terça-feira, 23 de junho de 2026

A Evolução da Estupidez: Do Pudor à Vanguarda

Historicamente, a estupidez tinha um teto. Não porque as pessoas fossem necessariamente mais inteligentes no passado, mas porque existiam filtros sociais e institucionais. Quem não sabia, tendia a ouvir quem sabia; quem dizia um absurdo, enfrentava o peso do ridículo ou do ostracismo. Havia, como bem apontas, um certo pudor.

Nas décadas de 70 e 80, os "laivos de imbecilidade" começaram a ganhar algum espaço com a massificação da televisão, mas ainda eram vistos como a periferia do pensamento — o entretenimento pimba, o bitaite de café ou a excentricidade inofensiva.

Hoje, a pirâmide inverteu-se. Assistimos a uma inversão de valores onde:

  • O "orgulhosamente ignorante" dita as regras: O conhecimento técnico, a ciência e a ponderação são rotulados como "elitismo" ou "narrativa do sistema".
  • O populismo bacoco capturou o discurso: Discursos simplistas, respostas erradas para problemas complexos e o ataque feroz ao pensamento crítico tornaram-se a moeda de troca para o poder e para os likes.

A Indústria da Imbecilidade: Cultivada, Sustentada e Divulgada

A grande viragem da modernidade não foi o aparecimento de mais estúpidos, mas sim o facto de lhes terem dado um megafone e um modelo de negócio.

  1. O Algoritmo como Combustível: As redes sociais descobriram que a indignação, o absurdo e o choque geram mais engagement (interação) do que a verdade ou a nuance. A estupidez hoje é altamente lucrativa.
  2. O Fim da Vergonha Alheia: Antigamente, o totó da aldeia falava para quatro ou cinco na taberna e era mandado calar. Hoje, une-se em comunidades com outros milhares que partilham do mesmo delírio, validando-se mutuamente. A ignorância perdeu o medo porque encontrou uma seita.
  3. A "Vanguarda" do Absurdo: O debate público foi sequestrado por questiúnculas estéreis. Ideias perigosas ou perfeitamente idiotas são tratadas nos media com a dignidade de "opiniões alternativas", em nome de uma falsa equivalência de liberdade de expressão.

Quando o absurdo se veste de "autenticidade" e o populismo bacoco passa a ser visto como "a voz do povo", a estupidez deixa de ser uma falha de educação e passa a ser uma estratégia política.

Chegámos ao ponto distópico onde pensar cansa, duvidar é sinal de fraqueza e berrar o disparate com convicção absoluta é o novo sinónimo de coragem. O descaramento é o escudo dos ignorantes modernos: como perderam a capacidade de sentir vergonha, tornaram-se imunes à razão.

 

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