quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O Eco do Silêncio no Dia que Não Existe

 É estranho escrever isto, sabendo que as palavras talvez nunca cheguem aos teus olhos, mas o meu coração insiste em falá-las. Já passaram trinta anos, Mãe. Trinta anos. Parece uma vida inteira para quem conta os dias, mas para mim, é apenas um prolongado instante desde aquele 29 de fevereiro, o dia em que esta vida chegou ao fim. O tempo, dizem, cura todas as feridas, mas o que ele fez à minha foi torná-la numa cicatriz.

Lembro-me de quando eu era a tua primeira opção. Não havia problema pequeno demais ou tristeza grande demais que tu não pudesses apoiar. Eras o meu despertador gentil de manhã, o cheiro do café que me fazia saber que o dia seria bom. Eras a mão fresca na minha testa febril, a voz suave que acalmava os meus medos noturnos. Eras o meu porto seguro, o meu farol. E eu sinto falta disso, Mãe, sinto uma falta que me rasga o peito.

Cresci, sabes? Com as minhas próprias responsabilidades, as minhas próprias batalhas. E em cada encruzilhada da vida, em cada decisão importante, há uma parte de mim que se vira para trás, à procura da tua sabedoria, do teu olhar, da tua aprovação. E então, o silêncio preenche o vazio, e a realidade bate forte de novo.

Há uma música, Mãe, que me lembra de ti. É uma melodia triste, com cordas que choram como se a terra sentisse a mesma dor que eu. Ela fala de uma dor que o tempo não leva, de um grito silencioso. "Mãe, não vai embora", as palavras ecoam na minha alma, como um lamento que nunca te alcançou. Ainda hoje, o meu coração de criança sussurra essa frase, mesmo que o homem que sou saiba que não há regresso.

Aprendi a viver com a tua ausência. É como carregar uma pedra preciosa que me foi roubada, mas cujo brilho ainda ilumina os cantos mais escuros da minha memória. O teu cuidado, a tua presença, o teu amor... eles moldaram-me de uma forma que nada mais conseguiu. Tu fizeste de mim quem eu sou, e por isso, eu carrego-te em cada fibra do meu ser.

Sei que a vida continua, e que as pessoas esperam que eu siga em frente. E… eu sigo. Mas tu, Mãe, tu nunca vais embora. Tu vives nas minhas memórias mais doces, nas minhas lágrimas mais sentidas.





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