Desde muito cedo, Bernardo,
enquanto os outros meninos corriam atrás da bola, ele observava as formigas
carregando pedaços de folhas ou o modo como as flores do jardim dos seus pais
murchavam e viravam terra. Ele sentia, de forma instintiva, que o seu
"eu" era um conceito estranho e fluido.
Aos sete anos, Bernardo perguntou
ao pai: "Como posso saber que estou vivo se não souber o que é estar
morto?". A vida só ganha contorno através do seu oposto. Para
Bernardo, o "eu" não era uma ilha isolada, mas uma conversa constante
entre o que aparece e o que desaparece. Ele percebeu que a luz só fazia sentido
por causa da sombra, e que ele próprio só existia porque o universo era emanado
de um movimento de expansão e contração.
Bernardo cresceu fascinado pela
ideia de que o seu corpo físico era um "conjunto de elementos
reconstruídos. Ele olhava para as suas mãos e lembrava-se do que ouvira: os
átomos que o compunham já tinham sido parte do fundo de estrelas distantes ou
da chuva que caíra milénios antes. Ele não via o seu corpo como uma posse, mas
como um empréstimo da natureza.
Aos trinta anos, foi abalado por
uma doença grave, este momento foi um
lembrete físico de que o tempo não perdoa nem a matéria mais sólida nem as convicções
mais sólidas. Ele lembrou-se de que cada célula da sua pele se renovava a cada
poucas semanas. O Bernardo que ali estava não era o mesmo que fizera a pergunta
ao pai aos sete anos; nem um único átomo era o mesmo. Com o tempo, Bernardo
aprendeu que o medo de morrer era, na verdade, o medo do ego perder o controle.
Ao aceitar que as suas células morriam e renasciam todos os dias, ele parou de
lutar contra o fluxo do tempo. Ele
entendeu que ser mortal era a condição necessária para ser real. A sua jornada
ensinou-lhe que o fim do caminho não é uma falha, mas a confirmação de que ele
fez parte da "grande promessa da natureza".
Com essa clareza, ele caminhou
até ao jardim, onde o sol se despedia num horizonte tingido por um laranja tão
vibrante que parecia o último suspiro de uma estrela. Ao inspirar
profundamente, ele não sentiu apenas o ar; sentiu a história do mundo a
entrar-lhe no peito. Sabia que aquele oxigénio, agora a percorrer as suas
veias, era o mesmo que já tinha alimentado o fogo de poetas, a força de
guerreiros e o fôlego de dinossauros. Naquela dança de átomos, Bernardo
percebeu que nunca esteve sozinho: ele era o ponto de encontro onde o passado
se tornava presente para, logo a seguir, se transformar no futuro.
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