Há uma sabedoria silenciosa na
superfície que já não engana. O vidro, que outrora apenas devolvia o reflexo
límpido de um rosto em infância, tornou-se o guardião de um tempo que não
recua. É na privacidade do quotidiano que a metamorfose revela a sua verdadeira
escala: a mesma lâmina de espelho, o mesmo olhar de fundo, mas agora habitado
por uma gravidade acumulada, feita de dias que passaram sem pedir licença.
As marcas no rosto não são defeitos da
pele; são o relevo do caminho. Cada linha desenhada ao longo dos anos é a
caligrafia de histórias, escolhas, perdas e celebrações que a criança de
outrora jamais saberia traduzir. A mudança raramente acontece num momento
ruidoso. Instala-se em surdina, nas sombras que o tempo acrescenta e nos lapsos
subtis em que a memória vacila, até ao dia em que a imagem devolvida parece
pertencer a um estranho familiar.
Há uma beleza solene em aceitar este
desencontro com quem fomos. Ser conduzido pela vida até chegar a um ponto onde
não há regresso ao início, mas sim o convite contínuo para o desconhecido.
Bater devagar a novas portas — com a prudência de quem já conhece o peso dos
dias, mas ainda guarda no peito a inquietação e o sonho da infância — é a maior
prova de vida. É dessa travessia interior, feita de sobriedade e esperança, que
nasce o verso que se segue.
Honra seja dada ao espelho da casa de
banho,
firme testemunha de tudo o que fui e
sou,
ao rosto que guarda o passado e o
presente,
no mesmo olhar onde o tempo repousou.
Louvem-se as marcas, sulcos desenhados
na pele,
e os lapsos subtis que a memória vai
deixando,
pois a criança que ficou lá atrás na
infância
mora ainda no adulto que se vai
habituando.
Há coragem em reconhecer a passagem dos
dias,
em olhar o reflexo sem medo do que
mudou,
mas maior é a força para acolher o que
aí vem,
honrando a estrada que o destino traçou.
Pois no fim do caminho o que realmente
importa
não é travar o tempo ou decifrar cada
razão,
é abraçar o futuro com o encanto de
outrora,
como a criança que ainda sonha e busca a
vida, de coração.
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