quarta-feira, 3 de junho de 2026

O Teorema do Tempo: Uma Ode aos Velhos Companheiros

 

Quarenta anos é tempo suficiente para que uma floresta mude de rosto, para que os rios alterem o seu curso e para que os homens desaprendam as certezas ou os medos que exibiam aos vinte anos.

Quando os cabelos brancos — ou a falta deles — passam a ser a moldura do espelho, e quando a contabilidade dos que já partiram para a grande escuridão começa a pesar na agenda, o passado deixa de ser um lugar de passagem e torna-se um porto de abrigo.

I. O Cruzamento Inesperado

Se alguém dissesse ao Bernardo, nos idos anos 80, que ele passaria uma tarde de primavera a partilhar memórias com o "Engenheiro" e com o seu antigo rival de curso, ele provavelmente abanaria a cabeça com aquela descrença silenciosa que sempre o caracterizou. Na faculdade, o Bernardo era o oposto do barulho: um rapaz tímido, calmo, que preferia a segurança do penúltimo banco e a observação discreta à linha da frente. Curiosamente, já nessa altura a genética e a postura lhe davam uma aparência de mais velho, como se carregasse uma maturidade precoce que os outros ainda não compreendiam.

Os corredores da Universidade dividiam-se por muros invisíveis, mas intransponíveis. Havia os que brilhavam nas lutas académicas e havia os que, como ele, faziam o seu caminho sem alarido. Mas Bernardo também tinha as suas próprias barreiras; jurara, na altura, que o dia da formatura seria o ponto final em certas relações desgastantes, marcadas por pequenos ressentimentos e distâncias intransponíveis.

Mas a vida não lê os nossos guiões.

Quatro décadas depois, o cenário era uma esplanada com vista para o vale. Bernardo, agora com 64 anos, calvo e com uma presença robustecida pelos anos, olhava para os dois homens sentados à sua frente. O tempo tinha operado uma transformação curiosa: se na juventude ele parecia mais velho pela timidez e pela calvície precoce, hoje o tempo tinha-o retemperado. A sua aparência e o seu carácter tinham finalmente encontrado um equilíbrio perfeito; a antiga timidez dera lugar a uma serenidade firme, e o seu rosto exibia agora a dignidade de quem sabe exatamente quem é.

II. O Filtro da Maturidade

"Afinal, o que nos trouxe aqui?", perguntou Bernardo, quebrando o silêncio com a sua voz calma, agora mais pausada e segura. "Passámos quarenta anos separados. Alguns de nós seguiram caminhos tão distantes que mudaram de órbita. Outros... bem, outros desapareceram na penumbra, deixando apenas a saudade e uma cadeira vazia na nossa contabilidade emocional."

O colega do lado, que outrora assumia o papel de líder arrogante e que agora exibia uma sabedoria muito mais humilde, sorriu. "Talvez tenham sido as fraturas da vida, Bernardo. Quando somos novos, achamos que o mundo se molda à nossa vontade. Depois, a vida bate-nos. Vem a doença, vêm as perdas, vêm os projetos que falharam. O isolamento cansa. Chega uma altura em que precisamos de olhar para quem nos conheceu antes de termos estes fardos."

Bernardo olhou para o antigo rival. Onde estaria aquele ressentimento que parecia tão vital e urgente há quarenta anos? Tinha evaporado. Percebeu que carregar o peso de velhas zangas do tempo de estudantes era um desperdício de energia. O tempo tinha tratado de limpar o entulho.

O que era acessório ficou depositado no fundo do poço do passado. O que prevalecia ali, naquela mesa, eram as memórias puras. A matriz comum. O facto inegável de que, independentemente do sucesso ou do fracasso de cada um, todos partilharam a mesma terra húmida de outrora, as mesmas salas frias e as mesmas dúvidas de quem começava a viver.

III. A Ode aos que Ficam e aos que Partiram

Eles ali estavam, não porque as suas vidas fossem iguais, mas precisamente porque eram tão diferentes que o reencontro se tornava fascinante. As juras de "nunca mais" feitas na juventude caíram por terra perante a necessidade mais profunda de pertença. Descobriram que as pessoas mudam, que os rivais da juventude foram apenas rapazes assustados, e que o Bernardo, outrora o tímido rapaz que parecia mais velho que os outros, era hoje o pilar daquela conversa.

Brindaram. Um brinde silencioso:

  • Aos que partiram cedo demais, cuja ausência é um lembrete constante da nossa própria impermanência.
  • Aos que se recolheram na escuridão, por escolha ou por deriva da vida.
  • E aos que ali estavam, sobreviventes de si mesmos, unidos pelo respeito àquilo que foram juntos.

No final, a grande lição daqueles quarenta anos não estava nos diplomas guardados em gavetas ganhas pelo pó, mas na capacidade de sentar à mesma mesa com 64 anos de vida, olhar nos olhos de quem um dia esteve distante e reconhecer, sem palavras, que no outono da existência, só o afeto e a memória merecem ser carregados na viagem.



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