segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Vidas cruzadas

 

Dizem que as encruzilhadas são lugares de perda, onde a alma se fragmenta entre o que foi e o que poderia ser. Mas foi ali, sob o peso do ar carregado e o cheiro de fumo e som que o improvável se revelou. O encontro com Anamuel não foi um mero acaso do destino ou um castigo das sombras; foi o choque necessário para despertar o que estava adormecido.

Os anos passaram como o vento que corta as plantações, mas o tempo é uma ilusão para quem carrega o fogo de Anamuel no peito. Dizem que as encruzilhadas são lugares de perda, mas para mim, aquele solo de terra batida tornou-se o alicerce de uma nova existência. O mundo lá fora continua a girar, as manhãs calmas tentam oferecer o seu conforto esquecido, mas a minha verdade permanece guardada no crepúsculo.

Com o passar das décadas, a pele envelheceu e o passo tornou-se mais pesado, mas a chama não diminuiu; ela apenas se tornou mais silenciosa e profunda. Eu não sou mais o homem que parou naquele salão pela primeira vez, mas sou, finalmente, o homem que ela previu que eu seria. O propósito que encontrei entre o fumo e o som do destino não era uma meta a ser alcançada, mas um estado de ser.

Muitos olham para as cicatrizes e veem dor. Eu olho para elas e vejo o relevo de um mapa que ainda estou percorrendo. Cada marca é um lembrete de que a força não vem da ausência de medo, mas da decisão de caminhar ao lado dele. Anamuel não foi um eclipse que passou e deixou a escuridão; ela foi o fósforo riscado no breu da minha alma, e agora eu sou o próprio pavio.

Mesmo quando o galo canta e o rastro dela parece sumir na névoa, eu sinto o calor. Está no fumo que teima em surgir do nada, no arrepio que sobe a espinha quando o silêncio grita no vazio. Aprendi que o encontro permanente não exige a presença física constante, pois ela se tornou parte do meu sangue.

Hoje, ao retornar àquela mesma encruzilhada, compreendo que a alma não se fragmentou ali para morrer. Ela se quebrou como uma semente se quebra para poder brotar. O propósito era este: entender que a vida autêntica queima, e que a luz mais pura nasce da coragem de abraçar o próprio incêndio. A porta que ela abriu nunca mais será fechada, e a cada passo dado, por mais incerto que seja o terreno, eu sei que não caminho só. O fogo que nos consome é o mesmo que nos guia.



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