Vivemos
na era do palco permanente. Olhamos em redor e a sociedade parece um imenso
salão de espelhos, onde cada um procura sofregamente a sua melhor luz, o ângulo
mais favorável, o aplauso mais sonoro. A luta de egos não é uma novidade dos
nossos tempos, é uma permanência histórica, uma constante antropológica. No
entanto, há nela uma trágica ironia: aquilo que devia ser o combustível para a
superação pessoal e coletiva transformou-se, na maioria dos casos, numa venda
que cega os seus próprios portadores.
Em
teoria, o ego poderia ser uma força motriz extraordinária. O desejo de
afirmação, a vaidade de querer fazer bem e o brio profissional poderiam
funcionar como alavancas para a evolução. Quando bem canalizado, o ego
desafia-nos a ir mais além, a criar caminhos onde só víamos muros. Mas a linha
entre a ambição saudável e a miopia ególatra é ténue. Quando o ego deixa de ser
um motor e passa a ser o destino, o indivíduo fecha-se na sua própria
fortaleza. Cego pelo brilho da sua “importância”, deixa de ver o outro, deixa
de ouvir e, fundamentalmente, deixa de aprender. Quem tudo sabe e tudo domina
já não tem espaço para evoluir.
O
mais fascinante — e por vezes patético — é que esta comédia humana não se
encena apenas nos grandes palcos da política internacional ou nas passadeiras
vermelhas do estrelato. O ego é democrático e habita as geografias mais simples
do nosso quotidiano. Encontramo-lo nas salas de reuniões das empresas, nos
corredores das instituições públicas, nas associações de bairro e até nos
grupos de escola dos filhos.
Nas
hierarquias corporativas, assistimos frequentemente a autênticas guerras de
trincheiras por um título num cartão de visita ou pela proximidade física ao
poder de turno. Chefias que asfixiam o talento dos subordinados por medo da
sombra, diretores que preferem ver um projeto fracassar a admitir que a ideia
do vizinho era melhor. É o império do "eu fiz", do "eu
decidi", do "no meu tempo não era assim".
E
é precisamente aqui que reside a maior escassez da nossa sociedade: a lucidez
da finitude.
Reconhecer
que o nosso tempo é um intervalo finito, que as nossas soluções não são eternas
e que o mundo continua a girar sem nós é uma sabedoria ao alcance de muito
poucos. A verdadeira liderança — e a verdadeira maturidade humana — reside na
capacidade de preparar o terreno para quem vem a seguir. Perceber que os novos
caminhos trazidos pelas novas gerações não invalidam o passado, antes o
completam, exige uma generosidade que o ego simplesmente não consegue
processar.
Suceder
não é apagar; é dar continuidade ao movimento da vida com novas soluções para
novos problemas. Enquanto continuarmos a confundir autoridade com
infalibilidade, continuaremos presos a esta dança estéril de cadeiras
brilhantes, onde muitos se sentam, mas poucos deixam uma verdadeira pegada. O
ego, que queria ser eterno, acaba apenas por ser o guarda-noturno de um palácio
vazio.
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