domingo, 21 de junho de 2026

O Império do Espelho

 

Vivemos na era do palco permanente. Olhamos em redor e a sociedade parece um imenso salão de espelhos, onde cada um procura sofregamente a sua melhor luz, o ângulo mais favorável, o aplauso mais sonoro. A luta de egos não é uma novidade dos nossos tempos, é uma permanência histórica, uma constante antropológica. No entanto, há nela uma trágica ironia: aquilo que devia ser o combustível para a superação pessoal e coletiva transformou-se, na maioria dos casos, numa venda que cega os seus próprios portadores.

Em teoria, o ego poderia ser uma força motriz extraordinária. O desejo de afirmação, a vaidade de querer fazer bem e o brio profissional poderiam funcionar como alavancas para a evolução. Quando bem canalizado, o ego desafia-nos a ir mais além, a criar caminhos onde só víamos muros. Mas a linha entre a ambição saudável e a miopia ególatra é ténue. Quando o ego deixa de ser um motor e passa a ser o destino, o indivíduo fecha-se na sua própria fortaleza. Cego pelo brilho da sua “importância”, deixa de ver o outro, deixa de ouvir e, fundamentalmente, deixa de aprender. Quem tudo sabe e tudo domina já não tem espaço para evoluir.

O mais fascinante — e por vezes patético — é que esta comédia humana não se encena apenas nos grandes palcos da política internacional ou nas passadeiras vermelhas do estrelato. O ego é democrático e habita as geografias mais simples do nosso quotidiano. Encontramo-lo nas salas de reuniões das empresas, nos corredores das instituições públicas, nas associações de bairro e até nos grupos de escola dos filhos.

Nas hierarquias corporativas, assistimos frequentemente a autênticas guerras de trincheiras por um título num cartão de visita ou pela proximidade física ao poder de turno. Chefias que asfixiam o talento dos subordinados por medo da sombra, diretores que preferem ver um projeto fracassar a admitir que a ideia do vizinho era melhor. É o império do "eu fiz", do "eu decidi", do "no meu tempo não era assim".

E é precisamente aqui que reside a maior escassez da nossa sociedade: a lucidez da finitude.

Reconhecer que o nosso tempo é um intervalo finito, que as nossas soluções não são eternas e que o mundo continua a girar sem nós é uma sabedoria ao alcance de muito poucos. A verdadeira liderança — e a verdadeira maturidade humana — reside na capacidade de preparar o terreno para quem vem a seguir. Perceber que os novos caminhos trazidos pelas novas gerações não invalidam o passado, antes o completam, exige uma generosidade que o ego simplesmente não consegue processar.

Suceder não é apagar; é dar continuidade ao movimento da vida com novas soluções para novos problemas. Enquanto continuarmos a confundir autoridade com infalibilidade, continuaremos presos a esta dança estéril de cadeiras brilhantes, onde muitos se sentam, mas poucos deixam uma verdadeira pegada. O ego, que queria ser eterno, acaba apenas por ser o guarda-noturno de um palácio vazio.




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