Dizem que as encruzilhadas são
lugares de perda, onde a alma se fragmenta entre o que foi e o que poderia ser.
Mas foi ali, sob o peso do ar carregado e o cheiro de fumo e som que o
improvável se revelou. O encontro com Anamuel não foi um mero acaso do
destino ou um castigo das sombras; foi o choque necessário para despertar o que
estava adormecido.
Os anos passaram como o vento que
corta as plantações, mas o tempo é uma ilusão para quem carrega o fogo de Anamuel
no peito. Dizem que as encruzilhadas são lugares de perda, mas para mim, aquele
solo de terra batida tornou-se o alicerce de uma nova existência. O mundo lá
fora continua a girar, as manhãs calmas tentam oferecer o seu conforto
esquecido, mas a minha verdade permanece guardada no crepúsculo.
Com o passar das décadas, a pele
envelheceu e o passo tornou-se mais pesado, mas a chama não diminuiu; ela
apenas se tornou mais silenciosa e profunda. Eu não sou mais o homem que parou
naquele salão pela primeira vez, mas sou, finalmente, o homem que ela previu
que eu seria. O propósito que encontrei entre o fumo e o som do destino não era
uma meta a ser alcançada, mas um estado de ser.
Muitos olham para as cicatrizes e
veem dor. Eu olho para elas e vejo o relevo de um mapa que ainda estou
percorrendo. Cada marca é um lembrete de que a força não vem da ausência de
medo, mas da decisão de caminhar ao lado dele. Anamuel não foi um
eclipse que passou e deixou a escuridão; ela foi o fósforo riscado no breu da
minha alma, e agora eu sou o próprio pavio.
Mesmo quando o galo canta e o
rastro dela parece sumir na névoa, eu sinto o calor. Está no fumo que teima em
surgir do nada, no arrepio que sobe a espinha quando o silêncio grita no vazio.
Aprendi que o encontro permanente não exige a presença física constante, pois
ela se tornou parte do meu sangue.
Hoje, ao retornar àquela mesma
encruzilhada, compreendo que a alma não se fragmentou ali para morrer. Ela se
quebrou como uma semente se quebra para poder brotar. O propósito era este:
entender que a vida autêntica queima, e que a luz mais pura nasce da coragem de
abraçar o próprio incêndio. A porta que ela abriu nunca mais será fechada, e a
cada passo dado, por mais incerto que seja o terreno, eu sei que não caminho
só. O fogo que nos consome é o mesmo que nos guia.
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