terça-feira, 1 de setembro de 2026

Passageiro da Curiosidade

Nas terras quentes e vibrantes de África, a rotina de Bernardo, de apenas quatro anos, estava traçada pelo ritmo do comércio dos pais. Trabalhadores afincados e sem ninguém a quem confiar o pequeno, faziam da loja o seu segundo lar. Para Bernardo, aquele espaço não era uma prisão, mas um posto de observação privilegiado. Com olhos arregalados e uma curiosidade irrequieta, o miúdo fascinava-se com o incessante vai e vem dos clientes. Rapidamente, a sua mente infantil decifrou um padrão: quase todos chegavam no mesmo autocarro barulhento e, ao fim do dia, regressavam nele. No dia seguinte, as mesmas caras conhecidas voltavam à cidade. Para Bernardo, aquele veículo colorido não era apenas transporte — era uma máquina mágica que levava as pessoas para o "mundo de onde tudo vinha".

Nesse dia, ao final da tarde, enquanto os pais dobravam tecidos e arrumavam caixas, a tentação falou mais alto. Discretamente, Bernardo esgueirou-se até à paragem e subiu os degraus do autocarro. Apesar de ir completamente cheio, o rapazinho, com a agilidade dos seus quatro anos, lá conseguiu espremer-se num banco junto à janela.

A viagem começou. O motor roncava e a paisagem passava num borrão até que, momentos depois, o trocador se aproximou para validar as passagens. Ao ver aquele pingo de gente sozinho, pediu-lhe o bilhete. — Eu não tenho bilhete... — respondeu Bernardo, muito sério.

O homem soltou uma grande gargalhada que ecoou por todo o veículo e retorquiu: — Tu vais para onde, meu rapaz?

Foi nesse preciso momento que a coragem de Bernardo se evaporou. O peso do desconhecido caiu-lhe sobre os ombros e a resposta veio em forma de um choro desconsolado. — Tem calma, miúdo, não te vai acontecer nada — disse o trocador, suavizando o tom.

Do banco de trás, um passageiro levantou-se e aproximou-se. Reconheceu imediatamente o filho dos comerciantes da cidade. Embora não pudesse acompanhar a criança por causa do seu próprio trabalho, informou de imediato o motorista. Sem hesitar, o condutor prontificou-se a resolver a situação: terminaria a rota e levaria o menino em segurança.

À medida que o sol se punha no horizonte, o autocarro foi ficando gradualmente vazio, até que restar apenas Bernardo, o motorista e o trocador. Cumprido o itinerário, cumpriram também a promessa: mudaram a rota e levaram o pequeno de volta ao ponto de partida.

Na loja, o cenário era de puro desespero. Os pais, de coração apertado e em lágrimas, procuravam pelo filho em todo o lado. Quando viram o autocarro encostar e Bernardo descer pela mão do motorista, o alívio superou qualquer zanga. Os agradecimentos aos dois homens desfizeram-se em abraços emocionados.

A partir desse dia, Bernardo prometeu a si mesmo que deixaria de se levar pela corrente irrefletida da curiosidade, passando a escutar e a seguir escrupulosamente as recomendações daqueles que mais sabiam deste mundo.

 Por vezes, são as fugas ingénuas das crianças que servem para resgatar os adultos do automatismo do dia a dia, lembrando-os de que a maior riqueza que possuem nunca esteve à venda nas prateleiras da loja.

previewer

Sem comentários:

Enviar um comentário

O Caminho do Infinito

Entre o tudo e o nada, escolho caminhar, Pois o importante da vida é saber sentir, Viver com emoção, aprender a recomeçar, E, na inc...