Tiago passou grande parte da vida a
caminhar em direção a algum lugar.
Desde pequeno, aprendeu que era preciso
ter objetivos. Estudar para conseguir um bom emprego. Trabalhar para ganhar
dinheiro. Ganhar dinheiro para ter uma casa.
Ter uma casa para construir uma vida melhor.
E assim foi avançando.
Havia sempre alguma coisa mais à frente.
Quando terminava uma etapa, começava
imediatamente a pensar na seguinte.
Quando conseguiu o emprego que desejava,
pensou:
— Agora falta conseguir aquela promoção.
Quando conseguiu a promoção:
— Agora preciso de ganhar mais.
Quando finalmente alcançou aquilo por
que tinha trabalhado durante tantos anos, esperou sentir alguma coisa
diferente.
Esperou sentir paz.
Esperou sentir que, finalmente, tinha
chegado.
Mas essa sensação durou pouco.
Logo surgiu uma nova preocupação.
Uma nova meta.
Um novo cenário para antecipar.
Tiago começou a perceber que vivia quase
sempre no futuro.
Enquanto estava num momento, imaginava o
seguinte.
Enquanto conquistava alguma coisa,
pensava naquilo que ainda faltava.
E, sem se aperceber, começou a adiar a
própria vida.
Dizia a si próprio:
“Quando isto acontecer, vou descansar.”
“Quando tiver mais dinheiro, vou
aproveitar.”
“Quando resolver este problema, vou ser
feliz.”
“Quando chegar lá, finalmente vou poder
viver.”
Mas o “lá” nunca chegava.
Ou, quando chegava, transformava-se
rapidamente noutro lugar.
Foi então que começou a sentir uma
angústia difícil de explicar.
O corpo estava cansado.
A mente estava cansada.
E, mesmo quando nada de grave acontecia,
existia dentro dele uma inquietação constante.
Tiago começou a perceber uma coisa
dolorosa: talvez não estivesse cansado apenas do caminho.
Talvez estivesse cansado de acreditar
que a vida só começaria quando chegasse ao destino.
Um dia, depois de mais uma conquista,
sentou-se sozinho.
Tinha conseguido aquilo que, durante
anos, considerara importante.
Olhou para tudo o que tinha construído.
E perguntou a si próprio:
— Era isto que eu queria?
Não sabia responder.
Então surgiu outra pergunta:
— Ou passei tantos anos a correr que já
nem sei para onde estava a ir?
Naquele momento, Tiago percebeu que
talvez o problema não estivesse no mundo.
Não era culpa do trabalho.
Nem das pessoas.
Nem das circunstâncias.
Nem sequer das suas ambições.
O problema estava na forma como se
relacionava com tudo aquilo.
Ele transformava cada conquista numa
passagem para outra conquista.
Cada chegada tornava-se uma nova
partida.
E aquilo que deveria ser vivido
transformava-se simplesmente numa preparação para o momento seguinte.
E encontrou uma ideia que começou,
lentamente, a mudar a sua forma de olhar para a vida: o caminho não é apenas
aquilo que nos leva ao destino.
Tiago começou a experimentar algo
simples.
Sentar-se.
Respirar.
Sentir o corpo.
Ouvir os sons à sua volta.
Sem precisar de chegar a lado nenhum.
No início, parecia inútil.
A sua mente perguntava:
— Mas para quê?
— O que vou conseguir com isto?
— Qual é o objetivo?
E ele percebeu que essa era precisamente
a questão.
Talvez nem tudo tivesse de servir para
alguma coisa.
Talvez nem todos os momentos tivessem de
produzir um resultado.
Talvez respirar pudesse ser apenas
respirar.
Caminhar pudesse ser apenas caminhar.
Comer pudesse ser apenas comer.
Estar com alguém pudesse ser
simplesmente estar.
Pela primeira vez, Tiago começou a
experimentar a vida sem exigir que cada momento o levasse a algum lugar.
E percebeu algo estranho.
Quando deixou de procurar constantemente
o momento perfeito, começou a reparar no momento que já existia.
A luz da manhã.
O café quente.
O silêncio de uma sala.
O vento no rosto.
Uma conversa sem pressa.
Nada de extraordinário.
E, ainda assim, suficiente.
Tiago compreendeu então que talvez a
vida nunca tivesse sido uma linha entre “o que foi” e “o que poderia ser”.
Talvez a vida fosse aquilo que está a
acontecer agora.
Durante anos, tinha vivido entre duas
versões de si próprio: o homem que tinha sido
e o homem que esperava tornar-se.
E, nesse intervalo, esquecia-se do homem
que já era.
A partir daquele dia, não abandonou os
seus objetivos.
Continuou a trabalhar.
Continuou a sonhar.
Continuou a fazer planos.
Mas alguma coisa mudou.
Os objetivos deixaram de ser a promessa
de uma vida futura.
Passaram a fazer parte do próprio
caminho.
Tiago continuava a querer conquistar
coisas.
Mas já não precisava que cada conquista
lhe desse um sentido para existir.
Começou a compreender que chegar a algum
lugar não significa necessariamente estar completo.
E que não chegar também não significa
ter falhado.
Porque talvez não exista um ponto final
onde a vida finalmente começa.
Existe apenas este momento.
Este passo.
Esta respiração.
Este dia.
E, quando Tiago deixou de perguntar
constantemente:
“Quando é que finalmente vou chegar?”
começou a perguntar:
“Como estou a viver enquanto caminho?”
Foi aí que percebeu que o maior erro
talvez não fosse escolher o caminho errado.
Talvez fosse passar a vida inteira a
caminhar sem nunca estar verdadeiramente presente no caminho.
E, pela primeira vez, Tiago não precisou
de saber exatamente para onde ia.
Respirou.
Olhou à sua volta.
E continuou a caminhar.
Não, porque precisava de chegar.
Mas porque estava vivo.
E isso, naquele momento, era o quanto
baste.
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