domingo, 12 de julho de 2026

O Plano Nacional de Exportação do Século XXI

 

Temos de ser honestos: Portugal tem, finalmente, um produto de exportação com selo dede excelência global. Já não são os têxteis, nem a cortiça, nem o calçado de luxo. A nossa maior e mais refinada indústria transformadora é a produção de cérebros altamente qualificados.

Pegamos num jovem fresco, investimos duas décadas a subsidiá-lo com propinas, cuidados de saúde, bibliotecas e os melhores mestrados e doutoramentos. Quando a peça está devidamente polida, afinada e a falar três línguas, a nossa economia — com a sua generosidade caraterística — faz o favor de a embrulhar num laço de papel pardo e entregá-la, a custo zero, à Alemanha, à Holanda ou ao Reino Unido. É a nossa versão do comércio justo: nós ficamos com a conta do restaurante e o resto da Europa come a sobremesa.

Tome-se o exemplo do João.

O João é um jovem portador daquela doença rara e altamente perigosa chamada resiliência. Mestre em Engenharia de Software, o João cometeu o erro crasso de querer ficar em Portugal. Sonhava pagar impostos, alugar um T0 sem mofo e, quem sabe num delírio de ostentação, comprar fruta da época na mesma semana em que pagava o passe navegante.

Nos primeiros três anos de carreira, o João foi devidamente introduzido ao "dinamismo" do mercado nacional:

  • Ano 1: Estágio profissional IEFP. Função: "Criador de Futuro". Salário: o equivalente a três jantares de sushi e uma palmadinha nas costas.
  • Ano 2: Falso recibo verde numa consultora de prestígio. Benefícios: um termo de responsabilidade emocional e a promessa de que "no próximo trimestre abrimos vaga no quadro".
  • Ano 3: Contrato sem termo. O Santo Graal! Vencimento: 1.100€ brutos. Líquidos, dava exatamente para pagar a renda de um quarto na periferia e uma subscrição da Netflix para esquecer a realidade.

Quando o João tentou argumentar com o seu diretor de recursos humanos sobre o desfasamento entre o seu salário e a inflação, ouviu a célebre pérola do patronato moderno: «Sabes que a nossa competitividade assenta nos custos de estrutura. Portugal tem de ser competitivo!» Tradução: a nossa economia é um motor topo de gama que só funciona a combustível de canteiro de obras. Se aumentamos os salários para níveis europeus, partimos a máquina.

Perante o êxodo diário de Joões, os nossos decisores políticos desdobram-se em visões estratégicas. Lançam-se "medidas paliativas" com nomes em inglês, devidamente apresentadas em slides coloridos, que oferecem aos jovens devoluções de propinas a prestações de 20 euros por mês — valor que, como todos sabem, resolve imediatamente o problema da habitação em Lisboa.

E quando a escassez de técnicos e engenheiros começa a apertar, a solução mágica surge no horizonte: importar mão de obra de países ainda mais desesperados. Aprofundar as causas do problema? Reformar a produtividade, a fiscalidade e o valor acrescentado? Nem pensar. Isso exigiria pensar a mais de quatro anos e a próxima campanha eleitoral já começou. Para quê pagar bem a um qualificado se podemos nivelar tudo por baixo e fingir que o modelo económico funciona?

Na semana passada, a resiliência do João finalmente esmoreceu. A humidade das paredes do quarto e o recibo da luz venceram-no.

Amanhã apanha o voo para Amsterdão. Vai fazer exatamente o mesmo trabalho que fazia na Penha de França, mas com um pequeno detalhe: o salário multiplica por quatro, o contrato é de verdade e a empresa não acha que lhe está a fazer um favor por pagá-lo a horas.

Em Lisboa, no aeroporto, os governantes poderão em breve colocar uma placa: «Obrigado por ter estudado connosco. Boa viagem e não se esqueça de enviar remessas.» Afinal de contas, a justiça social à portuguesa é isto mesmo: garante-se que ninguém ganha mais do que a média, até que a própria média decida apanhar o avião.

 

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