Esta é a conversa entre dois
mundos: Artur, um adepto fervoroso do materialismo e da acumulação e Simão, um
homem que vive da terra e da sua própria consciência, moldado pelo tempo e
pelas adversidades ao longo da vida.
O cenário é um banco de jardim
frente a um estaleiro de luxo, onde Artur supervisiona a construção de mais uma
torre que levará o seu nome.
Artur: (Olhando para o
relógio, impaciente) Olhe para isto, Simão. Mais doze meses e o meu nome estará
no topo daquela estrutura. Oitenta andares de puro domínio. Você continua aí,
com esse seu casaco remendado, a ler livros de mortos e a plantar alfaces. Não
sente que falhou? A vida é uma competição, meu caro. Quem tem mais, ganha. Quem
não tem nada, é invisível.
Simão: (Fechando
calmamente o livro) É curioso, Artur. Você olha para aquele prédio e vê um
trono. Eu olho para lá e vejo uma pira funerária de tempo e ansiedade. Você diz
que eu sou invisível, mas eu durmo com o silêncio de quem não deve nada à sua
própria consciência. Você, pelo contrário, precisa que o mundo o veja para
acreditar que existe.
Artur: (Ri-se, com desdém)
Consciência não paga as contas, nem compra segurança. Eu manipulo mercados,
antecipo crises, crio a minha própria verdade. Se as fontes dizem que o mercado
vai cair, eu invento uma narrativa que o faz subir. Isso é poder! Você está à
mercê do vento, do sol e da caridade do destino. O que é que você tem quando o
dia acaba?
Simão: Tenho o que ninguém
me pode tirar. Se aquele seu prédio cair amanhã, o Artur morre com ele, porque
o Artur é o prédio. Se eu perder a minha horta amanhã, o Simão continua
inteiro. Você chama a isso segurança, eu chamo-lhe prisão. Você está algemado a
coisas que o tempo vai devorar. Já reparou como as suas mãos tremem quando o
telemóvel toca? A minha mão só treme se eu falhar a sementeira no momento oportuno.
Artur: (Irritado) Pobreza
não é virtude, é falta de ambição! Eu sou um “general” desta era. Eu justifico
os meus meios pelos meus fins. Se tive de esmagar alguns para chegar aqui, foi
por uma questão de "logística evolutiva", como eu costumo dizer. O
mundo é dos fortes.
Simão: O mundo é dos que
se governam a si mesmos, Artur. Você acha-se um general, mas é um escravo. É
escravo do medo de perder o que acumulou, escravo da opinião dos seus pares,
escravo de fontes que você próprio sabe serem mentira. A sua
"verdade" é uma construção frágil. A minha verdade é que este pedaço
de pão que como me sabe melhor do que o seu banquete, porque eu não preciso de
o justificar a ninguém.
Artur: No fim, Simão, eu
serei lembrado. O meu nome estará no mármore. O seu será apagado pela primeira
chuva.
Simão: (Sorri com uma
tristeza compassiva) Artur, olhe para o chão. A terra onde pisamos não
distingue o sangue de um rei do suor de um camponês. O mármore racha, o ouro
escurece. Daqui a cem anos, o seu prédio será pó ou a casa de outra pessoa que
nem saberá quem você foi. A única coisa que levamos — ou melhor, a única coisa
que deixamos de real — é a qualidade da alma que cultivámos. Você gasta a vida
a construir uma caixa de luxo para o seu corpo, enquanto deixa a sua mente num
deserto.
Artur: (Cala-se por um
momento, olhando o fumo das máquinas) Estupidez. Se eu não tivesse isto tudo...
eu não seria nada.
Simão: Exatamente. E esse
é o seu maior erro. O homem que precisa de "ter" para
"ser", nunca será nada além de um armazém de objetos.
O Ensinamento Final: O Grande
Nivelador
A lição que Simão tenta
transmitir a Artur é a da Morte como unificadora (Memento Mori).
Independentemente da quantidade
de bens acumulados, das narrativas manipuladas para justificar o injustificável
ou do poder exercido sobre os outros, o destino final é o mesmo. O tempo é o
único senhor absoluto que não aceita subornos.
A dignidade não se encontra
naquilo que possuímos, mas naquilo que somos capazes de abdicar sem perder a
nossa essência. No fim, a morte retira-nos o "ter" e deixa apenas o
rasto do nosso "ser". Construir uma vida baseada apenas no material é
como escrever na água; a única construção duradoura é a da nossa própria
virtude, pois é a única coisa que nos pertence inteiramente até ao último
suspiro.
Sem comentários:
Enviar um comentário