Lado a lado com a luz com que acordamos,
caminha
a sombra que fingimos não ver.
Passamos
a vida no artifício de esquecer
a
única certeza com que nascemos e crescemos.
E
no entanto, o cosmos inteiro nos ensina:
tudo
o que desabrocha traz em si o peso da curva,
a
lei implacável que nada poupa ou desvia,
o
ruído subtil da estrutura que se desfaz e curva.
A
física escreve-o em equações de desordem e calor,
a
folha seca tomba e aceita o abraço da terra,
as
estrelas esgotam-se num sopro de fulgor,
e
a vida trava com o tempo a sua mais bela guerra.
Construímos
mitos, templos e catedrais de esperança,
para
contornar a muralha que o corpo não transfigura,
mas
por que razão nos assusta o fim da dança,
se
o próprio tecido do mundo é esta frágil tessitura?
Talvez
o medo não seja o nada, mas o pressentimento
de
que a consciência não é apenas o eco de um cérebro que para,
mas
um raio de algo maior, sem tempo ou elemento,
que
se move na imensidão e no abismo se repara.
Se
a matéria colapsa e regressa ao pó original,
fica
a dúvida acesa na mente que questiona e sente:
não
será a morte apenas a dissolução do véu individual,
o
regresso da gota ao oceano que sempre esteve presente?
Que
tudo colapse, pois, porque essa é a grande ordem;
mas
que não se cale a intuição primeira e derradeira:
não
somos observadores à parte do universo que nos consome,
somos
o próprio universo a tomar consciência da sua vida inteira.
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