No princípio, era o Verbo. Agora,
é o Post.
A humanidade atravessa uma era
fascinante onde o dicionário foi substituído por um algum algoritmo de
conveniência. Vivemos no auge do "Eu sinto, logo é verdade". O
mundo atual transformou-se numa gigantesca arena onde a ignorância não é mais
um fardo pesado, mas sim uma bandeira leve, colorida e pronta a ser hasteada em
qualquer varanda digital.
Os novos arautos da verdade
absoluta descobriram um truque de mestre: a antecipação. Antigamente,
esperava-se que um facto acontecesse para se discutir a sua natureza. Hoje,
isso é considerado uma perda de tempo imperdoável.
- Se os dados científicos sugerem X, o populista
moderno proclama Y.
- Quando a realidade finalmente chega com as provas
na mão, encontra a porta trancada.
A complexidade tornou-se o novo
inimigo público. Quem usa frases com subordinadas é imediatamente suspeito de
"elitismo". Os novos senhores do mundo falam a língua do "Pão,
Pão, Queijo, Queijo", mas sem o pão e sem o queijo — apenas com o ruído.
Eles oferecem soluções de três
palavras para problemas de três séculos. É uma estética de simplicidade que
seduz não pela clareza, mas pela ausência total de esforço intelectual. É o
conforto do vazio.
Como nas décadas de 20 e 30 do
século passado, a indiferença deixou de ser um lapso ético para se tornar uma
estratégia de sobrevivência social.
"Não me tragam problemas
complexos, eu só quero que o meu algoritmo me diga que os maus são os
outros."
Estamos a trocar a liberdade de
pensamento pela segurança de não ter de pensar. É uma transação comercial
terrível, onde entregamos a nossa autonomia em troca de um lugar num rebanho
que se sente vanguardista enquanto caminha alegremente para trás.
A ignorância tornou-se militante. Antes, o ignorante calava-se por vergonha; hoje, ele interrompe a aula para explicar ao professor como o mundo realmente funciona (baseado num vídeo de 30 segundos que viu enquanto esperava pelo café).

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