O despertador de Bernardo não era
um som, era uma cobrança. Às 6h30, o mundo lá fora já exigia que ele fosse
algo: um funcionário produtivo, um filho presente, um cidadão exemplar. Mas,
naquele dia, Bernardo acordou sentindo o peso da "não escolha".
Ele se sentou à mesa de um café
lotado antes do trabalho. O ruído era ensurdecedor. Ao seu lado, Ricardo, um
colega de longa data, gesticulava freneticamente sobre o novo projeto da
empresa.
— Bernardo, tens de te impor! —
dizia Ricardo, entre goles de café expresso. — O mundo pertence aos que fazem o
que querem, aos que atropelam os obstáculos. Se não escolheres o teu topo,
escolhem por ti o teu chão.
Bernardo sorriu, uma ironia suave
curvando-lhe os lábios. Ele pensou em Spinoza. Ricardo acreditava numa
liberdade que era, no fundo, uma ilusão de ótica. Ricardo achava que era o
capitão do navio, ignorando as correntes marítimas, os ventos e a própria estrutura
da madeira que o carregava.
— Enganas-te, Ricardo — respondeu
Bernardo calmamente. — A ironia da vida é que raramente fazemos o que queremos.
Fazemos o que podemos, conforme a nossa natureza e as causas que nos movem. A
liberdade não está em mudar o vento, mas em entender por que o vento sopra e
como ajustar as velas sem revolta.
O Confronto com a Vontade
A manhã seguiu pesada. No
escritório, Bernardo foi confrontado com uma decisão da administração que
invalidava meses do seu trabalho. O impulso natural seria a raiva, o grito, a
indignação estoica contra a injustiça. Seus colegas reclamavam nos corredores,
sentindo-se vítimas de um sistema cruel.
Bernardo, porém, recolheu-se ao
seu silêncio. A decisão dos chefes era uma "coisa externa".
Inquietação? Sim, ele a sentia como uma vibração no peito, mas não permitia que
ela se tornasse o seu roteiro. Ele entendeu que ser o "protagonista do seu
caminho" não significava ditar o roteiro, mas sim escolher a qualidade da
sua interpretação, mesmo perante a ausência de opções.
Ao final do dia, caminhando por
um parque enquanto o sol se punha, a inquietude de Bernardo transformou-se em
contemplação. Ele via as folhas caírem — elas não "escolhiam" cair,
elas seguiam a lei da gravidade e do ciclo biológico. Elas eram perfeitas na
sua entrega.
Ele sentou-se num banco de pedra.
A cidade ao longe pulsava com luzes e pressa. Foi ali que a clareza o atingi, percebeu
que a sua pequena tragédia diária — o projeto cancelado, a incompreensão de
Ricardo — era apenas um ponto minúsculo num tecido infinito.
Bernardo entendeu que, embora
seu corpo físico fosse finito, a "ideia" de sua essência permaneceria
para sempre na mente da Natureza. Ele era o início e o fim, pois o tempo é
apenas uma perceção humana.
Aquela demissão iminente ou
aquela falha de comunicação não podiam tocar o seu "Eu Sou". Se ele
era uma expressão da Própria Divindade (a Natureza), então tudo o que lhe
acontecia era, de certa forma, um diálogo de Deus consigo mesmo.A ironia final
tornou-se clara para ele: a verdadeira autonomia não vinha de "fazer o que
se quer", mas de querer exatamente o que a realidade apresenta. Ao aceitar
o que não podia mudar, Bernardo deixava de ser um escravo das circunstâncias para
se tornar o mestre da sua própria paz.
Ele levantou-se do banco. O
caminho de volta seria o mesmo, as contas para pagar seriam as mesmas, e a
incompreensão alheia continuaria lá. No entanto, o roteiro tinha mudado.
Bernardo já não tentava ser o autor da peça, mas reconhecia-se como o próprio teatro
onde a vida acontecia.
Ele era o Alfa, o impulso da vida
que o fazia caminhar; e o Ómega, o repouso final na ordem perfeita de todas as
coisas.
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