A estação estava mergulhada numa névoa persistente, um lugar que não parecia pertencer a nenhum mapa. Não havia horários nas paredes, apenas um relógio de ponteiros parados e uma única linha de comboio que se perdia no vazio. Três figuras esperavam na plataforma de madeira carcomida pelo tempo.
O Banqueiro e os Seus Muros
Artur não conseguia ficar parado.
O seu fato de xadrez, impecável no mundo dos vivos, parecia agora cinzento e
gasto. Andava de um lado para o outro, gesticulando para um telemóvel sem
sinal, com a voz trémula numa raiva impotente.
Tinha passado a vida a construir
muros: muros de betão nas suas propriedades, muros de números nas suas contas
bancárias, muros de advogados para o proteger do mundo. Para Artur, a Morte era
uma auditoria surpresa, uma quebra de contrato inaceitável. Quando sentira o
toque no ombro, não vira descanso; vira o inimigo final, aquele que não
aceitava subornos.
— Isto é um erro! — exclamava,
com o suor frio a colar-se-lhe à testa. — Eu tenho projetos! Tenho reuniões!
Mais um minuto, só preciso de fazer uma chamada!
Tentava desesperadamente acumular
tempo, como se este fosse o ouro que o tinha tornado poderoso, incapaz de
aceitar que o seu plano mestre nunca seria terminado e que a Morte lhe estava a
roubar tudo o que pensava possuir.
A Influenciadora e a montra
Um pouco mais afastada, Sara
olhava fixamente para o ecrã negro do seu telemóvel, com o polegar movendo-se
num gesto mecânico de scroll, num vazio desesperado. Vestia roupas de
marca, mas pareciam estranhamente transparentes, como se a sua própria essência
estivesse a desvanecer-se.
A vida de Sara tinha sido uma
"montra" perfeita. Passara anos a fugir de si mesma, escondendo as
dúvidas por trás de filtros de beleza e a solidão atrás de milhares de
"gostos". Quando a hora chegara, percebeu, num horror silencioso, que
não sabia quem era sem as máscaras que o mundo digital lhe impunha.
Agora, tentava fugir para dentro
de memórias que não eram suas, imagens de lugares que visitara mas onde nunca
"estivera", tentando escapar de um fim que nunca se permitira
compreender. Não havia adeus nela, apenas um desaparecimento progressivo e
silencioso — a imagem desfocada de alguém que nunca chegara a estar
verdadeiramente presente.
O Velho e o Jardim
Sentado num banco de madeira,
alheio à agitação de Artur e ao desespero de Beatriz, estava o velho Matias. As
suas mãos, calejadas e gastas, descansavam sobre os joelhos. Não olhava para o
relógio paralisado, nem tentava fugir; apenas observava a névoa com uma calma
imperturbável.
Matias tinha trabalhado a terra a
vida toda, talhando o seu próprio trilho no meio do mato denso da adversidade.
O seu corpo aceitava os limites da idade, mas a sua mente estava em paz. Para
ele, o fim não era um roubo, nem um desaparecimento; era um suspiro firme.
Havia nele um cansaço profundo, o
tipo de cansaço que o aço sente antes de quebrar para finalmente arrefecer.
Para Matias, a Morte era a velha amiga que trazia o cobertor no final de uma
noite longa e gelada. Estava pronto para entregar as ferramentas.
A Chegada
Um apito ecoou na névoa. Luzes
ténues surgiram ao longe. O comboio estava a chegar.
Artur parou, aterrorizado,
tentando encontrar uma saída que os seus muros não previam. Beatriz olhou para
o telemóvel uma última vez, com o ecrã a refletir o vazio da sua própria
imagem. Matias levantou-se devagar, com um sorriso de alívio, e deu o primeiro
passo em direção à luz.
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