domingo, 28 de dezembro de 2025

O tempo é como vento

 A história de Bernardo mostra que vivemos num palco de papel. O que hoje consideramos vital — o prestígio, a moda, a propriedade — é apenas o cenário que será desmontado ao final do espetáculo.

  • A Superficialidade: Reside em acreditar que o valor está nos objetos.

  • A Fluidez: O que é "importante" muda conforme quem nos observa.

  • O Esquecimento: É o destino final de toda a matéria é memória.

Ao aceitarmos que somos passageiros, podemos parar de tentar esculpir o nosso nome na água e passar a apreciar apenas a frescura do mergulho, enquanto ele dura.

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O Inventário do Esquecimento

O relógio de parede na sala de Bernardo não marcava as horas; marcava a insistência do silêncio. Aos oitenta anos, ele sentava-se na sua poltrona de veludo — outrora um símbolo de status e bom gosto, agora apenas um móvel com o tecido gasto e o cheiro a poeira.

A Ilusão da Posse

Bernardo olhou para a sua casa. Lembrava-se da obsessão com que escolhera o mármore da cozinha e a raridade da madeira do soalho. Naquela época, a casa era o seu palco; ele acreditava que a solidez das paredes garantia a solidez do seu nome. Hoje, as fendas no teto pareciam rugas que ele não podia esconder. A casa, que ele pensou ser um legado eterno, era agora apenas um fardo de manutenção que os seus herdeiros já planeavam vender.

A Casca do Ego

Abriu o roupeiro. Lá estavam os fatos italianos, cortados à medida, que outrora lhe conferiam uma aura de poder em reuniões de negócios. Naquele tempo, a roupa era a sua armadura. Ele sentia-se importante pelo toque da seda. Agora, aqueles tecidos pareciam mortalhas de uma identidade que já não lhe servia. Para quem o visse hoje, ele era apenas um velho de pijama de algodão barato. A importância do traje dependia inteiramente do olhar de quem o rodeava; sem plateia, a seda não passava de fio de bicho-da-seda.

O Bálsamo e o Veneno do Tempo

O tempo é um alquimista estranho. Bernardo lembrou-se de uma tragédia que o assolara aos trinta anos: a perda de um contrato importante. Na altura, pareceu-lhe o fim do mundo, um abismo de desespero. Hoje, era uma nota de rodapé irrelevante, uma memória que nem sequer evocava batimentos cardíacos acelerados.

Por outro lado, o gesto simples de uma antiga vizinha que lhe trouxera um caldo num dia de febre — algo que ele mal valorizara na época — brilhava agora na sua memória como o momento mais significativo da sua vida. O tempo tinha transmutado o metal comum da rotina no ouro da saudade.

O Apagar das Luzes

As relações humanas, que ele cultivara com a intensidade de quem planta árvores imortais, revelavam-se frágeis. Os amigos partiram; os filhos tinham as suas próprias órbitas, onde ele era apenas um satélite distante. Bernardo percebeu que, daqui a duas gerações, o seu nome seria apenas uma entrada num registo civil, e a sua fotografia um rosto anónimo num mercado de antiguidades.

Ele próprio, com todas as suas dores, ambições e segredos, seria irrediavelmente esquecido. A consciência desta superficialidade não lhe trouxe tristeza, mas uma liberdade inesperada.








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