quinta-feira, 23 de julho de 2026

Ode ao Mistério e ao Silêncio

 

Lado a lado com a luz com que acordamos,

caminha a sombra que fingimos não ver.

Passamos a vida no artifício de esquecer

a única certeza com que nascemos e crescemos.

E no entanto, o cosmos inteiro nos ensina:

tudo o que desabrocha traz em si o peso da curva,

a lei implacável que nada poupa ou desvia,

o ruído subtil da estrutura que se desfaz e curva.

A física escreve-o em equações de desordem e calor,

a folha seca tomba e aceita o abraço da terra,

as estrelas esgotam-se num sopro de fulgor,

e a vida trava com o tempo a sua mais bela guerra.

Construímos mitos, templos e catedrais de esperança,

para contornar a muralha que o corpo não transfigura,

mas por que razão nos assusta o fim da dança,

se o próprio tecido do mundo é esta frágil tessitura?

Talvez o medo não seja o nada, mas o pressentimento

de que a consciência não é apenas o eco de um cérebro que para,

mas um raio de algo maior, sem tempo ou elemento,

que se move na imensidão e no abismo se repara.

Se a matéria colapsa e regressa ao pó original,

fica a dúvida acesa na mente que questiona e sente:

não será a morte apenas a dissolução do véu individual,

o regresso da gota ao oceano que sempre esteve presente?

Que tudo colapse, pois, porque essa é a grande ordem;

mas que não se cale a intuição primeira e derradeira:

não somos observadores à parte do universo que nos consome,

somos o próprio universo a tomar consciência da sua vida inteira.



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