quinta-feira, 7 de maio de 2026

Vela da Vida

 

Nas colinas onde o vento costuma sussurrar segredos antigos, vivia um velho artesão chamado Simão. Ele não trabalhava com ouro nem com pedra, mas sim com cera e pavio. Na sua oficina, cada vela que moldava tinha um propósito: não serviam apenas para iluminar quartos escuros, mas para espelhar a alma de quem as acendia.

Simão explicava sempre a mesma verdade aos jovens da aldeia: "A vida não é o suporte de madeira, nem a cor da cera. A vida é a Vela da Vida — aquele ponto exato onde o fogo encontra o pavio."

Certa noite, o seu neto, inquieto com a rapidez dos dias, perguntou-lhe por que razão as velas tinham de ser tão curtas. O velho, com as mãos marcadas pelo tempo, acendeu uma pequena chama e colocou-a entre os dois.

"Repara," disse ele, "a luz arde agora. Ela consome a cera que nunca mais voltará a ser sólida. O passado é a cera derretida que escorreu; o futuro é a cera fria que ainda não sentiu o calor."

Simão apontou para o fio preto que se retorcia no centro do fogo. "Este pavio é a nossa história. Momentos de alegria intensa fazem a chama brilhar mais alto; momentos de luto e tristeza fazem-na oscilar e soltar fumo negro. Mas tudo isso — o brilho e o fumo — é o que dá sentido à luz."

Enquanto conversavam, uma corrente de ar fez a chama dançar violentamente. O neto assustou-se, tentando protegê-la com as mãos. Simão sorriu, calmo.

"Não tenhas medo da brevidade," confortou-o. "Se a vela fosse infinita, a sua luz seria banal. É precisamente porque ela se apaga que cada segundo de claridade é um tesouro. Vive cada momento como se fosse o único, porque, na verdade, ele é o único. A sucessão de instantes é o que compõe o teu rastro no mundo." A música do silêncio da noite parecia enfatizar a mortalidade de todas as coisas. A vela de Simão estava a chegar ao fim.

Quando a chama finalmente vacilou pela última vez, antes de se transformar num fio de fumo azulado que subia em direção às estrelas, Simão fechou os olhos. A oficina ficou na penumbra, mas a lição permanecia acesa na mente do rapaz.

Epílogo: O Canto da Luz

A vida é este sopro,

Um pavio que se consome em flor,

Feito de instantes de ouro,

E de sombras tecidas na dor.

 

Não chores a cera que cai,

Nem o tempo que foge de ti,

Pois a beleza do que vai,

É o brilho do que ardeu aqui.

 

Seja fumo, chama ou calor,

 Toda a luz tem o seu fim,

Mas enquanto houver fulgor,

 Faz do agora o teu jardim.

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