Nas terras quentes e vibrantes de África, a rotina de Bernardo, de apenas quatro anos, estava traçada pelo ritmo do comércio dos pais. Trabalhadores afincados e sem ninguém a quem confiar o pequeno, faziam da loja o seu segundo lar. Para Bernardo, aquele espaço não era uma prisão, mas um posto de observação privilegiado. Com olhos arregalados e uma curiosidade irrequieta, o miúdo fascinava-se com o incessante vai e vem dos clientes. Rapidamente, a sua mente infantil decifrou um padrão: quase todos chegavam no mesmo autocarro barulhento e, ao fim do dia, regressavam nele. No dia seguinte, as mesmas caras conhecidas voltavam à cidade. Para Bernardo, aquele veículo colorido não era apenas transporte — era uma máquina mágica que levava as pessoas para o "mundo de onde tudo vinha".
Nesse dia, ao final da tarde, enquanto
os pais dobravam tecidos e arrumavam caixas, a tentação falou mais alto.
Discretamente, Bernardo esgueirou-se até à paragem e subiu os degraus do
autocarro. Apesar de ir completamente cheio, o rapazinho, com a agilidade dos
seus quatro anos, lá conseguiu espremer-se num banco junto à janela.
A viagem começou. O motor roncava e a
paisagem passava num borrão até que, momentos depois, o trocador se aproximou
para validar as passagens. Ao ver aquele pingo de gente sozinho, pediu-lhe o
bilhete. — Eu não tenho bilhete... — respondeu Bernardo, muito sério.
O homem soltou uma grande gargalhada que
ecoou por todo o veículo e retorquiu: — Tu vais para onde, meu rapaz?
Foi nesse preciso momento que a coragem
de Bernardo se evaporou. O peso do desconhecido caiu-lhe sobre os ombros e a
resposta veio em forma de um choro desconsolado. — Tem calma, miúdo, não te vai
acontecer nada — disse o trocador, suavizando o tom.
Do banco de trás, um passageiro
levantou-se e aproximou-se. Reconheceu imediatamente o filho dos comerciantes
da cidade. Embora não pudesse acompanhar a criança por causa do seu próprio
trabalho, informou de imediato o motorista. Sem hesitar, o condutor
prontificou-se a resolver a situação: terminaria a rota e levaria o menino em
segurança.
À medida que o sol se punha no
horizonte, o autocarro foi ficando gradualmente vazio, até que restar apenas
Bernardo, o motorista e o trocador. Cumprido o itinerário, cumpriram também a
promessa: mudaram a rota e levaram o pequeno de volta ao ponto de partida.
Na loja, o cenário era de puro
desespero. Os pais, de coração apertado e em lágrimas, procuravam pelo filho em
todo o lado. Quando viram o autocarro encostar e Bernardo descer pela mão do
motorista, o alívio superou qualquer zanga. Os agradecimentos aos dois homens
desfizeram-se em abraços emocionados.
A partir desse dia, Bernardo prometeu a
si mesmo que deixaria de se levar pela corrente irrefletida da curiosidade,
passando a escutar e a seguir escrupulosamente as recomendações daqueles que
mais sabiam deste mundo.
Por vezes, são as fugas
ingénuas das crianças que servem para resgatar os adultos do automatismo do dia
a dia, lembrando-os de que a maior riqueza que possuem nunca esteve à venda nas
prateleiras da loja.
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