domingo, 25 de janeiro de 2026

Eu sinto, logo é verdade

 

No princípio, era o Verbo. Agora, é o Post.

A humanidade atravessa uma era fascinante onde o dicionário foi substituído por um algum algoritmo de conveniência. Vivemos no auge do "Eu sinto, logo é verdade". O mundo atual transformou-se numa gigantesca arena onde a ignorância não é mais um fardo pesado, mas sim uma bandeira leve, colorida e pronta a ser hasteada em qualquer varanda digital.

Os novos arautos da verdade absoluta descobriram um truque de mestre: a antecipação. Antigamente, esperava-se que um facto acontecesse para se discutir a sua natureza. Hoje, isso é considerado uma perda de tempo imperdoável.

  • Se os dados científicos sugerem X, o populista moderno proclama Y.
  • Quando a realidade finalmente chega com as provas na mão, encontra a porta trancada.

A complexidade tornou-se o novo inimigo público. Quem usa frases com subordinadas é imediatamente suspeito de "elitismo". Os novos senhores do mundo falam a língua do "Pão, Pão, Queijo, Queijo", mas sem o pão e sem o queijo — apenas com o ruído.

Eles oferecem soluções de três palavras para problemas de três séculos. É uma estética de simplicidade que seduz não pela clareza, mas pela ausência total de esforço intelectual. É o conforto do vazio.

Como nas décadas de 20 e 30 do século passado, a indiferença deixou de ser um lapso ético para se tornar uma estratégia de sobrevivência social.

"Não me tragam problemas complexos, eu só quero que o meu algoritmo me diga que os maus são os outros."

Estamos a trocar a liberdade de pensamento pela segurança de não ter de pensar. É uma transação comercial terrível, onde entregamos a nossa autonomia em troca de um lugar num rebanho que se sente vanguardista enquanto caminha alegremente para trás.

A ignorância tornou-se militante. Antes, o ignorante calava-se por vergonha; hoje, ele interrompe a aula para explicar ao professor como o mundo realmente funciona (baseado num vídeo de 30 segundos que viu enquanto esperava pelo café).


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