terça-feira, 1 de setembro de 2026

A Poeira dos Nossos Passos

Como Tempo Transforma a Nossa Vida  e as Nossas Memórias

O vento que sopra no cimo da aldeia traz o mesmo cheiro a terra molhada que trazia há cinquenta anos, mas a mão que agora afasta os ramos da urze já carrega a pele fina e marcada pelas décadas. Uma geração vai, outra geração vem, mas a Terra continua firme no mesmo lugar, indiferente à pressa dos homens.

Olhamos para uma criança a correr pelo adro da igreja e, num piscar de olhos, o corpo cresce, a voz muda e ela já é adulta. No espelho, o cabelo que era preto como a noite ganha, quase sem avisar, os primeiros fios brancos.

Ao passar em frente à antiga escola da infância, a memória desperta com um aperto no peito. O eco dos gritos no recreio, os rituais das estações e as brincadeiras na poeira regressam por um instante. Lembramo-nos dos professores — alguns imortalizados por um gesto simples de carinho, outros gravados pela amargura de uma injustiça injustificada. Quantos por ali passaram? A estrutura de pedra ficou, imóvel, ainda que talvez já nem cumpra a missão de ensinar. Os amigos de outrora espalharam-se pelo mundo: alguns casaram e assentaram arraiais longe dali, outros simplesmente desapareceram na bruma dos dias, e outros, com dor, deixaram definitivamente de fazer parte deste mundo.

Ao longo das décadas, o rosto da terra transformou-se. Muros ergueram-se para separar o que antes era livre, e as vontades das gentes mudaram. Houve tempo para ver o comércio florescer e tempo para testemunhar as portas a fecharem-se para sempre. A  loja onde se alugavam cassetes e se compravam discos de vinil fechou há muitos anos, deixando na montra apenas o pó do esquecimento. No poder local, viram-se passar presidentes de junta e presidentes da câmara; até os mais populares e ruidosos acabaram por cair no silêncio do tempo. Terrenos outrora verdejantes deram lugar a fundações de casas novas, enquanto as ruínas de habitações antigas serviram apenas de aterro para o progresso.

Com os anos, ganha-se a lucidez amarga de que quase tudo é uma ilusão. Vimos gente cheia de planos grandiosos ver os seus sonhos esboroarem-se como castelos de areia; vimos outros renascerem das cinzas quando já nada se esperava. Passamos a vida a correr atrás do vento, a tentar desesperadamente agarrar o tempo, mas ele escapa-se sempre, implacável, como areia fina entre os dedos.

As casas ficam. As ruas continuam aí, a ligar o topo à praça. Mas os nossos passos vão sumindo devagar na poeira dos caminhos. A vida, afinal, é só um sopro melancólico na imensidão do universo — e, quando o ruído finalmente sossega, a única coisa que nos resta é a mansidão.

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