Bernardo e o Relógio da Estrada
Bernardo aprendeu cedo que o tempo não pede licença. Ele passa, arrasta tudo e não olha para trás. Talvez por isso Bernardo tenha vivido como quem foge — da cidade pequena, das promessas quebradas, do espelho.
Trabalhava onde dava, dormia onde podia. A estrada era sua casa e o motor velho do carro, sua única certeza. Cada quilómetro parecia uma tentativa de recomeço, mas o passado insistia em viajar no banco de trás.
Bernardo tinha talento, mas também medo. Medo de parar. Medo de ficar. Medo de perceber que não era o mundo que o deixava para trás — era ele que se atrasava.
Numa noite quente, parado num posto de gasolina esquecido, o relógio da parede marcava uma hora errada. Ou talvez fosse a hora certa demais. Bernardo sentiu algo raro: silêncio. Não o silêncio vazio, mas aquele que pergunta.
Foi ali que ele entendeu. Não dava mais para culpar o tempo, nem o azar, nem as pessoas que partiram. Cada escolha não feita também era uma escolha. Cada dia empurrado para depois era um pedaço de vida perdido.
Na manhã seguinte, Bernardo não acelerou. Virou o carro. Voltou.
Não para pedir desculpa ao mundo — mas para assumir quem era. O tempo continuava impiedoso, sim. Mas agora ele não corria atrás dele. Caminhava junto.
E pela primeira vez, Bernardo não sentiu que estava atrasado. Sentiu que tinha chegado.

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