O Expresso da Existência
O apito soou e o metal rangeu contra os carris.
Entrei na carruagem com o bilhete na mão e procurei o lugar que me estava
destinado. Sentar naquele banco foi o meu primeiro ato de consciência; o
início de uma jornada que eu sabia ter um fim, mas cujo trajeto era um mistério
absoluto.
Pela janela, a paisagem passava veloz. No início,
tudo era brilho e descoberta. Nas primeiras paragens, alguns passageiros
sentaram-se ao meu lado. Eram presenças fugazes: entraram com um sorriso,
trocaram duas palavras e, num piscar de olhos, saíram na estação seguinte.
Foram como os conhecidos de infância ou os colegas de um verão distante —
deixaram um rasto de perfume no ar, mas as suas faces desvaneceram-se antes
mesmo de o comboio ganhar velocidade.
O Balanço dos Encontros
À medida que a viagem avançava, o vagão tornou-se um
microcosmo de emoções:
- O Amor: Alguém se sentou à minha
frente e, por longos quilómetros, o mundo lá fora deixou de existir.
Partilhámos o lanche, os silêncios e os planos. Aquela presença trazia
conforto ao balanço por vezes brusco do comboio. Com essa pessoa, o tempo não passava; ele
transformava-se. Partilhámos a vista, os planos para o futuro e o conforto
do silêncio. Por momentos, esqueci-me de que o comboio continuava a
mover-se e que as estações não param por ninguém. Inesperadamente, o abrandar do comboio anunciou a
paragem dessa pessoa. O meu coração apertou-se. A vontade era de segurar a
sua mão, de bloquear a porta, de implorar para que seguisse comigo até ao
fim da linha. Mas uma razão mais forte sussurrou-me ao ouvido: "Amamos seres que são
mortais e livres."
Olhei para aquela pessoa enquanto ela se preparava para sair. Em vez do
desespero da perda, tentei praticar a gratidão pelo tempo concedido. Se eu
sofria com a partida, era porque o encontro tinha sido um presente. A dor era o
preço justo de um amor que valeu a pena.
Quando a porta se fechou e eu vi, através do vidro, o vulto afastar-se na
plataforma até se tornar um ponto minúsculo, o banco ao meu lado pareceu
subitamente imenso e frio. Mas não o preenchi com amargura. Lembrei-me de que as
pessoas não nos pertencem; elas são-nos emprestadas pelo destino.
- O Conflito: Noutra paragem, entrou
quem ocupasse o espaço de forma agressiva. Houve olhares de tensão, o peso
do ódio ou da incompreensão. Aprendi, ali, que nem todos os passageiros
viajam para o mesmo destino que nós, e que o atrito faz parte do
movimento. Não trazia cortesia, mas
sim um peso denso. Reclamou do espaço, criticou a luz da carruagem e, em
pouco tempo, direcionou a sua amargura para mim. Cada gesto seu era uma
provocação; cada palavra, um convite para o campo de batalha da discórdia.
Senti o meu sangue aquecer, o instinto de defesa a querer assumir o
comando. Olhei para ele não como um
inimigo, mas como um fenómeno da natureza — como uma tempestade que
fustiga a janela do comboio. Eu não podia controlar o humor dele, nem as
suas palavras ásperas, nem a sua falta de educação. Eu voltei a minha atenção para a textura
do banco e para a paisagem que ainda corria lá fora. O conflito morreu
ali, não por falta de combustível dele, mas por falta de faísca minha.
Quando ele finalmente saiu, três estações depois, bateu com a porta e
desapareceu na multidão. Eu não senti alívio, nem vitória. Senti apenas a
paz de quem compreende que ninguém pode tirar a nossa tranquilidade sem o
nosso consentimento.
- A Indiferença: Muitos
outros foram apenas vultos. Sentaram-se, leram os seus jornais, olharam
para os telemóveis e saíram sem um "bom dia". Eram a prova de
que, na multidão da vida, somos muitas vezes apenas figurantes no cenário
alheio.
Alguns desses companheiros de viagem permaneceram durante horas, tornando-se parte da mobília da minha jornada. Criámos laços que pareciam indestrutíveis, até que a voz do altifalante anunciou a paragem deles.
A Última Estação
Finalmente, o revisor aproximou-se. Era a minha
vez. Olhei em volta uma última vez. Alguns passageiros novos olhavam para mim
com a mesma curiosidade com que eu olhara para outros no início.
Ao levantar-me, percebi que não levava as malas que
trouxe. Levava apenas o que coube na memória. De alguns, recordava o brilho dos
olhos; de outros, já nem o nome sabia. Saí para a plataforma, o comboio seguiu
o seu curso, transportando agora outros destinos, outros amores e outras
indiferenças.
O Ensinamento para a Vida
A grande lição desta viagem é que não somos donos
do comboio, nem dos passageiros, apenas do nosso lugar no banco e da forma
como olhamos pela janela.
O homem deve compreender que:
- A impermanência é a única constante:
Pessoas entrarão e sairão da nossa vida no momento certo delas. Aprender a
deixar ir quem já chegou à sua estação e a valorizar quem ainda ocupa o
lugar ao nosso lado.
- A qualidade da viagem supera o destino: O fim
é o mesmo para todos (o desembarque). O que diferencia uma vida rica de
uma vida vazia é a intensidade dos diálogos, a capacidade de perdoar o
passageiro hostil e o amor partilhado durante o trajeto.
No fim, a
memória é o único património que realmente nos pertence.
Sem comentários:
Enviar um comentário