sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O Expresso da Existência

 

O Expresso da Existência

O apito soou e o metal rangeu contra os carris. Entrei na carruagem com o bilhete na mão e procurei o lugar que me estava destinado. Sentar naquele banco foi o meu primeiro ato de consciência; o início de uma jornada que eu sabia ter um fim, mas cujo trajeto era um mistério absoluto.

Pela janela, a paisagem passava veloz. No início, tudo era brilho e descoberta. Nas primeiras paragens, alguns passageiros sentaram-se ao meu lado. Eram presenças fugazes: entraram com um sorriso, trocaram duas palavras e, num piscar de olhos, saíram na estação seguinte. Foram como os conhecidos de infância ou os colegas de um verão distante — deixaram um rasto de perfume no ar, mas as suas faces desvaneceram-se antes mesmo de o comboio ganhar velocidade.

O Balanço dos Encontros

À medida que a viagem avançava, o vagão tornou-se um microcosmo de emoções:

  • O Amor: Alguém se sentou à minha frente e, por longos quilómetros, o mundo lá fora deixou de existir. Partilhámos o lanche, os silêncios e os planos. Aquela presença trazia conforto ao balanço por vezes brusco do comboio. Com essa pessoa, o tempo não passava; ele transformava-se. Partilhámos a vista, os planos para o futuro e o conforto do silêncio. Por momentos, esqueci-me de que o comboio continuava a mover-se e que as estações não param por ninguém. Inesperadamente, o abrandar do comboio anunciou a paragem dessa pessoa. O meu coração apertou-se. A vontade era de segurar a sua mão, de bloquear a porta, de implorar para que seguisse comigo até ao fim da linha. Mas uma razão mais forte sussurrou-me ao ouvido: "Amamos seres que são mortais e livres."

Olhei para aquela pessoa enquanto ela se preparava para sair. Em vez do desespero da perda, tentei praticar a gratidão pelo tempo concedido. Se eu sofria com a partida, era porque o encontro tinha sido um presente. A dor era o preço justo de um amor que valeu a pena.

Quando a porta se fechou e eu vi, através do vidro, o vulto afastar-se na plataforma até se tornar um ponto minúsculo, o banco ao meu lado pareceu subitamente imenso e frio. Mas não o preenchi com amargura. Lembrei-me de que as pessoas não nos pertencem; elas são-nos emprestadas pelo destino.

  • O Conflito: Noutra paragem, entrou quem ocupasse o espaço de forma agressiva. Houve olhares de tensão, o peso do ódio ou da incompreensão. Aprendi, ali, que nem todos os passageiros viajam para o mesmo destino que nós, e que o atrito faz parte do movimento.  Não trazia cortesia, mas sim um peso denso. Reclamou do espaço, criticou a luz da carruagem e, em pouco tempo, direcionou a sua amargura para mim. Cada gesto seu era uma provocação; cada palavra, um convite para o campo de batalha da discórdia. Senti o meu sangue aquecer, o instinto de defesa a querer assumir o comando.  Olhei para ele não como um inimigo, mas como um fenómeno da natureza — como uma tempestade que fustiga a janela do comboio. Eu não podia controlar o humor dele, nem as suas palavras ásperas, nem a sua falta de educação.  Eu voltei a minha atenção para a textura do banco e para a paisagem que ainda corria lá fora. O conflito morreu ali, não por falta de combustível dele, mas por falta de faísca minha. Quando ele finalmente saiu, três estações depois, bateu com a porta e desapareceu na multidão. Eu não senti alívio, nem vitória. Senti apenas a paz de quem compreende que ninguém pode tirar a nossa tranquilidade sem o nosso consentimento.
  • A Indiferença: Muitos outros foram apenas vultos. Sentaram-se, leram os seus jornais, olharam para os telemóveis e saíram sem um "bom dia". Eram a prova de que, na multidão da vida, somos muitas vezes apenas figurantes no cenário alheio.

Alguns desses companheiros de viagem permaneceram durante horas, tornando-se parte da mobília da minha jornada. Criámos laços que pareciam indestrutíveis, até que a voz do altifalante anunciou a paragem deles.

A Última Estação

Finalmente, o revisor aproximou-se. Era a minha vez. Olhei em volta uma última vez. Alguns passageiros novos olhavam para mim com a mesma curiosidade com que eu olhara para outros no início.

Ao levantar-me, percebi que não levava as malas que trouxe. Levava apenas o que coube na memória. De alguns, recordava o brilho dos olhos; de outros, já nem o nome sabia. Saí para a plataforma, o comboio seguiu o seu curso, transportando agora outros destinos, outros amores e outras indiferenças.


O Ensinamento para a Vida

A grande lição desta viagem é que não somos donos do comboio, nem dos passageiros, apenas do nosso lugar no banco e da forma como olhamos pela janela.

O homem deve compreender que:

  1. A impermanência é a única constante: Pessoas entrarão e sairão da nossa vida no momento certo delas. Aprender a deixar ir quem já chegou à sua estação e a valorizar quem ainda ocupa o lugar ao nosso lado.
  2. A qualidade da viagem supera o destino: O fim é o mesmo para todos (o desembarque). O que diferencia uma vida rica de uma vida vazia é a intensidade dos diálogos, a capacidade de perdoar o passageiro hostil e o amor partilhado durante o trajeto.

No fim, a memória é o único património que realmente nos pertence.




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