domingo, 4 de janeiro de 2026

Grande Nivelador

 

Esta é a conversa entre dois mundos: Artur, um adepto fervoroso do materialismo e da acumulação e Simão, um homem que vive da terra e da sua própria consciência, moldado pelo tempo e pelas adversidades ao longo da vida.

O cenário é um banco de jardim frente a um estaleiro de luxo, onde Artur supervisiona a construção de mais uma torre que levará o seu nome.

Artur: (Olhando para o relógio, impaciente) Olhe para isto, Simão. Mais doze meses e o meu nome estará no topo daquela estrutura. Oitenta andares de puro domínio. Você continua aí, com esse seu casaco remendado, a ler livros de mortos e a plantar alfaces. Não sente que falhou? A vida é uma competição, meu caro. Quem tem mais, ganha. Quem não tem nada, é invisível.

Simão: (Fechando calmamente o livro) É curioso, Artur. Você olha para aquele prédio e vê um trono. Eu olho para lá e vejo uma pira funerária de tempo e ansiedade. Você diz que eu sou invisível, mas eu durmo com o silêncio de quem não deve nada à sua própria consciência. Você, pelo contrário, precisa que o mundo o veja para acreditar que existe.

Artur: (Ri-se, com desdém) Consciência não paga as contas, nem compra segurança. Eu manipulo mercados, antecipo crises, crio a minha própria verdade. Se as fontes dizem que o mercado vai cair, eu invento uma narrativa que o faz subir. Isso é poder! Você está à mercê do vento, do sol e da caridade do destino. O que é que você tem quando o dia acaba?

Simão: Tenho o que ninguém me pode tirar. Se aquele seu prédio cair amanhã, o Artur morre com ele, porque o Artur é o prédio. Se eu perder a minha horta amanhã, o Simão continua inteiro. Você chama a isso segurança, eu chamo-lhe prisão. Você está algemado a coisas que o tempo vai devorar. Já reparou como as suas mãos tremem quando o telemóvel toca? A minha mão só treme se eu falhar a sementeira  no momento oportuno.

Artur: (Irritado) Pobreza não é virtude, é falta de ambição! Eu sou um “general” desta era. Eu justifico os meus meios pelos meus fins. Se tive de esmagar alguns para chegar aqui, foi por uma questão de "logística evolutiva", como eu costumo dizer. O mundo é dos fortes.

Simão: O mundo é dos que se governam a si mesmos, Artur. Você acha-se um general, mas é um escravo. É escravo do medo de perder o que acumulou, escravo da opinião dos seus pares, escravo de fontes que você próprio sabe serem mentira. A sua "verdade" é uma construção frágil. A minha verdade é que este pedaço de pão que como me sabe melhor do que o seu banquete, porque eu não preciso de o justificar a ninguém.

Artur: No fim, Simão, eu serei lembrado. O meu nome estará no mármore. O seu será apagado pela primeira chuva.

Simão: (Sorri com uma tristeza compassiva) Artur, olhe para o chão. A terra onde pisamos não distingue o sangue de um rei do suor de um camponês. O mármore racha, o ouro escurece. Daqui a cem anos, o seu prédio será pó ou a casa de outra pessoa que nem saberá quem você foi. A única coisa que levamos — ou melhor, a única coisa que deixamos de real — é a qualidade da alma que cultivámos. Você gasta a vida a construir uma caixa de luxo para o seu corpo, enquanto deixa a sua mente num deserto.

Artur: (Cala-se por um momento, olhando o fumo das máquinas) Estupidez. Se eu não tivesse isto tudo... eu não seria nada.

Simão: Exatamente. E esse é o seu maior erro. O homem que precisa de "ter" para "ser", nunca será nada além de um armazém de objetos.

O Ensinamento Final: O Grande Nivelador

A lição que Simão tenta transmitir a Artur é a da Morte como unificadora (Memento Mori).

Independentemente da quantidade de bens acumulados, das narrativas manipuladas para justificar o injustificável ou do poder exercido sobre os outros, o destino final é o mesmo. O tempo é o único senhor absoluto que não aceita subornos.

A dignidade não se encontra naquilo que possuímos, mas naquilo que somos capazes de abdicar sem perder a nossa essência. No fim, a morte retira-nos o "ter" e deixa apenas o rasto do nosso "ser". Construir uma vida baseada apenas no material é como escrever na água; a única construção duradoura é a da nossa própria virtude, pois é a única coisa que nos pertence inteiramente até ao último suspiro.




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