Bernardo acordava todos os dias com o som metálico do despertador, mas o verdadeiro ruído vinha de dentro. Antes mesmo de abrir os olhos, sua mão tateava a mesa de cabeceira em busca do smartphone, o portal das promessas que ele habitava com uma dedicação servil. Ao iluminar o rosto com a luz azul da tela, ele via o mundo de sempre: métricas de sucesso, vidas filtradas e a validação digital que prometia uma plenitude que nunca chegava.
Durante anos, Bernardo seguiu o
scripts. Ele acreditava piamente nos dogmas que seus pais e professores haviam
sussurrado em seus ouvidos: "Estude para ser alguém", "Acumule
para ser feliz", "Case para ser completo". Ele era um "frágil
pensante" que, por muito tempo, jurou ser um carvalho inabalável. No
entanto, a frustração diária corroía essa fachada. Cada promoção no emprego,
cada novo gadget adquirido, cada viagem postada e curtida servia apenas para
confirmar que ele, tardiamente, começara a digerir: a
satisfação era um fantasma que se dissipava ao toque ou cada nova conquista.
Sua vida era o pêndulo perfeito.
No escritório, Bernardo sentia a dor aguda da falta — a ânsia por um cargo
maior, por um salário que lhe permitisse comprar o próximo símbolo de status.
Quando finalmente alcançava a meta, o tédio instalava-se como uma névoa espessa
em menos de uma semana. Ele percebia que não era o senhor de sua vontade; era
apenas um veículo, uma marionete de um impulso cego e irracional que o forçava
a correr em uma esteira que não levava a lugar nenhum.
O ponto de ruptura veio com o
desassossego da sua alma. Ele sentiu que a realidade apresentada era uma
construção narrativa, um "ecrã" que escondia o abismo. O sucesso
tecnológico, que antes ele via como progresso, revelou-se uma armadilha
algorítmica. Ele não era "seguido" ou "visualizado"; ele
era processado por uma inteligência fria que se alimentava de sua busca por
dopamina.
A jornada de Bernardo para
transcender não foi um evento súbito, mas uma lenta e dolorosa descascagem de
peles. No meio do trânsito caótico, em vez de amaldiçoar o tempo perdido, ele
passava a observar a própria raiva como algo externo, um subproduto de uma
Vontade externa que tentava controlá-lo.
Sua busca foi longa e solitária.
Ele passou meses em silêncio, reduzindo progressivamente a sua presença
digital. A frustração, que antes era uma inimiga a ser combatida com consumo,
tornou-se seu objeto de estudo. Ele percebeu que a "angústia
interminável" nascia da resistência em aceitar que o mundo sensível era
fugaz como fumo.
Ele parou de "consumir"
música e passou a "ouvir" sinfonias, permitindo que as notas de
Beethoven ou Bach suspendessem, por breves minutos, o seu “eu desejante”.
Naqueles instantes de contemplação pura, o “Véu de Maia” parecia rasgar-se. Ele
não queria mais ser um "alguém" aos olhos da cultura digital; ele
buscava ser um observador da própria existência.
Bernardo entendeu que o que lhe
parecia inquestionável no passado — a necessidade de reconhecimento, a
estrutura da hierarquia social, a própria ideia de "futuro" — eram
apenas fantasias construídas pela sua mente. Sua narrativa de vida deixou de
ser sobre "conquistas". Ele aceitou que a perceção humana é
inerentemente distorcida, mas que, na consciência dessa distorção, reside a
única liberdade possível.
Ele ainda acordava com o
despertador, ainda trabalhava e ainda caminhava pelas ruas da cidade. Mas
agora, Bernardo olhava para os outdoors e para as notificações no celular com
um sorriso triste e sábio de quem conhece o truque do mágico. Ele não escapara
do mundo, pois ninguém escapa do “Dever Profissional” enquanto respira, mas ele aprendera
a caminhar entre as sombras do teatro da vida do quotidiano sem se deixar
enganar pelas luzes do palco. Ele encontrara, enfim, a paz que nasce não de ter
tudo, mas de compreender que o "tudo" era a maior das ilusões.
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