terça-feira, 20 de janeiro de 2026

A vida é um teatro

 

O despertador de Bernardo não era um som, era uma cobrança. Às 6h30, o mundo lá fora já exigia que ele fosse algo: um funcionário produtivo, um filho presente, um cidadão exemplar. Mas, naquele dia, Bernardo acordou sentindo o peso da "não escolha".

Ele se sentou à mesa de um café lotado antes do trabalho. O ruído era ensurdecedor. Ao seu lado, Ricardo, um colega de longa data, gesticulava freneticamente sobre o novo projeto da empresa.

— Bernardo, tens de te impor! — dizia Ricardo, entre goles de café expresso. — O mundo pertence aos que fazem o que querem, aos que atropelam os obstáculos. Se não escolheres o teu topo, escolhem por ti o teu chão.

Bernardo sorriu, uma ironia suave curvando-lhe os lábios. Ele pensou em Spinoza. Ricardo acreditava numa liberdade que era, no fundo, uma ilusão de ótica. Ricardo achava que era o capitão do navio, ignorando as correntes marítimas, os ventos e a própria estrutura da madeira que o carregava.

— Enganas-te, Ricardo — respondeu Bernardo calmamente. — A ironia da vida é que raramente fazemos o que queremos. Fazemos o que podemos, conforme a nossa natureza e as causas que nos movem. A liberdade não está em mudar o vento, mas em entender por que o vento sopra e como ajustar as velas sem revolta.

O Confronto com a Vontade

A manhã seguiu pesada. No escritório, Bernardo foi confrontado com uma decisão da administração que invalidava meses do seu trabalho. O impulso natural seria a raiva, o grito, a indignação estoica contra a injustiça. Seus colegas reclamavam nos corredores, sentindo-se vítimas de um sistema cruel.

Bernardo, porém, recolheu-se ao seu silêncio. A decisão dos chefes era uma "coisa externa". Inquietação? Sim, ele a sentia como uma vibração no peito, mas não permitia que ela se tornasse o seu roteiro. Ele entendeu que ser o "protagonista do seu caminho" não significava ditar o roteiro, mas sim escolher a qualidade da sua interpretação, mesmo perante a ausência de opções.

Ao final do dia, caminhando por um parque enquanto o sol se punha, a inquietude de Bernardo transformou-se em contemplação. Ele via as folhas caírem — elas não "escolhiam" cair, elas seguiam a lei da gravidade e do ciclo biológico. Elas eram perfeitas na sua entrega.

Ele sentou-se num banco de pedra. A cidade ao longe pulsava com luzes e pressa. Foi ali que a clareza o atingi, percebeu que a sua pequena tragédia diária — o projeto cancelado, a incompreensão de Ricardo — era apenas um ponto minúsculo num tecido infinito.

Bernardo entendeu que, embora seu corpo físico fosse finito, a "ideia" de sua essência permaneceria para sempre na mente da Natureza. Ele era o início e o fim, pois o tempo é apenas uma perceção humana.

Aquela demissão iminente ou aquela falha de comunicação não podiam tocar o seu "Eu Sou". Se ele era uma expressão da Própria Divindade (a Natureza), então tudo o que lhe acontecia era, de certa forma, um diálogo de Deus consigo mesmo.A ironia final tornou-se clara para ele: a verdadeira autonomia não vinha de "fazer o que se quer", mas de querer exatamente o que a realidade apresenta. Ao aceitar o que não podia mudar, Bernardo deixava de ser um escravo das circunstâncias para se tornar o mestre da sua própria paz.

Ele levantou-se do banco. O caminho de volta seria o mesmo, as contas para pagar seriam as mesmas, e a incompreensão alheia continuaria lá. No entanto, o roteiro tinha mudado. Bernardo já não tentava ser o autor da peça, mas reconhecia-se como o próprio teatro onde a vida acontecia.

Ele era o Alfa, o impulso da vida que o fazia caminhar; e o Ómega, o repouso final na ordem perfeita de todas as coisas.

Uma imagem com vestuário, pessoa, edifício, ar livre

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