Elias habitava um ecossistema de vidro, aço e linhas ortogonais. No vigésimo andar do seu apartamento em Lisboa, o silêncio não era ausência de som, mas sim o zumbido perfeito e calibrado dos sistemas de climatização e dos servidores privados. Para Elias, a tecnologia não era um meio de trabalho ou uma comodidade; era uma armadura existencial, a única pele em que se reconhecia. Vivia da tecnologia e para a tecnologia, desenhando algoritmos de otimização financeira e arquiteturas de dados onde nada ficava ao acaso.
A alma, se é que algum dia a tivera,
fora gradualmente substituída por uma busca obsessiva pela eficiência absoluta.
Na sua visão do mundo, o afeto era uma falha de código, a imprevisto era
escusado e a simplicidade era um atestado de fraqueza.
Aprendera — como quase todos na sua
esfera social — a ter vergonha do simples. Crescera e moldara-se num
ecossistema que clama por aplausos constantes, onde a existência só se valida
através do reconhecimento alheio. Para Elias, o simples não o convencia.
Ensinaram-lhe que ter pouco é, indiscutivelmente, ser pouco no mundo.
Viver sem o luxo do último dispositivo, sem o carro elétrico de alta gama ou
sem a assinatura de alfaiataria sob medida era o mesmo que aceitar viver sem
dignidade. Não ter um nome associado a um cargo de destaque era não ter futuro;
conduzir um carro barato era uma manifestação pública de falta de estatuto;
repetir um fato numa reunião decisiva era a marca indelével da insignificância.
Elias convertera-se, com fervor defensor do parecer e do ter mais. Comprara a
ideia de que o comum é um insulto e de que o grande entre os homens é o único
objetivo que justifica a travessia.
No entanto, o tempo possui uma mecânica
própria, alheia a qualquer algoritmo. O tempo não ataca com a violência de uma
tempestade; age por erosão, através de mudanças tão subtis que, quando nos
damos conta, já fomos completamente alterados.
O desconforto começou com pequenos
detalhes sem relevância aparente.
Certa tarde de outono, ao olhar pela
janela panorâmica do seu escritório, observou um homem num banco de jardim, do
outro lado da avenida. Era um funcionário da manutenção, de macacão gasto, a
comer uma sandes envolta em papel de alumínio. Não tinha um relógio inteligente
a medir-lhe os batimentos cardíacos, não consultava notificações a cada trinta
segundos, não parecia preocupado em otimizar o tempo de mastigação. Apenas
comia, olhando o movimento das folhas secas empurradas pelo vento.
Elias sentiu uma pontada súbita no
peito. Não era pena, nem desdém. Era uma irritação profunda, uma estranha
sensação de sobressalto. Como podia alguém ser tão terrivelmente comum e, ao
mesmo tempo, ostentar uma presença tão inabalável? A imagem daquela simplicidade
absoluta pareceu-lhe quase indecente, uma provocação ao seu estilo de vida
metodicamente desenhado.
Nos meses seguintes, a fenda alargou-se.
A tecnologia, que antes lhe trazia um conforto anestésico, começou a soar-lhe a
ruído. Os ecrãs de alta resolução pareciam emitir uma luz demasiado agressiva;
a assistente virtual de voz perfeitamente modulada começou a soar-lhe falsa,
como um eco num espaço vazio. Elias deu por si a notar a complexidade
desnecessária com que cercara cada segundo do seu dia. Para tomar um café,
dependia de uma máquina conectada à rede que calculava a pressão da água em bar
e a temperatura exata da extração; para dormir, precisava de um anel elétrico
que analisava as fases do sono e regulava a luminosidade do quarto.
Tudo era monumental, tudo era
dispendioso, tudo fora desenhado para demonstrar que ele não era comum. E, no
entanto, ao fim do dia, a soma de todas aquelas camadas de sofisticação
resultava num vazio gelado.
Um domingo, ao percorrer a garagem
subterrânea do prédio, parou diante do seu automóvel de luxo. Olhou para a
carroçaria impecável e lembrou-se das dívidas veladas, dos contratos de leasing
e das metas corporativas impiedosas que aceitara cumprir apenas para manter
aquele símbolo de poder à porta de casa. Percebeu a ironia trágica da sua vida:
hipotecara o seu tempo e a sua liberdade para não parecer simples, para
fugir do "comum" que a sociedade o ensinara a odiar.
O desconforto transformou-se em angústia.
Elias começou a sair à rua sem o relógio inteligente, depois sem os
auscultadores de cancelamento de ruído. Caminhava pelas ruas velhas da cidade,
longe dos edifícios espelhados com montras harmoniosas. Olhava para as pessoas
que repetiam casacos, que conversavam nos degraus das portas, que riam sem
estarem a ser julgadas.
A simplicidade, que ele sempre encarara
como uma carência de meios ou de ambição, começou a revelar-se como uma forma
silenciosa de “poder”: o poder de não precisar de demonstrar nada a ninguém.
A mudança não foi dramática. Elias não
despediu de um dia para o outro nem se isolou numa montanha. O tempo apenas
continuou o seu trabalho discreto. Desativou as notificações desnecessárias,
vendeu o carro ostentoso por um modelo funcional e discreto, e deixou de
comprar coisas cuja única função era servir de adereço para a aprovação dos
outros.
Na última noite do ano, sentado na sua
sala agora despojada do excesso de tecnologia, Elias olhou para a cidade
iluminada. Pela primeira vez em anos, não sentiu a urgência de ser visto, elogiado
ou reconhecido. Percebeu que a maior prisão em que vivera não fora construída
por códigos ou ecrãs, mas pela vergonha de ser comum como os outros na rua. E
na paz austera daquela nova simplicidade, Elias encontrou, finalmente, o sopro
de algo que há muito julgava perdido: o seu próprio ser.
Sem comentários:
Enviar um comentário