quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O Cão de Cornos

 

Esta é a história da metamorfose de Bernardo — a jornada de uma criança que precisou de ver o seu mito morrer para que o homem pudesse nascer.

O Escudo Invisível

Desde os cinco anos, Bernardo não caminhava sozinho. Ao seu lado, trotava o Cão de Cornos, uma criatura de fantasia que era, ao mesmo tempo, o seu guardião e o seu álibi. Nas situações embaraçosas em casa, Bernardo refugiava-se no olhar da fera. Nos conflitos, o cão era a sua coragem.

Bernardo chegava a colocar-se em perigo, desafiando a gravidade em muros altos ou atravessando ruas sem olhar, acreditando piamente que o seu amigo secreto o salvaria de qualquer queda. O Cão de Cornos era o seu "atalho" para a segurança num mundo que ele ainda não sabia dominar.

Após uma longa viagem, ao avistar a entrada do Porto, Bernardo viu uma ponte que se perdia na bruma sobre o rio. "É ali!", gritou ele, "A ponte para a terra do meu cão!". Mas os adultos, com a sua lógica fria, explicaram que era apenas o estuário, o fim do rio a encontrar o mar. Bernardo chorou. Ali, pela primeira vez, a razão começou a tremer sob os pés do sonho. Ele sentiu que estavam a tentar enterrar o seu mundo, mas a sua vontade ainda resistia.

Decorridos alguns dias, os pais levara-o a um Jardim Zoológico, a ansiedade consumia-o. Ele procurava a prova física da sua fantasia. No final do recinto, viu pequenas casinhas cuidadas, silenciosas e solenes. "É aqui que ele vive!", exclamou, com o coração aos saltos.

O riso dos pais foi o golpe final. A explicação foi um balde de água gelada sobre a sua mitologia pessoal: "Bernardo, isto é apenas um cemitério de cães de companhia."

Naquele momento, o Cão de Cornos não apenas morreu; ele deixou de ter existido. Bernardo chorou o luto de uma vida inteira de ilusões. O seu protetor era, afinal, o silêncio de um túmulo.

Anos mais tarde, Bernardo recordava esse dia não com amargura, mas com a serenidade de um "Estóico". Ele compreendeu que a queda do seu ídolo foi o seu primeiro passo em direção à verdadeira liberdade. Bernardo percebeu que o Cão de Cornos era uma tentativa infantil de controlar o medo. Ao aceitar que o cão não existia, ele aceitou que o perigo faz parte da vida e que a única proteção real é a sua própria virtude e prudência. Ele entendeu que não podia viver baseado numa mentira, pois se todos vivessem em fantasias para evitar a dor, a verdade perderia o seu valor e a sociedade colapsaria.

Bernardo aprendeu que os sonhos não morrem quando a realidade os confronta; eles transformam-se em propósito. Ele escreveu no seu diário de adulto:

> "Durante anos, busquei um guardião externo para as minhas batalhas. No dia em que o meu Cão de Cornos morreu naquele cemitério, eu fui forçado a olhar para dentro.

> O ensinamento é este: Não esperes que uma fantasia te salve dos abismos da vida. Constrói em ti uma ponte feita de razão e carácter. A maturidade não é o enterro dos sonhos, mas a coragem de viver num mundo real sem precisar de muletas invisíveis. “Quando deixas de acreditar em salvadores mágicos, tornas-te o único responsável pela tua própria dignidade."





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