Como Tempo Transforma a Nossa Vida e as Nossas Memórias
O vento que sopra no cimo da aldeia traz
o mesmo cheiro a terra molhada que trazia há cinquenta anos, mas a mão que
agora afasta os ramos da urze já carrega a pele fina e marcada pelas décadas.
Uma geração vai, outra geração vem, mas a Terra continua firme no mesmo lugar,
indiferente à pressa dos homens.
Olhamos para uma criança a correr pelo
adro da igreja e, num piscar de olhos, o corpo cresce, a voz muda e ela já é
adulta. No espelho, o cabelo que era preto como a noite ganha, quase sem
avisar, os primeiros fios brancos.
Ao passar em frente à antiga escola da
infância, a memória desperta com um aperto no peito. O eco dos gritos no
recreio, os rituais das estações e as brincadeiras na poeira regressam por um
instante. Lembramo-nos dos professores — alguns imortalizados por um gesto
simples de carinho, outros gravados pela amargura de uma injustiça
injustificada. Quantos por ali passaram? A estrutura de pedra ficou, imóvel,
ainda que talvez já nem cumpra a missão de ensinar. Os amigos de outrora
espalharam-se pelo mundo: alguns casaram e assentaram arraiais longe dali,
outros simplesmente desapareceram na bruma dos dias, e outros, com dor,
deixaram definitivamente de fazer parte deste mundo.
Ao longo das décadas, o rosto da terra
transformou-se. Muros ergueram-se para separar o que antes era livre, e as
vontades das gentes mudaram. Houve tempo para ver o comércio florescer e tempo
para testemunhar as portas a fecharem-se para sempre. A loja onde se alugavam cassetes e se compravam
discos de vinil fechou há muitos anos, deixando na montra apenas o pó do
esquecimento. No poder local, viram-se passar presidentes de junta e
presidentes da câmara; até os mais populares e ruidosos acabaram por cair no
silêncio do tempo. Terrenos outrora verdejantes deram lugar a fundações de
casas novas, enquanto as ruínas de habitações antigas serviram apenas de aterro
para o progresso.
Com os anos, ganha-se a lucidez amarga
de que quase tudo é uma ilusão. Vimos gente cheia de planos grandiosos ver os
seus sonhos esboroarem-se como castelos de areia; vimos outros renascerem das
cinzas quando já nada se esperava. Passamos a vida a correr atrás do vento, a
tentar desesperadamente agarrar o tempo, mas ele escapa-se sempre, implacável,
como areia fina entre os dedos.
As casas ficam. As ruas continuam aí, a
ligar o topo à praça. Mas os nossos passos vão sumindo devagar na poeira dos
caminhos. A vida, afinal, é só um sopro melancólico na imensidão do universo —
e, quando o ruído finalmente sossega, a única coisa que nos resta é a mansidão.
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