de quem cumpre uma promessa à sua criança interior.

Contudo, a viagem mal tinha começado quando o telefone tocou. Do outro lado da linha veio a notícia de um problema grave com um dos filhos.

O impacto foi imediato. O instinto materno da esposa reagiu como uma tempestade: a vontade imediata de abandonar tudo, desembarcar na primeira escala e voar de volta para apoiar o filho. Era o impulso natural de qualquer progenitor — o desejo visceral de proteger.

Mas ali, em pleno oceano, a realidade impôs-se com dureza. A distância física trazia uma sensação esmagadora de impotência. O desespero de não poder estar fisicamente ao lado do filho ameaçava consumir a paz do casal e transformar o mar num cativeiro.

Foi nesse momento de aflição que Bernardo, buscando uma clareza mais profunda, conversou com a esposa. Lembrou-lhe que, às vezes, "a força bruta não resolve o que só a fluidez consegue atravessar. Se tentarmos lutar contra esta distância agora, vamos apenas esbarrar contra uma parede.Lembra-te de como a água age. Quando a água encontra uma montanha firme no seu caminho, ela não tenta derrubá-la com violência nem para de correr; ela contorna-a. O vento não combate a rocha, abraça os seus contornos e segue adiante.:

Ele explicou-lhe que, naquele momento exato, a melhor resposta não era o pânico nem a presença física forçada, mas sim confiar nas pessoas que já estavam no terreno, a lidar de perto com a situação: os médicos com a sua ciência, a namorada do filho com o seu amor diário e a rede de apoio que o cercava. O papel dos pais, naquele instante, não era o de tentar mudar o inevitável à distância, mas o de ser— fluir com o momento, agir através da não-ação desesperada e enviar estabilidade e serenidade em vez de caos.

A esposa, respirando fundo, permitiu que a sabedoria daquelas palavras acalmasse a tempestade no seu peito. Aceitou que estar presente em espírito, com confiança e temperança, era a ajuda mais real que podiam oferecer à distância. Libertaram a resistência e confiaram no fluxo das coisas.

E assim, ao deixarem de lutar contra a impotência e ao permitirem que a vida seguisse o seu curso natural, a resposta veio. Não do pânico ou do controlo, mas do próprio universo.

Poucos dias depois, as notícias do outro lado do mar trouxeram alívio: a intervenção dos médicos tinha sido precisa, o apoio da namorada fora fundamental, e o filho já se encontrava fora de perigo, em plena recuperação. O universo, na sua ordem silenciosa, tinha arranjado forma de alinhar cada peça no seu devido lugar.

No convés do navio, vendo o sol pôr-se sobre o oceano, Bernardo e a esposa deram as mãos. Compreenderam que a verdadeira viagem não tinha sido apenas navegar pelo mar, mas aprender a arte de fluir como a água diante das tempestades da vida.



quinta-feira, 23 de julho de 2026

Ode ao Mistério e ao Silêncio

 

Lado a lado com a luz com que acordamos,

caminha a sombra que fingimos não ver.

Passamos a vida no artifício de esquecer

a única certeza com que nascemos e crescemos.

E no entanto, o cosmos inteiro nos ensina:

tudo o que desabrocha traz em si o peso da curva,

a lei implacável que nada poupa ou desvia,

o ruído subtil da estrutura que se desfaz e curva.

A física escreve-o em equações de desordem e calor,

a folha seca tomba e aceita o abraço da terra,

as estrelas esgotam-se num sopro de fulgor,

e a vida trava com o tempo a sua mais bela guerra.

Construímos mitos, templos e catedrais de esperança,

para contornar a muralha que o corpo não transfigura,

mas por que razão nos assusta o fim da dança,

se o próprio tecido do mundo é esta frágil tessitura?

Talvez o medo não seja o nada, mas o pressentimento

de que a consciência não é apenas o eco de um cérebro que para,

mas um raio de algo maior, sem tempo ou elemento,

que se move na imensidão e no abismo se repara.

Se a matéria colapsa e regressa ao pó original,

fica a dúvida acesa na mente que questiona e sente:

não será a morte apenas a dissolução do véu individual,

o regresso da gota ao oceano que sempre esteve presente?

Que tudo colapse, pois, porque essa é a grande ordem;

mas que não se cale a intuição primeira e derradeira:

não somos observadores à parte do universo que nos consome,

somos o próprio universo a tomar consciência da sua vida inteira.



domingo, 19 de julho de 2026

O meu Mundo

 

No meu mundo, o tempo é um rio sem cansaço,

Que corre veloz, esculpindo o que somos,

As pessoas que cruzam o nosso espaço

Deixam marcas profundas nos dias que fomos.

 

Este mundo molda-nos, quebra e transforma,

 Abre portas para o desconhecido e o novo,

Desfaz a rotina, altera a nossa forma,

No meio do caos, da cidade e do povo.

 

Buscamos, no fim, ser apenas nós próprios,

Despir as amarras que a estrada nos deu,

Mas perco-me às vezes em rumos impróprios,

 A tentar decifrar o que o tempo escondeu.

 

E fica a pergunta que ecoa no vento,

Enquanto o destino se cumpre e desaba:

Será que encontramos o nosso alento,

E nos encontramos... quando a estrada termina?

 

domingo, 12 de julho de 2026

O Plano Nacional de Exportação do Século XXI- Porque os jovens portugueses emigram?

 

Temos de ser honestos: Portugal tem, finalmente, um produto de exportação com selo dede excelência global. Já não são os têxteis, nem a cortiça, nem o calçado de luxo. A nossa maior e mais refinada indústria transformadora é a produção de cérebros altamente qualificados.

Pegamos num jovem fresco, investimos duas décadas a subsidiá-lo com propinas, cuidados de saúde, bibliotecas e os melhores mestrados e doutoramentos. Quando a peça está devidamente polida, afinada e a falar três línguas, a nossa economia — com a sua generosidade caraterística — faz o favor de a embrulhar num laço de papel pardo e entregá-la, a custo zero, à Alemanha, à Holanda ou ao Reino Unido. É a nossa versão do comércio justo: nós ficamos com a conta do restaurante e o resto da Europa come a sobremesa.

Tome-se o exemplo do João.

O João é um jovem portador daquela doença rara e altamente perigosa chamada resiliência. Mestre em Engenharia de Software, o João cometeu o erro crasso de querer ficar em Portugal. Sonhava pagar impostos, alugar um T0 sem mofo e, quem sabe num delírio de ostentação, comprar fruta da época na mesma semana em que pagava o passe navegante.

Nos primeiros três anos de carreira, o João foi devidamente introduzido ao "dinamismo" do mercado nacional:

  • Ano 1: Estágio profissional IEFP. Função: "Criador de Futuro". Salário: o equivalente a três jantares de sushi e uma palmadinha nas costas.
  • Ano 2: Falso recibo verde numa consultora de prestígio. Benefícios: um termo de responsabilidade emocional e a promessa de que "no próximo trimestre abrimos vaga no quadro".
  • Ano 3: Contrato sem termo. O Santo Graal! Vencimento: 1.100€ brutos. Líquidos, dava exatamente para pagar a renda de um quarto na periferia e uma subscrição da Netflix para esquecer a realidade.

Quando o João tentou argumentar com o seu diretor de recursos humanos sobre o desfasamento entre o seu salário e a inflação, ouviu a célebre pérola do patronato moderno: «Sabes que a nossa competitividade assenta nos custos de estrutura. Portugal tem de ser competitivo!» Tradução: a nossa economia é um motor topo de gama que só funciona a combustível de canteiro de obras. Se aumentamos os salários para níveis europeus, partimos a máquina.

Perante o êxodo diário de Joões, os nossos decisores políticos desdobram-se em visões estratégicas. Lançam-se "medidas paliativas" com nomes em inglês, devidamente apresentadas em slides coloridos, que oferecem aos jovens devoluções de propinas a prestações de 20 euros por mês — valor que, como todos sabem, resolve imediatamente o problema da habitação em Lisboa.

E quando a escassez de técnicos e engenheiros começa a apertar, a solução mágica surge no horizonte: importar mão de obra de países ainda mais desesperados. Aprofundar as causas do problema? Reformar a produtividade, a fiscalidade e o valor acrescentado? Nem pensar. Isso exigiria pensar a mais de quatro anos e a próxima campanha eleitoral já começou. Para quê pagar bem a um qualificado se podemos nivelar tudo por baixo e fingir que o modelo económico funciona?

Na semana passada, a resiliência do João finalmente esmoreceu. A humidade das paredes do quarto e o recibo da luz venceram-no.

Amanhã apanha o voo para Amsterdão. Vai fazer exatamente o mesmo trabalho que fazia na Penha de França, mas com um pequeno detalhe: o salário multiplica por quatro, o contrato é de verdade e a empresa não acha que lhe está a fazer um favor por pagá-lo a horas.

Em Lisboa, no aeroporto, os governantes poderão em breve colocar uma placa: «Obrigado por ter estudado connosco. Boa viagem e não se esqueça de enviar remessas.» Afinal de contas, a justiça social à portuguesa é isto mesmo: garante-se que ninguém ganha mais do que a média, até que a própria média decida apanhar o avião.

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

O Atleta, o Espelho e o Tempo

 

O Tiago não nasceu em berço de ouro; nasceu num berço de esforço. De origens humildes, percebeu cedo que o talento sem trabalho é apenas uma promessa esquecida. Por isso, casou o seu talento com uma disciplina militar, a resiliência com o método, e a sua evolução foi inevitável.

Primeiro, veio a admiração local. Depois, a nacional. Em pouco tempo, o Tiago tornou-se a referência. Era o exemplo vivo que os treinadores esfregavam na cara dos atletas mais novos: "Vejam o Tiago! Sem desculpas, só trabalho!". Ficou rico, colecionou patrocínios e começou a perseguir recordes como quem coleciona carimbos no passaporte. Nas entrevistas, fazia questão de evocar as suas origens humildes, com uma lágrima no canto do olho e uma câmara de alta definição a captar o momento perfeito.

Contudo, a fama é um tempero perigoso. Quanto mais o Tiago comia dela, mais fome tinha.

Com o passar dos anos, a sua autoestima sofreu uma mutação: deixou de ser confiança para se tornar uma espécie de religião onde ele era o único deus. O mundo, para ele, já não era uma arena, mas sim o seu quintal. Os colegas de equipa deixaram de ser companheiros para passarem a ser meros figurantes — peões cujo único propósito tático era servi-lo, assisti-lo e garantir que ele quebrasse mais um recorde. Afinal, pensava ele, o público veio ver o artista, não o cenário.

Mas a biologia tem uma ironia cruel e um sentido de humor imbatível. Ela não lê a imprensa, não quer saber dos seguidores e não se impressiona com contas bancárias.

O tempo passou. Os trinta e muitos anos bateram à porta, e o corpo do Tiago — aquele templo irrefutável — começou a emitir fumo. Um joelho rangia, a aceleração já não era a mesma, os reflexos atrasavam-se milissegundos fatais. No entanto, se o corpo quebrava, a sua autoestima mantinha-se intocável, quase delirante. O Tiago recusava-se a aceitar que até o talento inato tem data de validade quando o motor avaria.

A tragédia (ou a comédia, dependendo de quem assistia) instalou-se quando ele insistiu em jogar como se tivesse vinte anos. Culpava o relvado, o vento, a tática do treinador e, acima de tudo, os colegas de equipa que "já não tinham o nível dele". Nas conferências de imprensa, o jovem humilde de outrora dava lugar a um homem amargurado que falava de si próprio na terceira pessoa.

Progressivamente, a magia desfez-se. A admiração do público deu lugar ao embaraço. Aqueles mesmos jovens que outrora colavam posters do Tiago no quarto olhavam agora para a televisão com uma ponta de pena e outra de perplexidade.

A pergunta ecoava nas bancadas e nas redes sociais: como podia alguém ter sido tão grande, quando a sua própria fama o cegou ao ponto de o diminuir?

A ironia final da vida do Tiago foi esta: na sua busca obsessiva por ser imortal e não deixar o topo, acabou por insistir tanto em ser gigante que se tornou minúsculo aos olhos de todos. Ficou preso ao espelho — o único lugar onde continuava a ser o rei do mundo.



O Caminho do Infinito

Entre o tudo e o nada, escolho caminhar, Pois o importante da vida é saber sentir, Viver com emoção, aprender a recomeçar, E, na inc...