quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O Corpo como Empréstimo

 

Desde muito cedo, Bernardo, enquanto os outros meninos corriam atrás da bola, ele observava as formigas carregando pedaços de folhas ou o modo como as flores do jardim dos seus pais murchavam e viravam terra. Ele sentia, de forma instintiva, que o seu "eu" era um conceito estranho e fluido.

Aos sete anos, Bernardo perguntou ao pai: "Como posso saber que estou vivo se não souber o que é estar morto?". A vida só ganha contorno através do seu oposto. Para Bernardo, o "eu" não era uma ilha isolada, mas uma conversa constante entre o que aparece e o que desaparece. Ele percebeu que a luz só fazia sentido por causa da sombra, e que ele próprio só existia porque o universo era emanado de um  movimento de expansão e contração.

Bernardo cresceu fascinado pela ideia de que o seu corpo físico era um "conjunto de elementos reconstruídos. Ele olhava para as suas mãos e lembrava-se do que ouvira: os átomos que o compunham já tinham sido parte do fundo de estrelas distantes ou da chuva que caíra milénios antes. Ele não via o seu corpo como uma posse, mas como um empréstimo da natureza.

Aos trinta anos, foi abalado por uma doença grave,  este momento foi   um lembrete físico de que o tempo não perdoa nem a matéria mais sólida nem as convicções mais sólidas. Ele lembrou-se de que cada célula da sua pele se renovava a cada poucas semanas. O Bernardo que ali estava não era o mesmo que fizera a pergunta ao pai aos sete anos; nem um único átomo era o mesmo. Com o tempo, Bernardo aprendeu que o medo de morrer era, na verdade, o medo do ego perder o controle. Ao aceitar que as suas células morriam e renasciam todos os dias, ele parou de lutar contra o fluxo do tempo.  Ele entendeu que ser mortal era a condição necessária para ser real. A sua jornada ensinou-lhe que o fim do caminho não é uma falha, mas a confirmação de que ele fez parte da "grande promessa da natureza".

Com essa clareza, ele caminhou até ao jardim, onde o sol se despedia num horizonte tingido por um laranja tão vibrante que parecia o último suspiro de uma estrela. Ao inspirar profundamente, ele não sentiu apenas o ar; sentiu a história do mundo a entrar-lhe no peito. Sabia que aquele oxigénio, agora a percorrer as suas veias, era o mesmo que já tinha alimentado o fogo de poetas, a força de guerreiros e o fôlego de dinossauros. Naquela dança de átomos, Bernardo percebeu que nunca esteve sozinho: ele era o ponto de encontro onde o passado se tornava presente para, logo a seguir, se transformar no futuro.



 

Sem comentários:

Enviar um comentário

Sonho da “Terra Nova”

  O despertador não tocou, mas a mente despertou. Não na penumbra habitual do quarto, abafada pelo zumbido distante do trânsito e pela luz a...