sábado, 19 de setembro de 2026

O Canto da ÚLTIMA HORA

 

A voz dela vinha atrás de mim,

Como um canto que alcança o vento,

«Não temas caminhar assim,

Pois trago a paz no teu alento.

 

Eu vi-te nascer, vi o teu peito ferido,

E a dor profunda do teu caminhar;

Não trago o teu destino derradeiro,

Mas o descanso que te há de amparar.

 

Entre o teu nascimento e o teu fim,

Não sou tua inimiga nem o teu mal;

Vi a noiva chorar ao ver-me chegar,

Vi o amor perder-se no mar caudal.

 

Eu recolho o que a flor deixou para trás,

Não sou demónio, nem venho gozar;

Mas quando o teu corpo não puder lutar,

Estarei à tua espera para te abraçar.

 

Venho serena até no meio da guerra,

Para aliviar a dor que te consome;

É esta a lei que rege a terra:

Deixo seguir quem a vida ainda consome.

 

Ouvi a tua voz em surdina a chamar,

Suplicando pelo fim da tua dor;

E aqui estou, para te desarmar,

E cobrir-te com um manto protetor.»



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