É estranho escrever isto, sabendo que as palavras talvez nunca cheguem aos teus olhos, mas o meu coração insiste em falá-las. Já passaram trinta anos, Mãe. Trinta anos. Parece uma vida inteira para quem conta os dias, mas para mim, é apenas um prolongado instante desde aquele 29 de fevereiro, o dia em que esta vida chegou ao fim. O tempo, dizem, cura todas as feridas, mas o que ele fez à minha foi torná-la numa cicatriz.
Lembro-me de quando eu era a
tua primeira opção. Não havia problema pequeno demais ou tristeza grande demais
que tu não pudesses apoiar. Eras o meu despertador gentil de manhã, o cheiro do
café que me fazia saber que o dia seria bom. Eras a mão fresca na minha testa
febril, a voz suave que acalmava os meus medos noturnos. Eras o meu porto
seguro, o meu farol. E eu sinto falta disso, Mãe, sinto uma falta que me rasga
o peito.
Cresci, sabes? Com as minhas
próprias responsabilidades, as minhas próprias batalhas. E em cada encruzilhada
da vida, em cada decisão importante, há uma parte de mim que se vira para trás,
à procura da tua sabedoria, do teu olhar, da tua aprovação. E então, o silêncio
preenche o vazio, e a realidade bate forte de novo.
Há uma música, Mãe, que me
lembra de ti. É uma melodia triste, com cordas que choram como se a terra
sentisse a mesma dor que eu. Ela fala de uma dor que o tempo não leva, de um
grito silencioso. "Mãe, não vai embora", as palavras ecoam na minha
alma, como um lamento que nunca te alcançou. Ainda hoje, o meu coração de
criança sussurra essa frase, mesmo que o homem que sou saiba que não há
regresso.
Aprendi a viver com a tua
ausência. É como carregar uma pedra preciosa que me foi roubada, mas cujo
brilho ainda ilumina os cantos mais escuros da minha memória. O teu cuidado, a
tua presença, o teu amor... eles moldaram-me de uma forma que nada mais conseguiu.
Tu fizeste de mim quem eu sou, e por isso, eu carrego-te em cada fibra do meu
ser.
Sei que a vida continua, e
que as pessoas esperam que eu siga em frente. E… eu sigo. Mas tu, Mãe, tu nunca
vais embora. Tu vives nas minhas memórias mais doces, nas minhas lágrimas mais
sentidas.
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