O Tiago não nasceu em berço de ouro; nasceu num berço de
esforço. De origens humildes, percebeu cedo que o talento sem trabalho é apenas
uma promessa esquecida. Por isso, casou o seu talento com uma disciplina
militar, a resiliência com o método, e a sua evolução foi inevitável.
Primeiro, veio a admiração local. Depois, a nacional. Em
pouco tempo, o Tiago tornou-se a referência. Era o exemplo vivo que os
treinadores esfregavam na cara dos atletas mais novos: "Vejam o Tiago!
Sem desculpas, só trabalho!". Ficou rico, colecionou patrocínios e
começou a perseguir recordes como quem coleciona carimbos no passaporte. Nas
entrevistas, fazia questão de evocar as suas origens humildes, com uma lágrima
no canto do olho e uma câmara de alta definição a captar o momento perfeito.
Contudo, a fama é um tempero perigoso. Quanto mais o Tiago
comia dela, mais fome tinha.
Com o passar dos anos, a sua autoestima sofreu uma mutação:
deixou de ser confiança para se tornar uma espécie de religião onde ele era o
único deus. O mundo, para ele, já não era uma arena, mas sim o seu quintal. Os
colegas de equipa deixaram de ser companheiros para passarem a ser meros
figurantes — peões cujo único propósito tático era servi-lo, assisti-lo e
garantir que ele quebrasse mais um recorde. Afinal, pensava ele, o público veio
ver o artista, não o cenário.
Mas a biologia tem uma ironia cruel e um sentido de humor
imbatível. Ela não lê a imprensa, não quer saber dos seguidores e não se
impressiona com contas bancárias.
O tempo passou. Os trinta e muitos anos bateram à porta, e o
corpo do Tiago — aquele templo irrefutável — começou a emitir fumo. Um joelho
rangia, a aceleração já não era a mesma, os reflexos atrasavam-se milissegundos
fatais. No entanto, se o corpo quebrava, a sua autoestima mantinha-se
intocável, quase delirante. O Tiago recusava-se a aceitar que até o
talento inato tem data de validade quando o motor avaria.
A tragédia (ou a comédia, dependendo de quem assistia)
instalou-se quando ele insistiu em jogar como se tivesse vinte anos. Culpava o
relvado, o vento, a tática do treinador e, acima de tudo, os colegas de equipa
que "já não tinham o nível dele". Nas conferências de imprensa, o
jovem humilde de outrora dava lugar a um homem amargurado que falava de si
próprio na terceira pessoa.
Progressivamente, a magia desfez-se. A admiração do público
deu lugar ao embaraço. Aqueles mesmos jovens que outrora colavam posters
do Tiago no quarto olhavam agora para a televisão com uma ponta de pena e outra
de perplexidade.
A pergunta ecoava nas bancadas e nas redes sociais: como
podia alguém ter sido tão grande, quando a sua própria fama o cegou ao ponto de
o diminuir?
A ironia final da vida do Tiago foi esta: na sua busca
obsessiva por ser imortal e não deixar o topo, acabou por insistir tanto em ser
gigante que se tornou minúsculo aos olhos de todos. Ficou preso ao espelho — o
único lugar onde continuava a ser o rei do mundo.
Muito atual, faz lembrar alguém.
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