Temos de ser honestos: Portugal tem, finalmente, um produto de
exportação com selo dede
excelência global. Já não são os têxteis, nem a cortiça, nem o calçado de luxo.
A nossa maior e mais refinada indústria transformadora é a produção de
cérebros altamente qualificados.
Pegamos
num jovem fresco, investimos duas décadas a subsidiá-lo com propinas, cuidados
de saúde, bibliotecas e os melhores mestrados e doutoramentos. Quando a peça
está devidamente polida, afinada e a falar três línguas, a nossa economia — com
a sua generosidade caraterística — faz o favor de a embrulhar num laço de papel
pardo e entregá-la, a custo zero, à Alemanha, à Holanda ou ao Reino Unido. É a
nossa versão do comércio justo: nós ficamos com a conta do restaurante e o
resto da Europa come a sobremesa.
Tome-se
o exemplo do João.
O
João é um jovem portador daquela doença rara e altamente perigosa chamada resiliência.
Mestre em Engenharia de Software, o João cometeu o erro crasso de querer ficar
em Portugal. Sonhava pagar impostos, alugar um T0 sem mofo e, quem sabe num
delírio de ostentação, comprar fruta da época na mesma semana em que pagava o
passe navegante.
Nos
primeiros três anos de carreira, o João foi devidamente introduzido ao
"dinamismo" do mercado nacional:
- Ano
1: Estágio
profissional IEFP. Função: "Criador de Futuro". Salário: o
equivalente a três jantares de sushi e uma palmadinha nas costas.
- Ano
2: Falso recibo
verde numa consultora de prestígio. Benefícios: um termo de
responsabilidade emocional e a promessa de que "no próximo trimestre
abrimos vaga no quadro".
- Ano
3: Contrato sem
termo. O Santo Graal! Vencimento: 1.100€ brutos. Líquidos, dava exatamente
para pagar a renda de um quarto na periferia e uma subscrição da Netflix
para esquecer a realidade.
Quando
o João tentou argumentar com o seu diretor de recursos humanos sobre o
desfasamento entre o seu salário e a inflação, ouviu a célebre pérola do
patronato moderno: «Sabes que a nossa competitividade assenta nos custos de
estrutura. Portugal tem de ser competitivo!» Tradução: a nossa economia é
um motor topo de gama que só funciona a combustível de canteiro de obras. Se
aumentamos os salários para níveis europeus, partimos a máquina.
Perante
o êxodo diário de Joões, os nossos decisores políticos desdobram-se em visões
estratégicas. Lançam-se "medidas paliativas" com nomes em inglês,
devidamente apresentadas em slides coloridos, que oferecem aos jovens
devoluções de propinas a prestações de 20 euros por mês — valor que, como todos
sabem, resolve imediatamente o problema da habitação em Lisboa.
E
quando a escassez de técnicos e engenheiros começa a apertar, a solução mágica
surge no horizonte: importar mão de obra de países ainda mais desesperados.
Aprofundar as causas do problema? Reformar a produtividade, a fiscalidade e o
valor acrescentado? Nem pensar. Isso exigiria pensar a mais de quatro anos e a
próxima campanha eleitoral já começou. Para quê pagar bem a um qualificado se
podemos nivelar tudo por baixo e fingir que o modelo económico funciona?
Na
semana passada, a resiliência do João finalmente esmoreceu. A humidade das
paredes do quarto e o recibo da luz venceram-no.
Amanhã
apanha o voo para Amsterdão. Vai fazer exatamente o mesmo trabalho que fazia na
Penha de França, mas com um pequeno detalhe: o salário multiplica por quatro, o
contrato é de verdade e a empresa não acha que lhe está a fazer um favor por
pagá-lo a horas.
Em
Lisboa, no aeroporto, os governantes poderão em breve colocar uma placa: «Obrigado
por ter estudado connosco. Boa viagem e não se esqueça de enviar remessas.»
Afinal de contas, a justiça social à portuguesa é isto mesmo: garante-se que
ninguém ganha mais do que a média, até que a própria média decida apanhar o
avião.
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