O relógio de pêndulo na sala de
estar de Joaquim não batia as horas; ele parecia ditar sentenças. Cada tic-tac
era um lembrete de que o tempo era um rio que corria apenas numa direção,
enquanto Joaquim continuava sentado na margem, a ver os barcos passarem.
Durante anos, ele guardou o
projeto de uma oficina de restauro num caderno de capa de couro. As páginas
estavam amareladas, as arestas gastas pelo toque dos dedos que apenas
folheavam, mas nunca executavam. Joaquim esperava. Esperava que a economia
melhorasse, esperava que as crianças crescessem, esperava que as dores nas
costas desvanecessem. Esperava pela conjunção astral perfeita que nunca
chegava.
A vida de Joaquim tinha-se
tornado uma sucessão de "amanhãs". A procrastinação é um sedativo
doce: convence-nos de que estamos apenas a ser prudentes, quando, na verdade,
estamos apenas a ser cobardes. Ele via os amigos subirem na carreira, os vizinhos
mudarem de vida, e sentia um amargor no peito. Não era inveja, era o peso da
estagnação.
Certa tarde, enquanto observava
uma teia de aranha formar-se no canto do seu velho torno mecânico, Joaquim
compreendeu uma verdade brutal: o tempo não perdoa a indecisão. O mundo
não para para nos dar boleia; ou corremos ao lado dele, ou ficamos para trás,
transformados em estátuas de "quase-fui".
O estalo veio de forma
inesperada. Ao ler uma carta de um velho companheiro de tropa que partira cedo
demais, Joaquim sentiu um frio na espinha. Aquele homem tinha planos, tinha
sonhos, mas o tempo dele esgotara-se.
Joaquim olhou para as suas mãos.
Ainda tinham força. Olhou para a oficina poeirenta. O teto ainda aguentava. A
urgência de viver subiu-lhe pela garganta como um grito sufocado.
— Não vou ser mais um parado no
tempo! — exclamou para as paredes vazias.
Ele não esperou pelo nascer do
sol. Naquela mesma noite, acendeu as luzes fluorescentes que piscaram antes de
banharem o caos de luz.
Os primeiros dias foram os mais
difíceis. O corpo protestava, a mente sugeria o conforto do sofá, e o medo do
fracasso sussurrava que "já era tarde demais". Mas Joaquim agora
tinha um mantra. Sempre que a dúvida surgia, ele repetia: "O único
momento em que tenho controlo é o agora."
Ele percebeu que as condições
perfeitas são uma mentira inventada pelo medo. Começou com o que tinha. Se
faltava uma peça, ele adaptava-a. Se o futuro parecia incerto, ele focava-se no
parafuso que tinha à frente. A luta deu-lhe uma dignidade que a espera lhe
roubara.
Meses depois, o som do metal a
ser moldado e o cheiro a verniz fresco preenchiam a antiga garagem. Joaquim
estava cansado, sim, mas era um cansaço que trazia paz, não vazio. Ele já não
temia os erros, porque percebeu que o maior erro de todos era a imobilidade.
O tempo continuava a passar — o
pêndulo da sala não abrandara — mas agora, Joaquim caminhava ao ritmo dele. Ele
não estava mais a ver a vida passar pela janela; ele era o condutor do seu
próprio destino.
O Teu Momento é Hoje
Não permitas que a tua história
seja escrita a lápis, pronta a ser apagada pelo vento da hesitação. A vida não
é um ensaio geral; é a apresentação única, sem direito a repetições.
Muitas vezes, ficamos presos ao
que "poderia ter sido" ou ao medo do que "poderá ser",
esquecendo-nos de que o presente é o único terreno onde podemos semear. A
procrastinação é o ladrão do tempo, e o medo é a sua corrente.
Quebra as correntes. Não esperes
pelo sinal verde, pois às vezes o sinal só abre quando começamos a avançar. Mexe-te,
luta, cria. Não sejas mais um nome na lista daqueles que o tempo esqueceu
porque eles próprios se esqueceram de agir.
O tempo passa, mas tu decides
se vais com ele ou se ficas a vê-lo partir. Escolhe viver.
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