segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O Espelho do Tempo: Retrato do Aprendiz de Sonhos


Há uma sabedoria silenciosa na superfície que já não engana. O vidro, que outrora apenas devolvia o reflexo límpido de um rosto em infância, tornou-se o guardião de um tempo que não recua. É na privacidade do quotidiano que a metamorfose revela a sua verdadeira escala: a mesma lâmina de espelho, o mesmo olhar de fundo, mas agora habitado por uma gravidade acumulada, feita de dias que passaram sem pedir licença.

As marcas no rosto não são defeitos da pele; são o relevo do caminho. Cada linha desenhada ao longo dos anos é a caligrafia de histórias, escolhas, perdas e celebrações que a criança de outrora jamais saberia traduzir. A mudança raramente acontece num momento ruidoso. Instala-se em surdina, nas sombras que o tempo acrescenta e nos lapsos subtis em que a memória vacila, até ao dia em que a imagem devolvida parece pertencer a um estranho familiar.

Há uma beleza solene em aceitar este desencontro com quem fomos. Ser conduzido pela vida até chegar a um ponto onde não há regresso ao início, mas sim o convite contínuo para o desconhecido. Bater devagar a novas portas — com a prudência de quem já conhece o peso dos dias, mas ainda guarda no peito a inquietação e o sonho da infância — é a maior prova de vida. É dessa travessia interior, feita de sobriedade e esperança, que nasce o verso que se segue.

Honra seja dada ao espelho da casa de banho,

firme testemunha de tudo o que fui e sou,

ao rosto que guarda o passado e o presente,

no mesmo olhar onde o tempo repousou.

Louvem-se as marcas, sulcos desenhados na pele,

e os lapsos subtis que a memória vai deixando,

pois a criança que ficou lá atrás na infância

mora ainda no adulto que se vai habituando.

Há coragem em reconhecer a passagem dos dias,

em olhar o reflexo sem medo do que mudou,

mas maior é a força para acolher o que aí vem,

honrando a estrada que o destino traçou.

Pois no fim do caminho o que realmente importa

não é travar o tempo ou decifrar cada razão,

é abraçar o futuro com o encanto de outrora,

como a criança que ainda sonha e busca a vida, de coração.

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