Quarenta anos é tempo suficiente
para que uma floresta mude de rosto, para que os rios alterem o seu curso e
para que os homens desaprendam as certezas ou os medos que exibiam aos vinte
anos.
Quando os cabelos brancos — ou a
falta deles — passam a ser a moldura do espelho, e quando a contabilidade dos
que já partiram para a grande escuridão começa a pesar na agenda, o passado
deixa de ser um lugar de passagem e torna-se um porto de abrigo.
I. O Cruzamento Inesperado
Se alguém dissesse ao Bernardo,
nos idos anos 80, que ele passaria uma tarde de primavera a partilhar memórias
com o "Engenheiro" e com o seu antigo rival de curso, ele
provavelmente abanaria a cabeça com aquela descrença silenciosa que sempre o
caracterizou. Na faculdade, o Bernardo era o oposto do barulho: um rapaz
tímido, calmo, que preferia a segurança do penúltimo banco e a observação
discreta à linha da frente. Curiosamente, já nessa altura a genética e a
postura lhe davam uma aparência de mais velho, como se carregasse uma
maturidade precoce que os outros ainda não compreendiam.
Os corredores da Universidade
dividiam-se por muros invisíveis, mas intransponíveis. Havia os que brilhavam
nas lutas académicas e havia os que, como ele, faziam o seu caminho sem
alarido. Mas Bernardo também tinha as suas próprias barreiras; jurara, na altura,
que o dia da formatura seria o ponto final em certas relações desgastantes,
marcadas por pequenos ressentimentos e distâncias intransponíveis.
Mas a vida não lê os nossos
guiões.
Quatro décadas depois, o cenário
era uma esplanada com vista para o vale. Bernardo, agora com 64 anos, calvo e
com uma presença robustecida pelos anos, olhava para os dois homens sentados à
sua frente. O tempo tinha operado uma transformação curiosa: se na juventude
ele parecia mais velho pela timidez e pela calvície precoce, hoje o tempo
tinha-o retemperado. A sua aparência e o seu carácter tinham finalmente
encontrado um equilíbrio perfeito; a antiga timidez dera lugar a uma serenidade
firme, e o seu rosto exibia agora a dignidade de quem sabe exatamente quem é.
II. O Filtro da Maturidade
"Afinal, o que nos trouxe
aqui?", perguntou Bernardo, quebrando o silêncio com a sua voz calma,
agora mais pausada e segura. "Passámos quarenta anos separados. Alguns de
nós seguiram caminhos tão distantes que mudaram de órbita. Outros... bem,
outros desapareceram na penumbra, deixando apenas a saudade e uma cadeira vazia
na nossa contabilidade emocional."
O colega do lado, que outrora
assumia o papel de líder arrogante e que agora exibia uma sabedoria muito mais
humilde, sorriu. "Talvez tenham sido as fraturas da vida, Bernardo. Quando
somos novos, achamos que o mundo se molda à nossa vontade. Depois, a vida
bate-nos. Vem a doença, vêm as perdas, vêm os projetos que falharam. O
isolamento cansa. Chega uma altura em que precisamos de olhar para quem nos
conheceu antes de termos estes fardos."
Bernardo olhou para o antigo
rival. Onde estaria aquele ressentimento que parecia tão vital e urgente há
quarenta anos? Tinha evaporado. Percebeu que carregar o peso de velhas zangas
do tempo de estudantes era um desperdício de energia. O tempo tinha tratado de
limpar o entulho.
O que era acessório ficou
depositado no fundo do poço do passado. O que prevalecia ali, naquela mesa,
eram as memórias puras. A matriz comum. O facto inegável de que,
independentemente do sucesso ou do fracasso de cada um, todos partilharam a
mesma terra húmida de outrora, as mesmas salas frias e as mesmas dúvidas de
quem começava a viver.
III. A Ode aos que Ficam e aos
que Partiram
Eles ali estavam, não porque as
suas vidas fossem iguais, mas precisamente porque eram tão diferentes que o
reencontro se tornava fascinante. As juras de "nunca mais" feitas na
juventude caíram por terra perante a necessidade mais profunda de pertença.
Descobriram que as pessoas mudam, que os rivais da juventude foram apenas
rapazes assustados, e que o Bernardo, outrora o tímido rapaz que parecia mais
velho que os outros, era hoje o pilar daquela conversa.
Brindaram. Um brinde silencioso:
- Aos que partiram cedo demais, cuja ausência
é um lembrete constante da nossa própria impermanência.
- Aos que se recolheram na escuridão, por
escolha ou por deriva da vida.
- E aos que ali estavam, sobreviventes de si
mesmos, unidos pelo respeito àquilo que foram juntos.
No final, a grande lição daqueles quarenta anos não estava nos diplomas guardados em gavetas ganhas pelo pó, mas na capacidade de sentar à mesma mesa com 64 anos de vida, olhar nos olhos de quem um dia esteve distante e reconhecer, sem palavras, que no outono da existência, só o afeto e a memória merecem ser carregados na viagem.
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