1. Artur:
Perfil: O ateu convicto, intelectualmente
arrogante, que expulsou o sagrado para reinar sobre o próprio niilismo.
Artur vive num apartamento minimalista no 40.º andar,
rodeado por ecrãs que debitam dados em tempo real. Para ele, a ideia de Deus é
um "delírio fóssil". Ao expulsar o transcendente, Artur colocou a sua
própria racionalidade no centro do universo. A sua vida é uma sucessão de conquistas
estéreis. Recentemente, Artur começou a testar os limites da sua
"liberdade total". Se não há juiz supremo, a moralidade é apenas um
contrato social que ele, na sua superioridade, se sente no direito de rasgar.
Ele não precisa de dinheiro, mas começou a praticar pequenos atos de crueldade
psicológica em fóruns anónimos e manipulações financeiras que destroem empresas
familiares, apenas para sentir algo.
Numa noite de insónia, Artur olha para o reflexo no vidro da
varanda. Ele percebe que se tornou um "buraco negro emocional".
A sua namorada deixou-o, alegando que estar com ele era "sentir a vida a
ser sugada por um vácuo de sarcasmo". Artur sorriu, mas o seu sorriso é
uma máscara de lepra moral. Ele é o senhor de tudo o que vê, e do seu destino. O seu "tudo é permitido"
transformou-o numa alma em decomposição que, para fugir ao silêncio do quarto,
procura agora uma forma de destruição mais vasta, talvez uma ideologia radical
que prometa o caos que ele já sente por dentro.
2. Sara:
Perfil: A "órfã de sentido" que não
reflete, não filtra e busca aprovação externa através de slogans.
Sara é o rosto da psicose coletiva moderna. Ela não
nega Deus, simplesmente nunca pensou nisso; o ruído das notificações substituiu
a oração. Sara vive para a validação. Ela defende causas sociais fervorosamente
no Instagram e no TikTok, não porque compreenda a dor do outro, mas porque o
"mantra" do momento preenche o vazio que o silêncio lhe causa.
Ela é "facilmente inflamável". Na semana passada,
Sara juntou-se a uma manifestação que rapidamente escalou para a violência. Ela
não sabia bem porque estava a gritar, mas o calor da multidão dava-lhe uma
embriaguez de pertença que a sua vida vazia não oferecia. Enquanto filmava uma
montra a ser partida, Sara sentiu que finalmente "era alguém".
Sara é a personificação do indivíduo que defende valores sem
os praticar. Ela fala de empatia online, mas ignora o vizinho idoso que passa
fome. Ela não se compromete com a verdade, apenas com a estética social.
Sara está pronta a sacrificar a realidade em nome de uma ideia que lhe deram a
mastigar. Ela é o combustível perfeito para os manipuladores de opinião: uma
alma oca que, por medo de ser ninguém, está disposta a incendiar o mundo para
se sentir integrada.
Estas duas personagens ilustram a falta de uma
"bússola interior"
Artur bebe um vinho caro, os olhos fixos no horizonte de
betão. Sara está ao lado, o telemóvel na mão, iluminando o rosto com o brilho
azul de uma aplicação de tendências.
Sara: (Sem tirar os olhos do ecrã) "Viste o que
aconteceu na praça hoje? Finalmente as pessoas estão a acordar. A justiça
social está a ganhar forma. É preciso destruir o sistema para reconstruir algo “puro."
Artur: (Solta um riso seco, sem olhar para ela)
"Puro? Sara, tu nem sabes o que essa palavra significa. Tu não queres
justiça, tu queres o ruído da matilha. Estás apenas a repetir o mantra que o
algoritmo te entregou ao pequeno-almoço."
Sara: (Ofendida, bloqueia o telemóvel) "Pelo
menos eu acredito em algo! Eu defendo valores, luto por um mundo melhor. Tu
passas a vida a criticar, escondido na tua redoma de niilismo ( do nada), a
dizer que Deus morreu e que nada importa."
Artur: "Deus não morreu, nós despejámo-lo como
se fosse um inquilino indesejado. E o que puseste no lugar dele? Uma utopia de
plástico. Tu és como pessoas que não compreendem as ideias que defendem, mas
que estão dispostas a queimar o mundo por elas só para sentirem que não são
invisíveis."
Sara: "Isso é arrogância intelectual, Artur. Eu
sinto a dor do mundo. Eu importo-me!"
Artur: "Não!, tu não sentes. Tu sentes o prazer
da aprovação. Tu és 'inflamável'. Se amanhã o slogan mudar para o oposto, tu
vais gritar com a mesma convicção, desde que tenhas um grupo que te aplauda.
Eu, pelo menos, tenho a coragem de encarar o vazio. Eu sei que, se não há nada
acima de nós, eu sou o meu próprio Deus. E como deus, decido que a tua 'causa'
é apenas um disfarce para o teu tédio."
Sara: "És um monstro frio. O teu vazio é um
buraco negro. Tu não constróis nada, só destróis a esperança dos outros com
esse teu sarcasmo."
Artur: "A esperança é a trela dos ignorantes,
Sara. Tu falas de 'reconstruir', mas a tua sede de sangue nas redes sociais
mostra a tua verdadeira natureza. Estás a sofrer de uma psicose coletiva. Estás
tão desesperada por um sentido que te
tornaste um eco. Se tudo é permitido — e eu acredito que seja — eu escolho a
minha lucidez. Tu escolhes a combustão de uma multidão que não te
conhece."
Sara: "Eu prefiro ser parte de algo maior do que
ser um cadáver vivo como tu, que não sente nada por ninguém!"
Artur: (Aproxima-se lentamente, a voz baixa e
cortante) "O problema, Sara, é que quando a tua utopia falhar e o ruído
parar, o silêncio que vais encontrar dentro de ti será o mesmo que o meu. A
diferença é que eu já aprendi a viver nele. Tu... tu vais destruir-te a tentar
preenchê-lo com slogans que já não significam nada."
Sara: (Cala-se por um momento, a mão treme
ligeiramente sobre o telemóvel) "Tu queres que eu seja como tu? Sem
nada?"
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