quarta-feira, 8 de julho de 2026

O Atleta, o Espelho e o Tempo

 

O Tiago não nasceu em berço de ouro; nasceu num berço de esforço. De origens humildes, percebeu cedo que o talento sem trabalho é apenas uma promessa esquecida. Por isso, casou o seu talento com uma disciplina militar, a resiliência com o método, e a sua evolução foi inevitável.

Primeiro, veio a admiração local. Depois, a nacional. Em pouco tempo, o Tiago tornou-se a referência. Era o exemplo vivo que os treinadores esfregavam na cara dos atletas mais novos: "Vejam o Tiago! Sem desculpas, só trabalho!". Ficou rico, colecionou patrocínios e começou a perseguir recordes como quem coleciona carimbos no passaporte. Nas entrevistas, fazia questão de evocar as suas origens humildes, com uma lágrima no canto do olho e uma câmara de alta definição a captar o momento perfeito.

Contudo, a fama é um tempero perigoso. Quanto mais o Tiago comia dela, mais fome tinha.

Com o passar dos anos, a sua autoestima sofreu uma mutação: deixou de ser confiança para se tornar uma espécie de religião onde ele era o único deus. O mundo, para ele, já não era uma arena, mas sim o seu quintal. Os colegas de equipa deixaram de ser companheiros para passarem a ser meros figurantes — peões cujo único propósito tático era servi-lo, assisti-lo e garantir que ele quebrasse mais um recorde. Afinal, pensava ele, o público veio ver o artista, não o cenário.

Mas a biologia tem uma ironia cruel e um sentido de humor imbatível. Ela não lê a imprensa, não quer saber dos seguidores e não se impressiona com contas bancárias.

O tempo passou. Os trinta e muitos anos bateram à porta, e o corpo do Tiago — aquele templo irrefutável — começou a emitir fumo. Um joelho rangia, a aceleração já não era a mesma, os reflexos atrasavam-se milissegundos fatais. No entanto, se o corpo quebrava, a sua autoestima mantinha-se intocável, quase delirante. O Tiago recusava-se a aceitar que até o talento inato tem data de validade quando o motor avaria.

A tragédia (ou a comédia, dependendo de quem assistia) instalou-se quando ele insistiu em jogar como se tivesse vinte anos. Culpava o relvado, o vento, a tática do treinador e, acima de tudo, os colegas de equipa que "já não tinham o nível dele". Nas conferências de imprensa, o jovem humilde de outrora dava lugar a um homem amargurado que falava de si próprio na terceira pessoa.

Progressivamente, a magia desfez-se. A admiração do público deu lugar ao embaraço. Aqueles mesmos jovens que outrora colavam posters do Tiago no quarto olhavam agora para a televisão com uma ponta de pena e outra de perplexidade.

A pergunta ecoava nas bancadas e nas redes sociais: como podia alguém ter sido tão grande, quando a sua própria fama o cegou ao ponto de o diminuir?

A ironia final da vida do Tiago foi esta: na sua busca obsessiva por ser imortal e não deixar o topo, acabou por insistir tanto em ser gigante que se tornou minúsculo aos olhos de todos. Ficou preso ao espelho — o único lugar onde continuava a ser o rei do mundo.



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