Bernardo nunca foi um homem de
meias palavras, mas havia uma carta que ele nunca conseguiu terminar. Não era
para a esposa que o esperava em casa, nem para os filhos que cresciam demasiado
depressa. Era uma "Carta pra Ninguém", escrita na solidão da sua Alma, com o Peso da Alma a arrastá-lo.
Desde muito jovem, Bernardo
carregava um fardo invisível. Não um fardo físico, mas a culpa de algo que, aos
olhos dos outros, não passava de um engano de miúdo. Mas para ele, era um
abismo de um sonho inexplicável.
O Desaparecimento: O
primeiro ato desta sombra silenciosa começou com a falta de explicação racional do sucedido na sua infância. Um
segredo enterrado, um momento de fraqueza que
transformou a sua infância num labirinto. Ele tentou esquecer, contar aos adultos, porém nunca o conseguiu. Ao longo tempo mergulhou no estudo da alma humana, no trabalho, casou, teve filhos. Mas a sombra daquele dia nunca o abandonou.
A Culpa e a Fé: A sua fé
era um castelo de cartas, construído e desfeito a cada amanhecer. Ele ia à
missa, ajoelhava-se, mas as palavras do padre eram como o vento, passando por
ele sem deixar rasto. "Que culpa é esta que não se apaga?",
pensava ele, um lamento lento e pesado, ecoava na sua mente.
Ele escrevia rascunhos da tal
carta, guardava-os na gaveta. Começava com "Querido...", mas nunca
encontrava o destinatário. Como escrever a alguém que só existe na sua
consciência? O peso da alma era tanto que ele sentia que, se a carta fosse lida,
o leitor também carregaria um pedaço da sua dor.
O Novo Rumo: Um dia um menino, seu vizinho em pranto veio à sua casa dizendo que perderá o seu cão. Decidiu ajudar o menino, procurando em cada arbusto e chamando pelo seu nome. Bernardo sentiu o peso da sua alma começava a dissipar-se. Ajudar
aquela criança a encontrar o que tinha perdido tornou-se a sua própria busca.
Quando finalmente o cãozinho saltou dos arbustos para os braços do dono,
Bernardo sentiu um estalo no peito: a percepção de que a dor de outrora não
tinha de ser um túmulo, mas podia ser o solo onde cresce a empatia.
Ele compreendeu, finalmente, que
a sua "historia" o tinha mantido refém, impedindo-o de viver plenamente e de
estender a mão a quem precisava. Ao salvar a alegria daquele miúdo, Bernardo
deu um novo sentido aos seus próprios anos de silêncio. Percebeu que o perdão
não se encontra apenas no esquecimento do passado, mas na luz que decidimos
projetar no presente. Ali, entre o abacateiro e a ginkgo-biloba, ele decidiu
que o resto dos seus dias não seriam sobre o que se passou no passado, mas sobre quem
ele ainda poderia ajudar a encontrar o caminho de volta a casa.
À noite, Bernardo pegou na carta.
Rasgou todos os rascunhos antigos. Desta vez, começou de novo.
"Querido Eu..."
Ele escreveu sobre a sua jornada,
sobre o peso que carregava, sobre o medo de ser julgado e não ser compreendido. Mas desta vez,
escreveu também sobre o perdão, sobre a beleza das suas laranjeiras, abacateiro
e ginkgo-biloba no quintal, e sobre o riso daquele miúdo. A carta não era para
ninguém; era para ele mesmo. Era a sua libertação.
Bernardo nunca mais ouviu a
canção com o mesmo desespero. O "Peso da Alma" ainda estava lá, mas
já não o arrastava para o fundo. Ele tinha encontrado uma forma de carregar o
seu fardo, não como uma punição, mas como parte da sua história, uma história
onde a culpa e a fé dançavam uma valsa melancólica.
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