Aos vinte anos, o espelho devolvia-me a
imagem de um rapaz com o mundo inteiro a pulsar-lhe nas veias. Tinha planos
guardados em cadernos de apontamentos, rotas desenhadas em mapas que prometiam
liberdade e uma pressa bonita de quem acredita que o tempo corre à nossa
velocidade.
Tinha vinte anos e um mundo para viver Tinha planos que o tempo não quis
manter
Mas o tempo, esse mestre severo, tinha
outros desígnios. A vida não avisa quando decide cobrar a fatura da realidade.
Foi num inverno cinzento que o meu pai adoeceu gravemente e as contas da casa
da minha mãe deixaram de fechar. Quase ao mesmo tempo, o amor trouxe-me a
bênção da paternidade, numa altura em que eu próprio ainda me sentia um miúdo.
A urgência do agora engoliu o amanhã.
Olhei para a guitarra a um canto, para as candidaturas à universidade
estrangeira e para os rascunhos do livro que nunca chegaria a escrever. Fechei
a gaveta.
Mas chegou o dia em que a vida cobrou E eu guardei tudo que eu era e me
virei provedor
Não houve um momento dramático de
rutura, um dia em que eu tenha dito em voz alta: "Desisto". O
processo de esquecimento de nós próprios é mais subtil, quase silencioso. Foi
aos poucos que mudei. Era a urgência de um relatório no escritório para
garantir a promoção; eram as propinas da faculdade da minha filha que passavam
à frente daquela viagem planeada há uma década; era o cansaço extremo que
trocava uma noite de criação artística por duas horas de sono extra antes do
despertador tocar às seis da manhã.
Cada hora extraordinária que fazia na
empresa era um prego no caixão dos meus antigos desejos. Cada vez que escolhia
a segurança em vez do risco, tentava convencer-me de que estava a fazer o
correto. E estava, não estava?
Não foi de uma vez, foi aos poucos que
mudei Cada sonho que
adiei virou uma conta que paguei
Doutoraram-me na arte da
responsabilidade. Tornei-me o funcionário exemplar, o marido presente, o pai
que nunca deixou faltar nada. Olhava para o extrato bancário ao fim do mês e
sentia o orgulho amargo do dever cumprido. No entanto, sempre que o silêncio da
casa vazia me visitava, sentia uma melancolia estranha. Eu tinha trocado a
minha essência pelas minhas obrigações. Tinha vestido a armadura do sacrifício
e, com o passar dos anos, esqueci-me de como a despir.
Fui trocando o que eu queria pelo que eu
devia ser E aprendi
a chamar de amadurecer
Hoje, com os cabelos já brancos e as
mãos calejadas pela rotina, olho para trás. A família está orientada, o
trabalho deu os seus frutos económicos, mas a gaveta dos sonhos continua
fechada, e a chave... creio que a perdi algures no caminho. Convenci-me,
durante décadas, de que adiar a vida era o sinónimo de crescer. Hoje sei que
adiar os nossos sonhos raramente é uma solução; é apenas uma forma lenta de os
enterrar sob o peso do quotidiano.
Cumpro o meu papel, sou o pilar de quem
amo. Mas, às vezes, pergunto-me quem teria sido se tivesse tido a coragem de
dizer "não" ao prioritário da ocasião.
Olho para o meu percurso e não sinto
arrependimento, apenas uma imensa e pesada nostalgia. Fiz o que tinha de ser
feito. Fui o homem que os outros precisavam que eu fosse.
E agora, pergunto-lhe a si, que lê estas
linhas na pressa dos seus dias: se estivesse no meu lugar, o que teria
feito? Teria salvo os seus sonhos, ou teria salvo os
seus?
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