A tarde de domingo caía mansa,
tingida pelo cinzento que se via da janela. Sentado na sua velha poltrona de
cabedal, já moldada pelo contorno do seu corpo ao longo de décadas, ele
observava a chuva cair lá fora. Não era uma tempestade agressiva, daquelas que
castigam a terra, mas sim uma melodia monótona e constante, aquela "triste
canção" que o céu teimava em entoar, como se fizesse coro com o ambiente
recolhido da casa.
Nos últimos dias, quem o conhecia
notava a mudança. O seu olhar, antes irrequieto e cheio de planos,
transformara-se. Havia nele agora uma calma profunda, uma espécie de lago
límpido e parado que, paradoxalmente, assustava pela sua imensidão e confortava
quem o rodeava pela paz que transmitia.
Ele sabia, com a certeza
silenciosa dos que se aproximam da fronteira, que o seu tempo estava a
esgotar-se. Não havia medo nos seus gestos, nem revolta nas suas palavras.
Apenas uma aceitação mansa e digna do destino que se desenhara desde o dia em
que o médico, com uma franqueza gélida, lhe comunicara o diagnóstico de cancro
e a inevitabilidade de uma operação. Era uma intervenção cirúrgica de alto
risco; uma aposta onde a própria sobrevivência era incerta e que, mesmo saindo
vitorioso, molduraria a sua existência com limitações para sempre. Ele pesara
tudo e escolhera o seu caminho.
O silêncio da sala foi quebrado
pelo som suave de passos. O filho aproximou-se, com o cenho carregado de uma
preocupação que tentava disfarçar, estendendo a mão para o ajudar a
levantar-se. Ele aceitou o toque, mas antes de se mover, fixou os olhos nos do
filho e sorriu. Um sorriso autêntico, que lhe iluminou o rosto cansado. Com uma
voz frágil, gasta pela doença, mas invulgarmente firme na sua convicção,
disse-lhe que sentia ter cumprido a sua função. Que o seu legado estava
entregue.
"Não me quero ir
embora", confessou num sussurro, e nessa frase ecoou todo o peso de uma
saudade antecipada. Saudade dos risos à mesa, dos abraços apertados, do cheiro
da terra molhada, de tudo o que vivera e amara. Era o apego natural de quem amou
muito a vida. Mas, logo de seguida, num suspiro leve, explicou que já não
sentia a necessidade, nem as forças, para continuar a lutar contra a maré.
Para ele, a vida agora
assemelhava-se a uma "folha a deslizar na corrente". Deixava-se
levar, sem resistência. Aquele fio ténue que ainda o prendia à margem,
impedindo-o de se entregar totalmente ao rio do esquecimento, era, ele bem o
sabia, o amor incondicional pela sua família. Era por eles que o seu coração
ainda batia, num ritmo compassado com a chuva.
Mais tarde, no recolhimento do
seu quarto, nos longos momentos de silêncio que se tornaram habituais, ele
parecia já habitar um plano diferente. Estava ali, mas a sua essência parecia
estar noutro lugar, "com a alma a dormir" serenamente, enquanto o
corpo, por mera teimosia biológica, ainda insistia em permanecer acordado. Ele
olhava para a sua jornada não como um fim trágico, mas como algo natural: um
ciclo que se fecha, transformando a carne e o osso em memória viva, numa névoa
suave que pairaria sobre o amanhã daqueles que ficavam.
A tarde ia longa quando, com uma
calma metódica, começou a preparar a sua mala para o hospital. Dobrou as
camisas, escolheu o pijama, guardou os objetos de higiene. Cada peça colocada
na mala era um passo em direção a uma viagem que ele aceitava, interiormente,
que poderia ser sem retorno àquela casa que tanto amava. Não era uma
desistência, era a sua última e mais corajosa abordagem à vida, feita com a
serenidade dos justos.
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