Esta é a história da metamorfose
de Bernardo — a jornada de uma criança que precisou de ver o seu mito morrer
para que o homem pudesse nascer.
O Escudo Invisível
Desde os cinco anos, Bernardo não
caminhava sozinho. Ao seu lado, trotava o Cão de Cornos, uma criatura de
fantasia que era, ao mesmo tempo, o seu guardião e o seu álibi. Nas situações
embaraçosas em casa, Bernardo refugiava-se no olhar da fera. Nos conflitos, o
cão era a sua coragem.
Bernardo chegava a colocar-se em
perigo, desafiando a gravidade em muros altos ou atravessando ruas sem olhar,
acreditando piamente que o seu amigo secreto o salvaria de qualquer queda. O
Cão de Cornos era o seu "atalho" para a segurança num mundo que ele
ainda não sabia dominar.
Após uma longa viagem, ao avistar
a entrada do Porto, Bernardo viu uma ponte que se perdia na bruma sobre o rio.
"É ali!", gritou ele, "A ponte para a terra do meu cão!".
Mas os adultos, com a sua lógica fria, explicaram que era apenas o estuário, o
fim do rio a encontrar o mar. Bernardo chorou. Ali, pela primeira vez, a razão começou a tremer sob os pés do sonho. Ele sentiu que estavam a
tentar enterrar o seu mundo, mas a sua vontade ainda resistia.
Decorridos alguns dias, os pais
levara-o a um Jardim Zoológico, a ansiedade consumia-o. Ele procurava a prova
física da sua fantasia. No final do recinto, viu pequenas casinhas cuidadas,
silenciosas e solenes. "É aqui que ele vive!", exclamou, com o
coração aos saltos.
O riso dos pais foi o golpe
final. A explicação foi um balde de água gelada sobre a sua mitologia pessoal:
"Bernardo, isto é apenas um cemitério de cães de companhia."
Naquele momento, o Cão de Cornos
não apenas morreu; ele deixou de ter existido. Bernardo chorou o luto de uma
vida inteira de ilusões. O seu protetor era, afinal, o silêncio de um túmulo.
Anos mais tarde, Bernardo
recordava esse dia não com amargura, mas com a serenidade de um "Estóico". Ele
compreendeu que a queda do seu ídolo foi o seu primeiro passo em direção à
verdadeira liberdade. Bernardo percebeu que o Cão de Cornos era uma tentativa
infantil de controlar o medo. Ao aceitar que o cão não existia, ele aceitou que
o perigo faz parte da vida e que a única proteção real é a sua própria virtude
e prudência. Ele entendeu que não podia viver baseado numa mentira, pois se
todos vivessem em fantasias para evitar a dor, a verdade perderia o seu valor e
a sociedade colapsaria.
Bernardo aprendeu que os sonhos
não morrem quando a realidade os confronta; eles transformam-se em propósito.
Ele escreveu no seu diário de adulto:
> "Durante anos, busquei
um guardião externo para as minhas batalhas. No dia em que o meu Cão de Cornos
morreu naquele cemitério, eu fui forçado a olhar para dentro.
> O ensinamento é este: Não
esperes que uma fantasia te salve dos abismos da vida. Constrói em ti uma ponte
feita de razão e carácter. A maturidade não é o enterro dos sonhos, mas a
coragem de viver num mundo real sem precisar de muletas invisíveis. “Quando
deixas de acreditar em salvadores mágicos, tornas-te o único responsável pela
tua própria dignidade."
Sem comentários:
Enviar um comentário