Nas colinas onde o vento costuma
sussurrar segredos antigos, vivia um velho artesão chamado Simão. Ele não
trabalhava com ouro nem com pedra, mas sim com cera e pavio. Na sua oficina,
cada vela que moldava tinha um propósito: não serviam apenas para iluminar
quartos escuros, mas para espelhar a alma de quem as acendia.
Simão explicava sempre a mesma
verdade aos jovens da aldeia: "A vida não é o suporte de madeira, nem a
cor da cera. A vida é a Vela da Vida — aquele ponto exato onde o fogo
encontra o pavio."
Certa noite, o seu neto, inquieto
com a rapidez dos dias, perguntou-lhe por que razão as velas tinham de ser tão
curtas. O velho, com as mãos marcadas pelo tempo, acendeu uma pequena chama e
colocou-a entre os dois.
"Repara," disse ele,
"a luz arde agora. Ela consome a cera que nunca mais voltará a ser sólida.
O passado é a cera derretida que escorreu; o futuro é a cera fria que ainda não
sentiu o calor."
Simão apontou para o fio preto que se retorcia no centro do
fogo. "Este pavio é a nossa história. Momentos de alegria intensa fazem a
chama brilhar mais alto; momentos de luto e tristeza fazem-na oscilar e soltar
fumo negro. Mas tudo isso — o brilho e o fumo — é o que dá sentido à luz."
Enquanto conversavam, uma corrente de ar fez a chama dançar
violentamente. O neto assustou-se, tentando protegê-la com as mãos. Simão
sorriu, calmo.
"Não tenhas medo da brevidade," confortou-o. "Se a vela fosse infinita, a sua luz seria banal. É precisamente porque ela se apaga que cada segundo de claridade é um tesouro. Vive cada momento como se fosse o único, porque, na verdade, ele é o único. A sucessão de instantes é o que compõe o teu rastro no mundo." A música do silêncio da noite parecia enfatizar a mortalidade de todas as coisas. A vela de Simão estava a chegar ao fim.
Quando a chama finalmente vacilou pela última vez, antes de
se transformar num fio de fumo azulado que subia em direção às estrelas, Simão
fechou os olhos. A oficina ficou na penumbra, mas a lição permanecia acesa na
mente do rapaz.
Epílogo: O Canto da Luz
A vida é este sopro,
Um pavio que se consome em flor,
Feito de instantes de ouro,
E de sombras tecidas na dor.
Não chores a cera que cai,
Nem o tempo que foge de ti,
Pois a beleza do que
vai,
É o brilho do que
ardeu aqui.
Seja fumo, chama ou calor,
Toda a luz tem o seu
fim,
Mas enquanto houver fulgor,
Faz do agora o teu
jardim.
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